segunda-feira, dezembro 17, 2007

Estranha tendência


Estacionar carros nos passeios para além de ser uma prática ilegal, é um acto prevaricador da ordem pública. Um total desrespeito por todos os cidadãos que só possuem este espaço para circular na via pública. Mas, na minha opinião, este deve ser um problema para ser resolvido rigorosamente fazendo cumprir a lei ou em último caso, indirectamente, pela sua subjectividade problemática (cada caso será um caso) e não com soluções “chapa cinco” sem, por exemplo, questionar os seus utilizadores - sobretudo os residentes - se acham tal resposta viável.
Expõe-se uma reclamação à autarquia local e enviam-se uns especialistas para se arquitectar uma solução. Conclusão: pinos e mais pinos! Obra feita e o resultado está à vista de todos: perdeu-se um óptimo e amplo passeio junto das garagens e ganhou-se uma curiosa pista de gincana de bicicletas.

Alguém devia estudar esta estranha e sistemática tendência, dos senhores engenheiros e/ou arquitectos das Câmaras Municipais, para apresentar estas protecções fálicas espetadas no solo, como solução única e inquestionável para resolver o problema do estacionamento abusivo.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Maior que a vida


Há momentos aparentemente insignificantes no nosso dia-a-dia que, por transmitirem uma certa carga sentimental inexplicável, podem-se tornar eternos.
Uma viagem de comboio que faça a ligação entre as duas principais cidades do país, teoricamente, pode ser um suplício, sobretudo para quem não esteja habituado e se limitar a pensar nas suas três horas de duração (na hipótese menos económica mas mais rápida). Um jornal ou uma revista pode ajudar a passar o tempo, mas observar as paisagens (enquanto se “pensa na vida”) também pode dar um contributo não menos valioso.
O comboio parte da estação de Santa Apolónia (Lisboa) meia-hora depois das sete da manhã e ainda as luzes públicas iluminam umas estradas praticamente desertas. Por outro lado, algumas luzes acesas nos prédios são um indício de que a cidade começa a despertar para mais um dia. Entretanto deixo de ver edifícios e estradas e passo a ver o campo. Lá mais ao fundo uma parte do rio começa a tomar uma tonalidade alaranjada. Este momento coincide com o meu acto de meter os auscultadores do leitor de mp3 nos ouvidos. Enquanto o sol, timidamente, começava-me a iluminar o horizonte, os Band of Horses aqueciam-me o corpo e a alma. Alternando de funções, ambos, assim me acompanharam no resto da viagem, naquela manhã fria, até ao Porto.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Ninguém goza com um homem "cheiroso"?

Ou são os treinadores, ou são os dirigentes, nem o seleccionador nacional escapa, muito menos os comentadores ou os adeptos. Todas as personalidades públicas ligadas directa ou indirectamente ao mundo futebolístico, de certa forma, são alvos fáceis da chacota pública. Todos, ou quase todos, nos rimos com os gatos fedorento a imitarem o Paulo Bento ou o Scolari, ou mesmo, o já por si muito cómico comentador, Rui Santos. Então alguém que me explique porque é que deixam passar ao lado os comportamentos (a)típicos dos jogadores de futebol? De onde vem tal impunidade social?
Estou quase a acreditar que o facto de eles todos falarem daquela maneira muito arrastada, de forma arranjar as palavras bonitas – daquelas que eles nunca usariam entre quatro linhas - para não estragarem o tal discurso politicamente correcto chapa cinco, é só para que os jornalistas acompanhem, palavra a palavra e por escrito, o que, no fundo, toda a gente já sabe de cor e salteado (de tantas vezes ouvir sair das bocas de outros jogadores). Esta ligeireza de raciocínio não seria, por si só, uma boa razão para dar largas à nossa tendência trocista?

