terça-feira, novembro 20, 2007

É por estas e por outras que hoje em dia não acredito em santas de altar nem em machões que se auto-intitulam de barba rija

Um amigo ao contar-me a sua última aventura fez-me dissertar uma vez mais sobre o tema da perversão. Ele sempre foi extremamente liberal a nível sexual e por isso tento previamente preparar a minha “psico” para o que me vai contar nos minutos seguintes. No entanto, em um ou outro pormenor, acaba sempre por me surpreender. Parece que desta vez não fui o único.
Envolveu-se num curioso jogo de submissão. Ele dominador, o outro o dominado. Todas as regras foram estipuladas previamente no messenger. Pediu, perdão, exigiu ao outro que aparecesse à porta de sua casa vendado e trazendo um (“excitante”) fio dental como roupa interior. Nem passou uma hora até o outro aparecer-lhe em casa naqueles propósitos. Ficou surpreendido, mesmo sabendo antecipadamente todas as características de quem estava naquele momento à sua frente: muito bem constituído fisicamente, que justificaria a sua função de um cargo razoavelmente prestigiado no exército nacional e a transpirar masculinidade por todos os poros - e parece que eram mesmo muitos, dado os seus mais de um metro e noventa de altura. Não houve troca de quaisquer palavras. O submisso deixou-se conduzir até ao quarto pelo seu mestre. Despem-se. O meu amigo toma imediatamente a decisão de colocar um preservativo ao reparar que o outro já estava “de quatro”, só com a tal lingerie vestida, em cima da sua cama, disposto veementemente a fazer honrar o seu compromisso. Os preliminares (ou quaisquer outro tipo de preparativos) não estavam nas regras, o “senhor militar” também assim preferiu. Consta que no início ainda se ouviu uns grunhidos agudos de dor, mas parece que o homem aguentou-se bem às primeiras investidas.Território conquistado e já suplicava por mais. O entusiasmo da vitória atingiu o nível hardcoresco de um “arrebenta-me as entranhas”! Sim... Utilizava uns nomes menos próprios. Não de serem exclamados em momentos de grande excitação como aquele, mas soavam no mínimo estranho ao serem proclamados por um senhor com uma voz muito grossa, um “senhor militar”, chefe de família, pai de filhos e por aí a fora. Foi então essa a segunda surpresa, a fantasia do “sargento submisso”, chegou ao ponto de trocar os nomes dos seus órgãos sexuais. Então, por sua legítima vontade: o seu ânus passou naquele momento a ser uma potentíssima vagina insaciável - peço desculpa, por qualquer coisinha, mas é a minha melhor tradução “soft” possível da designação relatada. Do que conheço do meu amigo, tal não é coisa para causar-lhe grandes amassos na consciência, por isso perseguiram como se não houvesse amanhã - sobretudo como se não houvesse um passado castrador por explicar -, até quase ao fim do mundo, mas não até ao fim do jogo. Porque este só terminou, quando o meu amigo exigiu que o outro se metesse, em dois segundos, fora de sua casa, mas tal não aconteceu sem antes de ele ter estado sentado no sofá durante mais de 5 minutos, a fumar um cigarro, enquanto que o seu servo se mantinha de coqueras, no centro da sala, a servir de apoio para as suas pernas. Perguntei-lhe com um ar trocista: “Foi ideia tua?”, o meu amigo franziu a testa. “Achas?!”. O que perfez a sua terceira surpresa daquele final de tarde.

Foi no preciso momento em que o seu “partner do jogo”, depois do acto (bem) consumado, se ter colocado de joelhos à sua frente (sem que ele tenha dado tal ordem) que o meu amigo percebeu que tinha acabado de participar em algo que transcendia a concretização de uma simples fantasia ou de uma mera brincadeira entre dois adultos.
Não tenho certezas absolutas sobre a minha própria sexualidade quanto mais de alguém que não conheço. Nem nunca conseguirei provar que desejos reprimidos e alguns estigmas e preconceitos por resolver podem resultar numa mistura explosiva na constituição da personalidade de qualquer indivíduo. Mas sei, por mim e por quem me já foi dado a conhecer, que a sexualidade humana vai muito para além das duas ou três designações estereotipadas que a ciência e a sociedade pediram para nos encaixarmos e que nada disto até nem traria grande mal ao mundo se tal obrigatoriedade, não provocasse, em certas pessoas, uma perversão sem limites. E sem retorno.

