sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Este país não é para novos

Achei importante transcrever as palavras de uma coordenadora do Núcleo de Saúde Reprodutiva e do Trabalho Feminino da Escola de Serviço Social da Universidade do Rio de Janeiro e de uma antiga secretária nacional da Justiça brasileira, publicadas numa edição do Público. Edição essa, poucos dias depois de se ter ficado a conhecer a história de Mara, a jovem brasileira de 19 anos, que aos 10 passou automaticamente de criança a escrava sexual, pois era violada diariamente por um homem - e pelos seus “clientes” - que a manteu em cativeiro ao longo destes anos. Engravidou a primeira vez aos 13 anos e esse mesmo homem acabou por matar o seu segundo filho, pois “era demasiado barulhento e podia levantar suspeitas entre a vizinhança”. O que sobreviveu, tem actualmente 6 anos e, também foi molestado pelo suposto “pai”.
Face a casos como este, numa ditadura do medo, siga-se então pelos trilhos da indiferença e da banalização. Depois, pasmemo-nos todos com a “bela” humanidade, esta, que se está a criar.

A imprensa nacional desvaloriza a sua história, porque, infelizmente, a escravidão sexual é comum no Brasil.
Se fosse na Europa, o caso de Mara era muito mais crime do que é aqui. Basta lembrar o mediatismo que envolveu o caso de Natasha Kampusch, a jovem austríaca de 18 anos que em Agosto de 2006, fugiu de um cativeiro na garagem da casa do electricista W. Priklopil, que a tinha sequestrado oito anos antes.
São as teias de um país dominado por homens, por senhores, por coronéis.
Em certos aspectos, o Brasil parece um país fictício, quando a preocupação do Estado não é o cidadão, o cidadão também se demite.
É incrível como este caso demonstra que a população não acredita no poder público, nem se julga com direitos de cidadania.
A incredulidade é tanta em largas fatias da população que os pais dessas crianças pensam: “Já que o teu destino é a pobreza, ao menos vamos potenciar o que tens”. E o que têm estas crianças pobres, na óptica dos pais? Têm um sexo que lhes pode melhorar a vida.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

E dezasseis anos depois:


O novo single promete bastante. :-)
Aditamento. Justiça seja feita: o link desta música não era da "joana", era deste senhor. Pela minha leviandade, peço desde já as minhas sinceras desculpas ao Nick. De seguida, vou lhe transmitir algumas palavras de esclarecimento em inglês, no sentido de lhe fazer entender a minha posição face à divulgação e partilha de mp3's pela comunidade bloguiana que não possui qualquer autorização por parte dos músicos para o fazer, e aproveito para lhe dizer que ele NÃO está convidado para o meu churrasco. Um americano a pedir satisfações do uso abusivo (de outrem) de uma propriedade que não é sua? Inédito. Quer barbecues? Faça-os lá no quintal da casa branca!
Great Site, man! :-)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

And the Oscar goes to...


“The fight is over. So tonight, welcome to the makeup sex.”
“Normally when you see a black man or a woman president, an asteroid is about to hit the Statue of Liberty.”
“Oscar is 80 this year, which makes him now automatically the front-runner for the Republican (presidential) nomination.”

Desta gente (que me adora)

O que é uma diva? E, já agora, para que serve uma diva? Em Portugal, a comunidade gay (masculina), no mais generalista que isso possa querer designar, elegeu Simone de Oliveira como a sua diva. Ninguém consegue muito bem explicar as razões. Nem a própria. A sua imagem terá servido de modelo para muitos travestis usarem, com sucesso, nos seus shows há uns bons anos atrás. Mas será tal razão suficiente para justificar esta idolatria? Independentemente de todos os seus justos e reconhecidos méritos – porque também não é isso que está aqui em causa - fico com a sensação que ela caiu nesta “posição” por mero acaso. Pelo menos é essa a ilação que tiro ao ler a entrevista que concedeu à revista Time Out (obrigado, sara).
“Homossexual é o homem que gosta de homens. Gay é um homem que gostava de ser mulher.”
“Naturalmente, viviam melhor do que hoje, em que se fazem aquelas paradas, aqueles desfiles ridículos. Aquilo não é nada. Aquilo é um dar nas vistas, é fazer brincadeiras de mau gosto.”
“A noção que tenho é a de que não há nenhum homossexual que não tenha tido uma grande paixão por uma mulher, diz-me a experiência.”