O Ricardo Quaresma, juntou-se a um grande adepto do F.C.P., vocalista dos Blind Zero nas horas vagas, e fizeram, os dois, ontem, uma pequena reportagem para o “Jornal da Noite” da SIC onde mostravam o balneário do seu clube. Resultado: por mais que o adepto tentasse desvirtuar o discurso do jogador, a conversa entrava sempre nos “carris” e lá iam eles pela conversa do costume. “Muito orgulho por vestir esta camisola... o peso do símbolo e do nome... é aqui que ouvimos as indicações do treinador... e festejamos as vitórias... yada yada...”. A coisa de repente parece ter tomado outros contornos quando a conversa começou a traçar umas tangentes perigosas à higiene íntima do jogador. Enquanto se via umas embalagens de desodorizante da Sanex, gel de barbear Fusion, um pó de talco da Johnson, entre outras, o jogador confessava: “Sou muito cheiroso, gosto de me perfumar... porque os ciganos têm a fama de cheirar mal... mas, olha, mesmo assim ninguém me pega!”.
Os homens de sucesso de hoje são mesmo assim: pouco originais e honestos no seu discurso mas muito, muito competentes e... cheirosos.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A propósito de cimeiras cheias de boas intenções, o Sócrates* teria dito:

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto pelo menos por desonestidade.

*Não o português, o grego!

sábado, dezembro 08, 2007

Duo maravilha

Mas há algo que o António Barreto e a Joana Pontes peguem que o resultado não seja genial?
Depois de “Portugal, um retrato social”, chegou a vez de “Nós e a Televisão” e “A televisão e o Poder”, dois documentários que passaram a seguir ao Telejornal nas passadas quinta e sexta-feira. Estão todos de parabéns: os autores, pelos excelentes documentários realizados à volta da temática televisiva no nosso país: a evolução da TV ao longo das últimas décadas e as influências* que teve, tem e terá nosso quotidiano, sob a perspectiva de quem a vê e de quem a faz; e o canal estatal, por continuar a apostar em programas de qualidade para preencher o seu horário nobre. Não podia deixar de realçar também que o duo, desta vez, transformou-se em trio, com a entrada para a parte da locução de uma das vozes mais bonitas de Portugal: Inês Menezes.

*Lembram-se da morte do Dino, dos “Morangos”?
“Milhares de adolescentes vieram de todos os pontos país para assistir aquele que foi um dos mais mediatizados funerais dos últimos tempos: o de Francisco Adam. A larga maioria só o conhecia de uma telenovela. Ninguém soube explicar a eles que quem tinha morrido dias antes, era bem mais que uma personagem de ficção.”

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Coerência


(uma das fotos, publicadas na imprensa, da manifestação do PNR no passado sábado)

terça-feira, dezembro 04, 2007

A minha Maria tem tanto jeitinho para automóveis como eu para a doçaria conventual