domingo, novembro 18, 2007

Notícia em primeira mão

ASAE fecha ASAE
Na sequência de uma visita relâmpago dos inspectores da ASAE às instalações da ASAE, foram detectadas quantidades consideráveis de material videográfico e fonográfico, bem como de alimentos em adiantado estado de putrefacção e cem litros de ginginha. Alguns dos elementos da ASAE chegaram mesmo a ser presos por elementos da ASAE, no momento em que transportavam os sacos negros onde o material havia sido recolhido para análise. As alegações do responsável de dia pelas instalações, de que aquele material era resultante de uma acção sobre uma feira, não foram tidas em conta pelos oficiais da ASAE que comandaram esta acção, já considerada a mais bem sucedida desde a criação da Autoridade.

Cartão amarelo

A coerência não é palavra para constar do dicionário de alguns árbitros “tugas”. Ficam indiferentes se a viagem é para o Brasil ou para as Bahamas, se a “fruta” é brasileira ou ucraniana, mas são intransigentes quando se coloca em causa os valores da família e o tal pênalti (muito duvidoso).

quarta-feira, novembro 14, 2007

E se eu fosse trabalhar por conta de uma “galinha serial killer”?

Recebi uma proposta de emprego para trabalhar na Tabaqueira. Sem anúncios, sem envio de currículos, sem entrevistas. O inesperado convite de um ex-colega surgiu assim (quase) do meio do nada. E foi feito à frente de dois actuais colegas de trabalho. Por tal, não passou um dia e já metade da restante empresa estava ao corrente da situação. Houve quem não se fizesse rogado em vir logo dar-me os parabéns: que não pensasse duas vezes em decidir aceitar a oportunidade. E “oportunidade” é a palavra certa, pois, diz-se, que não é fácil entrar para os quadros de qualquer empresa do grupo Philip Morris, aliás, também diz-se, que os processos de selecção da Tabaqueira são do mais penoso e exigente que há, só mesmo superados (a nível de grau de dificuldade) pelos da Microsoft. Mas, curiosamente ou não, a maioria das interpelações que recebi vieram no sentido inverso. “Xiii, para a tabaqueira? Uma empresa que produz autênticos atestados de óbito em série?”, “Eticamente nunca aceitaria um lugar desses, nem por 1000 contos por mês”, “... se alguém da tua família fosse atropelado por um comboio irias trabalhar para a CP?”(?), “Uns verdadeiros assassinos em potência!”. “E uma verdadeira galinha de ovos de ouro para o nosso estado”, repostou alguém. “Que seja uma galinha serial killer, mas que de facto é uma bela fonte de riqueza nacional, lá isso é” pensei e completei eu. Ouvi de tudo, uns mais exagerados, outros mais apocalípticos. Bom há que em primeiro lugar perceber bem que quem lá trabalha não tem propriamente a função de enfiar os cigarros boca-a-dentro dos consumidores. E sim, a nicotina cria dependência. O álcool também, mas garantidamente não criaria tanta celeuma entre os meus colegas se esta proposta de trabalho viesse da Unicer.
Fiquei em ponderar melhor sobre o assunto. Comecei por pensar sobretudo na empresa para a qual trabalho actualmente. Uma multinacional pouco conhecida em Portugal e um pouco mais em outros países da Europa, na Ásia e Austrália. Mas, uma das grandes nos “States” (ficou no top 20 das maiores empresas americanas da "business-qualquer-coisa"). Por cá tem tido um progresso modesto mas consistente. Impostos, débitos e salários em dia, lucros razoáveis. Nada a declarar, por aqui, portanto. Entretanto, alargo o meu ponto de vista e chego a áreas de negócio em que somos dominadores no mercado norte-americano mas temos quota de mercado nula ou inexpressiva em Portugal. Ocorreu-me logo a (inevitável) actividade “aeroespacial”. Se ficássemos só pela contribuição com sistemas e peças para colocar aviõezinhos e naves americanas a voar e a ir à lua, respectivamente, dava-me por satisfeito e o assunto morria aqui. Mas não. Provavelmente 90% dos empregados portugueses desta empresa não sabem, nem querem saber (os restantes que sabem também não querem saber), que os aviões, helicópteros, radares, sistemas antimísseis que a força aérea americana usou e usa nas suas guerras tem material “nosso”. Sendo assim, que legitimidade terei eu (ou qualquer outro empregado desta empresa) para apontar o dedo e acusar um trabalhador de uma tabaqueira por falta de ética?

segunda-feira, novembro 12, 2007

Tudo é recuperável?