Há misoginia em fóruns do mundo automóvel? Comecei por estranhar a escassa participação de mulheres nestes espaços, mas inicialmente pensei que tal se devia ao pouco interesse que tais assuntos lhes pudessem provocar. Mais tarde deparei-me com uma certa hostilidade por parte de alguns participantes masculinos, sobre quaisquer abordagens feitas por alguém do sexo feminino em tópicos da especialidade. E não só. Tal repúdio por vezes estendia-se a “threaths” da categoria “off-topic”. Mas de onde vem tanta intolerância perante as opiniões dos membros do sexo oposto em fóruns onde a Soraia Chaves é Deus?
Bom, parece-me óbvio que, se não houvesse a obrigatoriedade de preencher o sexo nos perfis dos “foruenses” não haveria tanta discórdia e eu ficaria sem assunto para me entreter. Por isso: obrigado , web administrators!
Como qualquer “macho” que se preze, aqueles homens não gostam de ser confrontados com a realidade de que uma mulher também possa ter uma opinião sobre um tema que julgam dominar (sobretudo se for uma opinião contrária à deles). Aliás, acredito que, para alguns, só o facto de elas poderem ter uma opinião já é motivo suficiente para lhes causarem algumas náuseas. Não me estou a referir propriamente a uma geração de homens que só vêm as (suas) mulheres de volta dos tachos e panelas e outros afazeres domésticos. Trata-se da geração posterior a essa: os filhos destes, provavelmente. Deu-se a evolução: a rapariga/mulher saiu da cozinha directamente para uma recepção ou uma caixa de supermercado, mas continua, pelo menos para eles, sem direito a ter opinião própria sobre certos, ou mesmo todos, assuntos.
“A minha Maria”, como a maioria “carinhosamente” – as aspas, não sendo tendenciosas, servem somente para que cada um aplique o sentido que mais lhe convir - gostam-lhe de chamar, é chamada ao assunto dos tópicos destes fóruns, quando se referem à companhia - tipo apêndice – que os acompanha até um determinado local. Um deles diz, “o meu GPS é a minha Maria, peço-lhe o mapa e depois oriento-me” e o resto da “comunidade foruense” acha isto muito hilariante. Portanto, tem nome – Maria, vá lá - mas não sabe ver mapas, não se orienta, enfim: não tem uma vida própria.
A mulher com quem um destes homens escolheu partilhar a vida é mesmo a tal, a especial, a que nunca saberá trocar um pneu, nem nunca terá capacidades suficientes para decifrar as siglas TDI, CTDI, GTI, TSI, etc., que necessitará de um espaço especial e alargado para estacionar quando se aventurar a ir aos centros comerciais sem ele e vai continuar a colocar o óleo no carro pelo orifício da vareta. Tudo isto em nome do bem-estar geral público e sobretudo para que nada afecte uma normalidade social estereotipada, a tal (também), que só existe na cabeça dele (e dos que pensam como ele). Isto parece quase resultar de um mandamento do subconsciente. “Não deixarás que a mulher que durma na mesma cama que tu, domine as matérias que compete a ti dominar”. Amén.
Ela dorme com ele e ele sonha com a Soraia Chaves. Isto até ao dia em que um sonho erótico se transformar num pesadelo: quando a Soraia lhe aparecer à frente com uma lingerie muito sexy e começar-lhe a debitar uns parágrafos de um qualquer manual de mecânica de automóveis.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Um país excessivamente orgulhoso é como um realizador de filmes porno: não fornica, nem sai de cima

Eu conheço um país que conseguiu isso tudo à conta de uma mão-de-obra pouco qualificada, praticamente iletrada e mal paga. Curiosamente, ou não, são esses trabalhadores que ainda suportam uma das maiores cargas fiscais da Europa, que, por sua vez, também serve para pagar todas essas “coisas boas”.
Esqueceu-se de mencionar o facto de sermos o país com a maior árvore natal, de ter realizado a maior feijoada, o maior magusto e por aí a fora...

O facto de ter ficado a saber que o nosso país é “líder mundial na produção de feltros para chapéus” e “de rolhas de cortiça” - se bem que importamos a maior parte dessa matéria-prima (cortiça) de Marrocos e da Tunisia, uma vez que as manchas de sobreiro nacional estão envelhecidas, pois não há quem as renove; vale a pena explicar as razões? - quase fez o meu dia, mas por exemplo, essa história da invenção da “bilha de gás mais leve do mundo” não deixa um pouco a desejar, quando o ideal seria questionarmo-nos porque ainda não temos todas as nossas casas equipadas com gás canalizado?
Uma coisa parece-me certa: com o ordenado do Nicolau ou de qualquer um dos directores das empresas mencionadas, também eu seria o maior apologista do optimismo.


terça-feira, novembro 27, 2007

O medo

Numa última season sem um único episódio abaixo do nível brilhante – uma coerência que nem todas as outras grandes séries podem-se gabar, “Sete Palmos de Terra” incluída – também não será com este penúltimo episódio, que passou ontem na RTP2, que o currículo d’Os Sopranos ficará manchado. Antes pelo contrário.
Alguma tensão entre as duas principais famílias de mafiosos, revelados nos episódios anteriores, fazia adivinhar que a “guerra” estaria eminente. Provavelmente o que não se estaria à espera, era que ela fosse tão repentina e sangrenta para o lado dos Sopranos. Tony subestimou a força e a inteligência do inimigo e sabe que agora ele pode ser o próximo. A cena que encerra o episódio é sublime: refugiado e desesperado, o “nosso boss” encontra-se (muito bem) armado, deitado numa cama de um pequeno quarto, de uma casa incógnita, e tudo o que ele mais teme está para além daquela porta que ele vigia atentamente – esse magnífico plano final demonstra-o mais que quaisquer palavras. O medo no seu estado puro. Em tal situação, ao identificarmo-nos com tais características que revelam o seu lado mais humano, é impossível não ficarmos ali ao seu lado, agarrados aquela AR-10. Porque os heróis também cometem erros e perdem batalhas. E, sobretudo, temem pela sua própria vida.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Anúncio

Procuro companheiro macho. A origem étnica não é importante. Sou muito boa fêmea e adoro brincadeiras. Gosto muito de passeios nas matas, gosto de andar de jeep, de viagens para caçar e acampar. As noites de inverno aconchegadas junto à lareira deixam-me mansinha e fazem que vá comer-lhe à mão. Quando voltar a casa do trabalho esperá-lo-ei à porta, vestindo apenas o que a natureza me deu. Telefone para XXXXXXXXX e pergunte pela Micas. Aguardo notícias suas...


Resultado: uns bons milhares de homens deram por si a telefonar para a Secção de Caninos da Sociedade Protectora dos Animais.

sexta-feira, novembro 23, 2007

OrgulhoChinchila.Com

A minha sobrinha quer uma Chinchila. Sinceramente acho que nunca vi tal bicho ao vivo e agora, que pesquisei fotos dele pela net, congratulo-me por tal feito. Há pequeno roedor mais feiozinho? Nada contra o bicho em si mas, depois de me aparecer à frente, cheguei ao ponto de ponderar na hipótese de mudar de família, se algum destes seres desta espécie passarem a fazer parte do agregado de um familiar meu. Mas quem consegue resistir a um pedido de uma miúda de 10 anos quando ela puxa pelo seu lado mais ternurento e suplica-nos com os seus lindos olhos azulóesverdeadosouqueraiodecoréaquela? Eu. “Não sou mais inteligente que uma miúda de 10 anos”, mas também não sou assim tão burro ao ponto de deixar-me influenciar por ela. No entanto, como as notas dos seus testes neste primeiro período até tem sido boas, está na altura de ceder qualquer coisa e dei por mim a procurar o citado animal.
Pelos preços praticados nas lojas de animais, fiquei com vontade de pegar em qualquer rato de esgoto e aplicar-lhe uma cirurgia estética de esticamento-até-não-poder-mais de orelhas e da cauda e a miúda nem dava por nada. Entretanto lembrei-me dos anúncios da net. Bingo: preços bem mais em conta, alguns já vêm com gaiola e até o entregam no domicílio. Foi numa dessas pesquisas que fiquei perplexo com vários anúncios deste tipo: “Tenho para venda chinchila macho bege hetero...”. Hetero? O cúmulo do azar: as Chinchilas para além do infortúnio de terem aquele aspecto, também são obrigadas a ter uma orientação sexual definida. Continuo ininterruptamente a questionar-me. E quem a define? A própria Chinchila? Ou os donos? Como? Pela maior ou menor destreza na agitação da cauda? Ou pelo volume dos seus guinchinhos?
Parei a minha dedicação sobre o assunto por ali porque entretanto tinha descoberto que havia outros animais a “brincarem” com o mesmo tema. Só que desta vez consta que há uma componente extra de “orgulho”: uma cerveja de qualidade - na perspectiva de um mediano apreciador – manhosa optou por uma campanha polémica (e sem sentido) para se autopromover. Assim em segundos, o meu estereótipo do nosso maior macho latino passou, automaticamente, de um "xéxé" camarinha para uma Chinchila a beber uma tagus fresquinha e a mandar um piropo, do género: “devorava-te todinha até ficares com a cauda encaracolada” (que é como quem diz: guinchar ruidosamente), à Chinchila (fêmea e hetero, obviamente) que tivesse a “sorte” de passar por perto.

terça-feira, novembro 20, 2007

É oficial: ninguém anda ali a enganar ninguém


É por estas e por outras que hoje em dia não acredito em santas de altar nem em machões que se auto-intitulam de barba rija