Somos todos pela liberdade e pluralidade de ideias. Há no entanto uma característica chamada bom senso que permite-nos racionalizar essas ideias para o que faz (o mínimo) sentido e o que não faz. Há jornais e revistas que não nasceram para fazer este tipo de avaliação, mas há outras que (felizmente) sim, mas de vez em quando descuidam-se. Quando um jornal decide publicar uma ideia racista de um cientista ou uma revista, como a Visão, decide publicar a opinião de uma terapeuta (e psicóloga) dizendo que a homossexualidade é uma doença (mas “tem recuperação”), não o fazem inocentemente, não “é só mais uma opinião”. Sabem que são declarações, no mínimo, polémicas e que isso permitir-lhes-á uma maior mediatização. E uma mediatização conseguida à custa de uma palermice, hoje em dia, é “sucesso” garantido num país desejoso por ouvir e discutir palermices. Sobretudo quando elas são ditas por gente, supostamente, culta e inteligente.
Acredito até que a Visão, outras revistas e jornais deste país possam necessitar de um pouco de polémica para “sobreviver” - num mercado cada vez mais competitivo, principalmente desde a entrada dos jornais gratuitos - como uma senhora doutora terapeuta precisará de uma certa publicidade para amealhar mais uns trocos de uns tontos, que recorram às suas consultas de recuperação de uma sexualidade “normal”.
O novo desafio dos directores que ainda ponderam com bom senso nas decisões acerca do conteúdo das suas publicações, é saber se será compensador publicar uma alarvidade, mesmo que tal lhes aumente as tiragens e se fale no assunto durante uma semana (no máximo), em detrimento da perda de algo que muito dificilmente será recuperável: a sua credibilidade e fidelidade dos leitores (ofendidos ou que simplesmente não façam da “palhaçada” um modo de leitura informativa). A não ser que também haja por aí algum(a) terapeuta ou psicólogo/a especialista neste tipo de recuperações e eu desconheça.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Thin Red Line

(Voz do narrador: actor principal, Wagner Moura)
O Rio de Janeiro tem mais de 700 favelas. Quase todas dominadas por traficantes armados até aos dentes... No resto do mundo essas armas são usadas para fazer guerra. No Rio são as armas do crime... É burrice pensar que os policiais numa cidade assim vão subir a favela só para fazer valer a lei. Policial também tem família, policial também tem medo de morrer. É por isso que nessa cidade todo o policial tem que escolher: ou se corrompe ou se omite ou vai para a guerra!
A maioria das pessoas não gosta de guerra e o Major Oliveira não é excepção. Toda sexta feira ele sobe o morro para ir buscar o “arrego” – a gana que os policiais corruptos cobram para aliviar o tráfico de drogas. Os traficantes também vivem em guerra, mas também querem sobreviver. Para quê trocar tiro com a polícia se dá para negociar?... A verdade é que a paz no Rio dependente de um equilíbrio delicado entre a munição dos bandidos e a corrupção dos policiais. Honestidade não faz parte do jogo. Se o Rio dependesse exclusivamente da polícia convencional os traficantes já tinham tomado a cidade faz tempo. É por isso que existe o BOPE: tropa de elite da polícia militar. Na teoria, o BOPE faz parte da polícia militar, na prática é uma polícia completamente diferente... O símbolo do BOPE deixa claro o que acontece quando a gente entra na favela. E a nossa farda não é azul, é PRETA!