Um amigo ao contar-me a sua última aventura fez-me dissertar uma vez mais sobre o tema da perversão. Ele sempre foi extremamente liberal a nível sexual e por isso tento previamente preparar a minha “psico” para o que me vai contar nos minutos seguintes. No entanto, em um ou outro pormenor, acaba sempre por me surpreender. Parece que desta vez não fui o único.
Envolveu-se num curioso jogo de submissão. Ele dominador, o outro o dominado. Todas as regras foram estipuladas previamente no messenger. Pediu, perdão, exigiu ao outro que aparecesse à porta de sua casa vendado e trazendo um (“excitante”) fio dental como roupa interior. Nem passou uma hora até o outro aparecer-lhe em casa naqueles propósitos. Ficou surpreendido, mesmo sabendo antecipadamente todas as características de quem estava naquele momento à sua frente: muito bem constituído fisicamente, que justificaria a sua função de um cargo razoavelmente prestigiado no exército nacional e a transpirar masculinidade por todos os poros - e parece que eram mesmo muitos, dado os seus mais de um metro e noventa de altura. Não houve troca de quaisquer palavras. O submisso deixou-se conduzir até ao quarto pelo seu mestre. Despem-se. O meu amigo toma imediatamente a decisão de colocar um preservativo ao reparar que o outro já estava “de quatro”, só com a tal lingerie vestida, em cima da sua cama, disposto veementemente a fazer honrar o seu compromisso. Os preliminares (ou quaisquer outro tipo de preparativos) não estavam nas regras, o “senhor militar” também assim preferiu. Consta que no início ainda se ouviu uns grunhidos agudos de dor, mas parece que o homem aguentou-se bem às primeiras investidas.Território conquistado e já suplicava por mais. O entusiasmo da vitória atingiu o nível hardcoresco de um “arrebenta-me as entranhas”! Sim... Utilizava uns nomes menos próprios. Não de serem exclamados em momentos de grande excitação como aquele, mas soavam no mínimo estranho ao serem proclamados por um senhor com uma voz muito grossa, um “senhor militar”, chefe de família, pai de filhos e por aí a fora. Foi então essa a segunda surpresa, a fantasia do “sargento submisso”, chegou ao ponto de trocar os nomes dos seus órgãos sexuais. Então, por sua legítima vontade: o seu ânus passou naquele momento a ser uma potentíssima vagina insaciável - peço desculpa, por qualquer coisinha, mas é a minha melhor tradução “soft” possível da designação relatada. Do que conheço do meu amigo, tal não é coisa para causar-lhe grandes amassos na consciência, por isso perseguiram como se não houvesse amanhã - sobretudo como se não houvesse um passado castrador por explicar -, até quase ao fim do mundo, mas não até ao fim do jogo. Porque este só terminou, quando o meu amigo exigiu que o outro se metesse, em dois segundos, fora de sua casa, mas tal não aconteceu sem antes de ele ter estado sentado no sofá durante mais de 5 minutos, a fumar um cigarro, enquanto que o seu servo se mantinha de coqueras, no centro da sala, a servir de apoio para as suas pernas. Perguntei-lhe com um ar trocista: “Foi ideia tua?”, o meu amigo franziu a testa. “Achas?!”. O que perfez a sua terceira surpresa daquele final de tarde.

Foi no preciso momento em que o seu “partner do jogo”, depois do acto (bem) consumado, se ter colocado de joelhos à sua frente (sem que ele tenha dado tal ordem) que o meu amigo percebeu que tinha acabado de participar em algo que transcendia a concretização de uma simples fantasia ou de uma mera brincadeira entre dois adultos.
Não tenho certezas absolutas sobre a minha própria sexualidade quanto mais de alguém que não conheço. Nem nunca conseguirei provar que desejos reprimidos e alguns estigmas e preconceitos por resolver podem resultar numa mistura explosiva na constituição da personalidade de qualquer indivíduo. Mas sei, por mim e por quem me já foi dado a conhecer, que a sexualidade humana vai muito para além das duas ou três designações estereotipadas que a ciência e a sociedade pediram para nos encaixarmos e que nada disto até nem traria grande mal ao mundo se tal obrigatoriedade, não provocasse, em certas pessoas, uma perversão sem limites. E sem retorno.

domingo, novembro 18, 2007

Notícia em primeira mão

ASAE fecha ASAE
Na sequência de uma visita relâmpago dos inspectores da ASAE às instalações da ASAE, foram detectadas quantidades consideráveis de material videográfico e fonográfico, bem como de alimentos em adiantado estado de putrefacção e cem litros de ginginha. Alguns dos elementos da ASAE chegaram mesmo a ser presos por elementos da ASAE, no momento em que transportavam os sacos negros onde o material havia sido recolhido para análise. As alegações do responsável de dia pelas instalações, de que aquele material era resultante de uma acção sobre uma feira, não foram tidas em conta pelos oficiais da ASAE que comandaram esta acção, já considerada a mais bem sucedida desde a criação da Autoridade.