“Tropa de Elite” (José Padilha, 2007) é um dos filmes mais extraordinariamente realistas e crus que já vi até hoje. As comparações passam a ser óbvias: ao lado deste, o (magnífico) “Cidade de Deus” é o “Prison Break” e o “nosso” recém-estreado “Corrupção” é o pequeno “Ruca”!
Não sei se está agendada a sua estreia por cá. De qualquer forma, para os interessados, ele pode ser “sacado” neste blogue. Valeu!

terça-feira, novembro 06, 2007

Encontros imediatos

Opto por ficar ali sozinho, quase isolado, distante dos amigos e do aglomerado de pessoas que “mexem-se” numa pista de dança bem concorrida. Estou num sítio privilegiado porque também me permite observar a fauna que circula em meu redor.
Não demora muito tempo até me deixar embalar pela melodia que sai das colunas que também se encontram à minha frente. Movo-me timidamente. A sistemática “batida” acaba por contagiar-me e mexo-me com mais energia. Estou a gostar do que oiço e fecho momentaneamente os olhos – como se isso me permitisse um contacto mais directo com a música que ouvia. Uns segundos depois, “desperto”, porque alguém passou, embateu contra mim e estava agora mesmo ali ao meu lado. Pedimos simultaneamente desculpa e tocamo-nos no ombro, como forma automática e suplementar de reforçar esse pedido. Estou ainda meio atordoado da colisão e da consequente súbita interrupção da minha sessão de “hipnose”. Mesmo assim mantenho-me a olhar, em direcção à minha retaguarda, para quem chocou comigo. Foi uma reacção mútua. Sorrimos.
Nos filmes, estas cenas também acontecem em fracções de segundos mas, reveladas em “slow motion”, o acontecimento parece ganhar outro tipo de impacto. De qualquer forma, não deixou de ser um curioso momento. Ficção à parte e voltando à minha realidade, gostava de acreditar que as pessoas não se chocam umas contra as outras por mero acaso. Poderia ser, nem que seja, só como uma prova (inconsciente ou não) de que estamos vivos. Ou então – a minha parte favorita desta teoria – porque somos todos campos magnéticos sem poder de controlo sobre os pólos de atracção.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Untrue


Não se perde nada em alargarmos o nosso cardápio de escolhas musicais no que toca à música de dança (que não se dança). Antes pelo contrário: pode-se ganhar um dos melhores discos que será editado este ano.
Se não o encontrarem por aí, peçam um link por aqui.

True


sexta-feira, novembro 02, 2007

2º momento cinematográfico do dia: a capa tem sempre razão

Um colega de trabalho prometeu-me fazer uma cópia, da cópia,..., da cópia do DVD do filme “A Dália Negra” (de Brian de Palma) que ele entretanto tinha arranjado do amigo, do amigo,..., do amigo.
Hoje, quando cheguei, já tinha em cima da minha secretária o “abençoado” DVD. Com “capinha” e tudo. Belíssima, apesar de ser a versão em Inglês. Abro-o e deparo-me com o que estava escrito à mão no DVD-R: The Black Dahlia from the Director of Scarface.
Agradeço-lhe de imediato, mas chamo a atenção para o facto do título do filme se restringir somente às três primeiras palavras que escreveu. Ele rejeita veemente a minha observação: “Nada disso, rapaz. É assim que está na capa.”

1º momento cinematográfico do dia: procura-se realizador só para assinar a papelada*

Um filme, sobre o modo como uma inocente conselheira matrimonial se deixa seduzir pelo lado mais obscuro do futebol (colocar reticências em tudo o que foi dito até aqui, por favor), com mamas (de silicone) ao léu e sexo (simulado mas muito) desenfreado precisa de um realizador exactamente para quê? Já agora queriam produtores profissionais e um argumento original, não?

Não deixa de ser curioso que o único filme nacional onde se revela a corrupção do mundo à volta do futebol não seja assinado. Pode ser curioso mas já não surpreende ninguém: neste país muito se denuncia mas pouco se assume ou se dá a cara por essas denúncias.
*pôr uma corda ao pescoço

terça-feira, outubro 30, 2007

Diz que é uma espécie de “apartheid”, mas em “bom”


Há um recém-inaugurado Centro Comercial em S. João da Madeira que possui um parque de estacionamento muito peculiar. Para além dos habituais lugares reservados a pessoas com mobilidade condicionada, vulgo deficientes (motores, apesar de alguns “mentais” por vezes ocuparem-lhes esses espaços), a grávidas, para pessoas com crianças de colo, idosos, este C.C. nortenho reservou lugares para senhoras e para viaturas que tragam mais de duas pessoas! Tudo isso pode ser comprovado por esse placard que mostro no topo deste post ou in loco, nos próprios parques subterrâneos do C. C. 8ª Avenida em S. João da Madeira, com todas as corezinhas específicas a demarcar o piso dos respectivos lugares com reserva. Diz, quem já viu, que o piso dos parques parecem um autêntico arco íris.
O responsável deste espaço, José Duarte Glória, justifica a existência destes lugares especiais com questões de gentileza (um lugar de parqueamento feminino corresponde a um lugar e meio dos ditos normais) e de segurança (os lugares reservados são os que se encontram mais perto dos acessos à área comercial, evitando assim “longas” e “arriscadas” deslocações no parque). Ponderando um pouco sobre o caso, fico com sérias dúvidas perante a razoabilidade deste tipo de discriminação. Positiva, mas não deixa de ser discriminação. Esclareça-se que, nem eu, nem ninguém, por mais ou menos competente que seja a fazer manobras de estacionamento, recusaria a opção de poder estacionar o carro num espaço de 3 por 5 metros (mesmo que esteja pintado de cor-de-rosa-choque!), o problema aqui reside no facto de tal estar condicionado à utilização por pessoas com as mesmas capacidades que eu e todos os outros restantes condutores - que não possuem vagina – em que única particularidade diferencial é efectivamente possuírem uma vagina! A não ser que o senhor José Glória seja detentor de uma teoria que explique o contrário.
Assim sendo, fica demonstrado como um gesto aparentemente “gentil e simpático” pode também ser um atestado de “nabice” passado a todas as mulheres em geral, ou às clientes desta superfície comercial em especial, e uma carga de trabalhos para uns tantos outros clientes que vão ter para conseguir convencer alguém entrar no seu carro só para poder estacionar num lugar cativo e verdinho destinado a viaturas com um número mínimo exigível de passageiros.
Quem teve estas “brilhantes” ideias, para compensar o público masculino, mandou colocar uns manequins em poses “sensuais” do outro lado do vidro dos urinóis no WC público. E, certamente, não deixou de ponderar nas várias formas de controlar as regras de parqueamento, por tal, não deve faltar por lá uma brigada de inspectores incumbidos da tarefa de supervisionar o sexo e o número de passageiros que cada veículo trás.
Questionei uma amiga sobre o que achava do assunto e ela aprontou-se em resumir, numa frase, tudo o que eu estive para aqui a tentar explicar em tantas: “Isto parece o apartheid mas numa versão parola, tipicamente portuguesa”.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O Tiago Dores nasceu para apresentar "Tesourinhos"


Para além deste e de outros bons momentos, os “gatos” fizeram a proeza de pôr o Vítor Espadinha a cantar pela segunda vez, na sua já longa carreira, uma música com uma letra gay. Desta vez, ele sabia ao que ia e até o seu nome misturado com o do César das Neves estavam lá humoristicamente, e muito bem diga-se, escarrapachados na letra. Da outra, tonto como aparenta ser, é bem provável que nem se tenha dado conta.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A minha versão do "fazes-me falta"

Tenho amigos que passam a vida a mudar de país para país e mesmo assim nunca me parecem satisfeitos com a vida que têm. Estas legítimas migrações visam sobretudo alcançar melhores condições de vida, mas nem sempre as expectativas criadas em relação à sua nova morada corresponde ao que efectivamente esperavam. São desilusões atrás de desilusões, sem parar um pouco para pensar nas várias hipóteses e potencialidades que aquele local lhes poderá oferecer.

São opções e eu respeito-as. Mas sabem o que é mais me chateia no meio disto tudo? É que mesmo compreendendo as razões pela qual saíram de Portugal e desejando-lhes a maior das felicidades, não consigo deixar de pensar na falta que eles me fazem e que tal não me pareça recíproco. Ou sou eu que sou um pouco egoísta por achar que a nosso tipo relacionamento só é possível de se manter com uma presença física ou são eles que tem um conceito demasiado descartável de amizade.

Não, eu não sei se lhes faço falta! Acredito que sim, mas efectivamente não o sei. O que sei é o que me foi dito e ouvi. Ouvi-lhes as preocupações e lamentações no que diz respeito às condições que iriam encontrar por lá, ou se as "coisas" no supermercado seriam mais caras, ou se lhes podia tratar do IRS na sua ausência, ou se os filmes por lá eram dobrados ou tinham traduções e por aí a fora... Portanto pareceu-me que o valor da nossa amizade nunca chegou a ser um factor importante a ter em consideração quando um dia decidiram dar de “frosques”.