Cartão amarelo

A coerência não é palavra para constar do dicionário de alguns árbitros “tugas”. Ficam indiferentes se a viagem é para o Brasil ou para as Bahamas, se a “fruta” é brasileira ou ucraniana, mas são intransigentes quando se coloca em causa os valores da família e o tal pênalti (muito duvidoso).

quarta-feira, novembro 14, 2007

E se eu fosse trabalhar por conta de uma “galinha serial killer”?

Recebi uma proposta de emprego para trabalhar na Tabaqueira. Sem anúncios, sem envio de currículos, sem entrevistas. O inesperado convite de um ex-colega surgiu assim (quase) do meio do nada. E foi feito à frente de dois actuais colegas de trabalho. Por tal, não passou um dia e já metade da restante empresa estava ao corrente da situação. Houve quem não se fizesse rogado em vir logo dar-me os parabéns: que não pensasse duas vezes em decidir aceitar a oportunidade. E “oportunidade” é a palavra certa, pois, diz-se, que não é fácil entrar para os quadros de qualquer empresa do grupo Philip Morris, aliás, também diz-se, que os processos de selecção da Tabaqueira são do mais penoso e exigente que há, só mesmo superados (a nível de grau de dificuldade) pelos da Microsoft. Mas, curiosamente ou não, a maioria das interpelações que recebi vieram no sentido inverso. “Xiii, para a tabaqueira? Uma empresa que produz autênticos atestados de óbito em série?”, “Eticamente nunca aceitaria um lugar desses, nem por 1000 contos por mês”, “... se alguém da tua família fosse atropelado por um comboio irias trabalhar para a CP?”(?), “Uns verdadeiros assassinos em potência!”. “E uma verdadeira galinha de ovos de ouro para o nosso estado”, repostou alguém. “Que seja uma galinha serial killer, mas que de facto é uma bela fonte de riqueza nacional, lá isso é” pensei e completei eu. Ouvi de tudo, uns mais exagerados, outros mais apocalípticos. Bom há que em primeiro lugar perceber bem que quem lá trabalha não tem propriamente a função de enfiar os cigarros boca-a-dentro dos consumidores. E sim, a nicotina cria dependência. O álcool também, mas garantidamente não criaria tanta celeuma entre os meus colegas se esta proposta de trabalho viesse da Unicer.
Fiquei em ponderar melhor sobre o assunto. Comecei por pensar sobretudo na empresa para a qual trabalho actualmente. Uma multinacional pouco conhecida em Portugal e um pouco mais em outros países da Europa, na Ásia e Austrália. Mas, uma das grandes nos “States” (ficou no top 20 das maiores empresas americanas da "business-qualquer-coisa"). Por cá tem tido um progresso modesto mas consistente. Impostos, débitos e salários em dia, lucros razoáveis. Nada a declarar, por aqui, portanto. Entretanto, alargo o meu ponto de vista e chego a áreas de negócio em que somos dominadores no mercado norte-americano mas temos quota de mercado nula ou inexpressiva em Portugal. Ocorreu-me logo a (inevitável) actividade “aeroespacial”. Se ficássemos só pela contribuição com sistemas e peças para colocar aviõezinhos e naves americanas a voar e a ir à lua, respectivamente, dava-me por satisfeito e o assunto morria aqui. Mas não. Provavelmente 90% dos empregados portugueses desta empresa não sabem, nem querem saber (os restantes que sabem também não querem saber), que os aviões, helicópteros, radares, sistemas antimísseis que a força aérea americana usou e usa nas suas guerras tem material “nosso”. Sendo assim, que legitimidade terei eu (ou qualquer outro empregado desta empresa) para apontar o dedo e acusar um trabalhador de uma tabaqueira por falta de ética?

segunda-feira, novembro 12, 2007

Tudo é recuperável?