É verdade que as relações sólidas e autênticas podem continuar no tempo, mesmo quando a frequência com que vemos as pessoas não é assim tão grande. Não duvido dessa premissa, mas parece-me igualmente verdade que tendemos a apegar-nos mais às pessoas com quem passamos mais tempo, com quem partilhamos trivialidades, pequenos acontecimentos sem grande relevância, diluídos ao longo de um dia, mas que vão constituindo uma intimidade real.
A inevitabilidade de uma distância física se tornar em distância emocional também me parece um facto bem realista. Realisticamente duro de admitir.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Os animais, de novo


Um artista da Costa Rica, Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão vadio faminto numa galeria de arte. O cão estava preso por uma corda curta como podem comprovar por algumas fotos publicadas aqui. Ninguém o alimentou ou deu água e ele acabou por morrer durante a exposição.

Depois disto, houve quem achasse uma grande ideia nomear este “artista” para representar o seu país na "Bienal Centro-americana Honduras 2008". Mas também houve quem não gostasse dessa ideia, não tenha ficado de braços cruzados (como grande parte da assistência daquela galeria) e tivesse a “audácia” de denunciar e criticar esta irreverente “expressão artística”, criando uma petição nesse sentido. Os primeiros chamaram hipócritas e burros aos segundos, porque não entenderam que o pobre do animal era vadio e representava a indiferença da sociedade geral face ao sofrimento e à humilhação dos outros. Os “revoltados”, provavelmente ainda contagiados por qualquer epidemia de bom senso, mantêm-se firmes nas suas posições e continuam a achar que nenhum ser humano tem o direito a submeter um animal a tais atrocidades. Incluindo os artistas, pois então.

Estou indeciso. Já assinei a petição mas se o senhor Guilhermo Abreocua-Vergas, ou lá como se chama, se comprometer a ir à tal Bienal e submeter-se ao mesmo tratamento que deu ao cachorro, não só cancelo a minha assinatura, como faço questão em visitar as Honduras no próximo ano. Irei á sua exposição, olhar para o “artista” em seu pleno momento de apoteose ou, diria antes, de desespero e exclamar bem alto, com o meu melhor ar de pseudo-arrogantó-intelectualóide: “Obra-Prima”!

terça-feira, outubro 23, 2007

O último tabu


Da tragédia do Darfour, ao diário emocionante de um seropositivo. Das vidas das meninas de rua de Cairo, às condições dos prisioneiros palestinianos nas prisões israelitas. Todos estes e mais alguns são temas interessantes que me poderiam levar a Lisboa a ver um documentário. No entanto, o único filme que ainda vi (e se a minha disponibilidade nos próximos dias não melhorar, diria antes, que irei ver) da edição deste ano do DocLisboa, chama-se “Zoo”. Por ser dos poucos documentários de exibição única, fiquei a pensar que tal deve-se ao facto de abordar um assunto pouco popular. Garantidamente será, pelo menos, muito incómodo.

Em Julho de 2005 é, anonimamente, deixado às portas do Hospital de Enumclaw, uma pequena cidade do estado de Washington nos Estados Unidos, um homem, com pouco mais de 40 anos, inanimado. Pouco tempo depois veio-se descobrir o seu nome (Kenneth Pinyan) e de que, para além de ser um chefe de família de Seattle (!), era um respeitado engenheiro da Boeing. Depois de uma intervenção cirúrgica, soube-se também que não conseguiu escapar com vida das intensas hemorragias internas provocadas pelo rompimento do cólon. A polícia foi chamada a intervir no caso e esta conseguiu descobrir com alguma facilidade não só a causa da morte, como também onde tudo aconteceu: uma quinta localizada nos arredores daquela cidade. Neste local foram apreendidas várias cassetes de vídeo que continham imagens de, entre outras pessoas, Pinyan a praticar sexo com cavalos. Foi não só o grande choque generalizado de uma pacata cidade mas de todo um país puritano e conservador, onde este tipo de episódios perversos já começa a fazer parte do quotidiano.
“Zoo” aborda esta história em várias perspectivas. Na perspectiva da investigação, dos “colegas” de Kenneth Pinyan que não se mostram mas que contribuem para a narração de algumas partes deste documentário e da própria instituição que recolheu os cavalos após a desmantelamento do grupo que Pinyan fazia parte. O “caso”, para além de todo o mediatismo que provocou, do choque e consequentes piadas que se fizeram – um dos instintos naturais do ser humano é encarar humoristicamente todos os assuntos que não compreende ou que lhe são desconfortáveis - nunca foi abordado de uma forma séria como o é neste filme/documentário. Aliás, não consigo dar outro exemplo de um filme onde a zoofilia seja focada tão seriamente. Séria e humanamente. Porque é isso que nos choca: um dos perpetuadores deste bizarro acto ser humano.
Em “Zoo” não há imagens chocantes (antes pelo o contrário, veja-se aquelas magníficas paisagens naturais de Enumclaw), há ideias chocantes! A Zoofilia é desmascarada como um dos últimos tabus do lado mais perverso da sexualidade humana. Ao fazer este documentário, o seu realizador não pede para a aceitar, mas de certa forma tenta pedir a nossa compeensão. Não é por acaso que “Zoo” tem o curioso subtítulo: “In the Forest There is a Every Kind of Bird” (“Na floresta há todo o tipo de aves”).

Não é mentira que a moralidade é um conceito muito subjectivo e que actos destes devem ser bem analisados, mas na minha opinião não se pode deixar de os condenar. Não nos devemos esquecer sobretudo que também há por aí “outro” animal no “jogo”. Mas a mais importante lição desta história deve ser retirada pela sua perversidade: há seres humanos (aparentemente) comuns que só conseguem retirar prazer das formas mais incomuns e bizarras possíveis (e até diria, impossíveis). E neste momento a internet é o meio essencial para que estas pessoas consigam se juntar - a identificação social é fundamental para qualquer fenómeno transgressor crescer - trocar ideias e formas de concretizar os seus actos. Aliás, como acontece, há muito mais tempo, com a pedofilia.

segunda-feira, outubro 22, 2007

A SIC não tem piada

A SIC não olha a meios para subir as audiências, nem que para isso mande fechar uma das maiores avenidas da capital e transforme-a num desfile pirosó-carnavalesco sempre que se comemore o aniversário desta estação. Salvo algumas reportagens e documentários, alguma inovação nas temáticas das telenovelas (aqui o mérito não é da estação de Carnaxide mas da respectiva produtora brasileira), algumas (poucas) séries de ficção americanas e pouco mais, este canal tem contribuído infimamente para melhorar o panorama qualitativo do que podemos ver hoje em dia sempre que ligamos o televisor.
As audiências nunca foram sinónimo de qualidade, mas o mais irónico de toda esta situação é que a programação que Francisco Penim gere até nem tem tido grandes audiências, ou pelo menos, as audiências que tanto desejaria. No entanto esta obsessão compulsiva por conseguir que mais duas dúzias de televisões se concentrem neste canal já fez vítimas. Não me refiro a todos os seres pensantes que conseguem manter os olhos por mais de 10 segundos na série de ficção nacional que costuma passar depois da novela brasileira e que automaticamente ficam com vontade de estoirar os miolos. Ou os dos próprios, ou os de quem a concretizou como projecto televisivo. Falo de Herman José.
O Herman, gostando-se ou não do que tem feito nos últimos tempos, nunca deixou de ser a única referência humorística válida da SIC. Ao contrário do que Penim pensará, o humor em televisão está a milhas de distância de ser a enésima variação de converter todas as anedotas já ouvidas na década passada, numa série de sketches atabalhoados. Bom, tudo isto para denunciar o que se pode ver, ou melhor, não ver, presentemente nos domingos à noite naquele canal: o “Hora H” passou de um horário indecente para um horário vergonhoso, e agora para o seu completo desaparecimento (consta que passará para um horário inédito mas já pouco surpreendente: a “madrugada” de sábado!). Para Herman (e a sua equipa), certamente, pior que esta, salvo a repetição, vergonhosa mudança de horários e de ter sido envolvido involuntariamente numa guerra de audiências que só por um milagre – ou alguma concebível forma de manter as pessoas acordadas e com vontade de rir fora de horas – sairia vitorioso, será a desrespeitosa forma como tudo foi feito. Um desrespeito por uma carreira profissional irrepreensível ao serviço da boa disposição e do melhor humor que a televisão já nos proporcionou. E para desculpabilizar esta falta de respeito, não há audiências ou qualquer outra razão mais ou menos rentável que a justifique.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Más influências

Esta semana li um editorial no jornal Metro que achei, no mínimo, hilariante. Ao mesmo tempo que transcrevia para aqui algumas das palavras que o senhor Rui Pedro Batista escreveu naquela coluna, não consegui resistir em deixar alguns comentários.