Somos todos pela liberdade e pluralidade de ideias. Há no entanto uma característica chamada bom senso que permite-nos racionalizar essas ideias para o que faz (o mínimo) sentido e o que não faz. Há jornais e revistas que não nasceram para fazer este tipo de avaliação, mas há outras que (felizmente) sim, mas de vez em quando descuidam-se. Quando um jornal decide publicar uma ideia racista de um cientista ou uma revista, como a Visão, decide publicar a opinião de uma terapeuta (e psicóloga) dizendo que a homossexualidade é uma doença (mas “tem recuperação”), não o fazem inocentemente, não “é só mais uma opinião”. Sabem que são declarações, no mínimo, polémicas e que isso permitir-lhes-á uma maior mediatização. E uma mediatização conseguida à custa de uma palermice, hoje em dia, é “sucesso” garantido num país desejoso por ouvir e discutir palermices. Sobretudo quando elas são ditas por gente, supostamente, culta e inteligente.
Acredito até que a Visão, outras revistas e jornais deste país possam necessitar de um pouco de polémica para “sobreviver” - num mercado cada vez mais competitivo, principalmente desde a entrada dos jornais gratuitos - como uma senhora doutora terapeuta precisará de uma certa publicidade para amealhar mais uns trocos de uns tontos, que recorram às suas consultas de recuperação de uma sexualidade “normal”.
O novo desafio dos directores que ainda ponderam com bom senso nas decisões acerca do conteúdo das suas publicações, é saber se será compensador publicar uma alarvidade, mesmo que tal lhes aumente as tiragens e se fale no assunto durante uma semana (no máximo), em detrimento da perda de algo que muito dificilmente será recuperável: a sua credibilidade e fidelidade dos leitores (ofendidos ou que simplesmente não façam da “palhaçada” um modo de leitura informativa). A não ser que também haja por aí algum(a) terapeuta ou psicólogo/a especialista neste tipo de recuperações e eu desconheça.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Thin Red Line

(Voz do narrador: actor principal, Wagner Moura)
O Rio de Janeiro tem mais de 700 favelas. Quase todas dominadas por traficantes armados até aos dentes... No resto do mundo essas armas são usadas para fazer guerra. No Rio são as armas do crime... É burrice pensar que os policiais numa cidade assim vão subir a favela só para fazer valer a lei. Policial também tem família, policial também tem medo de morrer. É por isso que nessa cidade todo o policial tem que escolher: ou se corrompe ou se omite ou vai para a guerra!
A maioria das pessoas não gosta de guerra e o Major Oliveira não é excepção. Toda sexta feira ele sobe o morro para ir buscar o “arrego” – a gana que os policiais corruptos cobram para aliviar o tráfico de drogas. Os traficantes também vivem em guerra, mas também querem sobreviver. Para quê trocar tiro com a polícia se dá para negociar?... A verdade é que a paz no Rio dependente de um equilíbrio delicado entre a munição dos bandidos e a corrupção dos policiais. Honestidade não faz parte do jogo. Se o Rio dependesse exclusivamente da polícia convencional os traficantes já tinham tomado a cidade faz tempo. É por isso que existe o BOPE: tropa de elite da polícia militar. Na teoria, o BOPE faz parte da polícia militar, na prática é uma polícia completamente diferente... O símbolo do BOPE deixa claro o que acontece quando a gente entra na favela. E a nossa farda não é azul, é PRETA!

“Tropa de Elite” (José Padilha, 2007) é um dos filmes mais extraordinariamente realistas e crus que já vi até hoje. As comparações passam a ser óbvias: ao lado deste, o (magnífico) “Cidade de Deus” é o “Prison Break” e o “nosso” recém-estreado “Corrupção” é o pequeno “Ruca”!
Não sei se está agendada a sua estreia por cá. De qualquer forma, para os interessados, ele pode ser “sacado” neste blogue. Valeu!