O jantar estava a correr tão bem! Éramos oito. Quatro casais. Quatro eles e quatro elas. – É bom que se esclareça, não vá alguém ter dúvidas quanto ao tipo de amigos que frequentam a casa de um colaborador do jornal Metro. Devia ter facultado também a raça, fracção partidária e profissão de cada um deles - E a conversa tornava-se mais agradável à medida que as garrafas se esvaziavam. Tudo mudou quando chegou à altura de fazer o brinde. – O vinho azedou? A Mariazinha partiu o salto do sapato? O Bernardo recebeu uma chamada de uma amiga especial? - “À nossa, que fiquemos todos juntos durante mais uns anos”, atirei. Mas o João e a Carla não se reviram no meu pedido de renovação de votos e acabaram por revelar que estão a separar-se. – Ahhh! - (...) Ficamos embasbacados. O João e a Carla vão a caminho dos quarenta. - E? (...)
Iada iada iada conheceram-se no tempo do liceu, eram os dois muito pobrezinhos mas eram muito batalhadores e ... O amor saltava-lhes dos olhos. Apesar das dificuldades em compatibilizar agendas, conseguiram arranjar tempo para encomendar o primeiro filho. – A mulher comum planeia (ou não), engravida e dá à luz um filho. A mulher deste estrato social, compatibilizando com a sua agenda supê-preenchida, encomenda-o! “Ohfaxavore, era um loirinho de olhos azuis para as sete da tarde do primeiro dia de primavera.”
O João foi subindo a pulso. Há três meses passou a ostentar no cartão de visita o título de director-geral. De uma empresa grande e cheia de lucros. Daquelas em que todos gostavam de trabalhar. – Mas que só alguns têm possibilidades de entrar e, regra geral, por pouco mérito próprio, se me é permitido o acrescento - A Carla lançou um negócio de acessórios de moda. E já estava a abrir a segunda loja. Mudaram de casa, trocaram de carros. Quer dizer, trocaram os carros por verdadeiros carrões. E agora... assim. Não se entende. – Não entende exactamente o quê? Que é perfeitamente possível ter sucesso profissional sem viver maritalmente com alguém? - (...) Enquanto lá por casa se adormeciam as crianças, fiquei ali no canto da mesa agarrado ao vício da nicotina, a pensar na vida. O João e a Carla, (...) – Já pensava menos na vida dos outros, largava o vício e contribuía qualquer coisinha para as tarefas domésticas, não?
Construíram uma vida assente em dificuldades, em partilha e entrega quando tudo parecia remar contra o seu barco. Um dia a maré mudou. E a sensação que lhes percorre o corpo é que conseguiram subir um prédio. – Uh?! Pior copy/paste de sempre? (...) Mais uma cigarrilha. Acabo em definitivo o whisky. – Ah bom.
Pode ser uma fuga, pode ser uma falta imensa de energias renovadas. Pode ser simplesmente incapacidade em reinventar o que parece definitivamente morto. – Pode ser pura estupidez tentar descortinar as razões da separação de um casal.
Duas pessoas, dez anos a trabalhar, a lutar para ter uma vida melhor, a fazer tudo para ter alguma capacidade financeira e material... – Depois dão nisto: mais felizes e ricos que nunca, mas separados. O melhor é riscá-los da lista do próximo jantar, não vão ser eles uma má influência para os restantes casais do grupo de amigos. Da-se!

domingo, outubro 14, 2007

Baralhar e voltar a dar


Ser nacionalista não é crime, mas o tráfico de armas e drogas é, tal como o é ofender, espancar ou matar pessoas de outras raças, nacionalidades, etnias e orientações sexuais, ou profanar cemitérios judaicos. Não se baralhem senhores nacionalistas (ou diria antes, não queiram baralhar os outros?): em Portugal ninguém vai preso só porque se demonstra um amor desmesurado à pátria.