Entre alguns “disparates”, ela acaba por dizer algumas verdades. Verdades estas que não são novidade para quem esteja minimamente informado sobre o meio. No entanto é, de facto, importante ter consciência da quão multifacetada pode ser a “comunidade” que a idolatra. Saber que há todo um outro mundo que está longe de a venerar por tais incógnitos motivos, muito longe das paradas públicas que ela critica e das festas de travestis “caseirinhas” que ela gosta.
“Neste país, há imensos senhores casados, com filhos, que gostam de homens e têm as suas relações. Somos uma sociedade perfeitamente mentirosa.”

Para se ser diva, pelos vistos, também é importante saber isso. Mas também seria importante saber que para lutar por certos direitos e contra discriminações é necessário “dar nas vistas”. Ou pode-se ficar à espera de que seja o homossexual que não se aceita como tal que o faça? Sejamos realistas: por cá, e fazendo as contas certas, o homossexual (masculino) comum, nem é tanto o que dá a cara ou participa em desfiles, mas será mais o que baixa e sobe as calças à mesma velocidade com que foge de uma discussão da defesa das causas da sua orientação sexual. Uma sexualidade que ele nega, categoricamente, mas que pratica, sem contenção. Felizmente ainda vai havendo gente honesta neste meio que, gostando ou não de “dar nas vistas”, vai à luta e tem feito, apesar de tudo, muito pelo respeito e dignificação de todos os que “praticam” esta sexualidade. Todos! Incluindo os que cospem no seu prato da sopa.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Parabéns caro leitor: acabou de acumular uma morcela no seu saldo de cliques!

Uma manhã destas, logo ao acordar, comecei a ponderar nas várias hipóteses de fazer com que este blogue ficasse esteticamente mais feio, visualmente mais desagradável e menos prático de consultar as opções “extra-posts”. Cheguei a pensar contratar os mesmos gajos que criaram o novo site da Ana Malhoa, mas ao perceber que isso poderia trazer-me uma certa popularidade para o qual ainda não estou preparado, decidi não arriscar. Para além de que não teria suficiente dinheiro - ou silicone - para pagar tal complexo serviço. Até que um amigo opinou: “Porque não colocas anúncios do Google?... Ficas com a página mais cheiinha e ainda podes ganhar algum dinheiro com isso.” A primeira parte cumpria em pleno o meu objectivo, a segunda nunca fez qualquer sentido na minha cabeça. O Google para além de dispensar-me um espaço para eu escrever uns disparates, entre dois ou três desabafos e colocar fotos de ceroulas gigantes, ainda me vai dar dólares em troca? Deve ser, deve! Mesmo incrédulo acabei por aceder à sugestão do meu amigo.
Até que esta semana sou surpreendido, dentro da minha caixa de correio, coladinho à Dica da Semana, com um postal cujo remetente indicava: Google Adsense Support, (...), USA, e no seu interior continha alguma informação sobre uma “activação dos pagamentos” e um pin pessoal. Comecei a rir. O vizinho do primeiro andar, que tinha entretanto entrado no prédio, deve ter pensado: “Olha, mais um que não perde uma anedota do jornal do Lidl”.
"Ganhar dinheiro com a internet sem ter que me despir em frente a uma webcam? Ah ah ah!"
Que fique aqui registado: no dia que entrar em qualquer uma das minhas contas – por questões prático-fiscais tinha uma certa preferência por aquela que possuo num Banco na Suiça - um tusto por conta do “Foi um prazer...”, organizarei uma churrascada e estarão convidados, para participar nela, todos os meus assíduos leitores. A bebida será à descrição, mas os grelhados serão distribuídos consoante a fidelidade a este blogue. Para ficarem com uma ideia: três “cliques” semanais corresponderão a uma salsicha alemã, duas febras de porca ribatejana e uma alheira de Mirandela. Eu se fosse a vocês acampava já por aqui.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Pá, evitei uma fila de 2 km na A1 e vim pelo Trancão!


sQuba, o primeiro carro submergível, vai ser apresentado no dia 7 de Março no Salão Automóvel de Genebra. Um carro a apostar fortemente no mercado português. Sobretudo útil para quem tenha que sair de casa em dias que chova um bocadinho mais que o normal ou para evitar portagens e as enormes filas de trânsito nas pontes. Aliás, com a chegada deste carro, dispensa-se qualquer tipo de discussão sobre a localização de novas pontes.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

E o Urso de Ouro...

... já ninguém lhe tira. Merecidíssimo, será desta que estreia por cá?

Smell like excessive-quantity-of-smoke

Foi aquela banda de covers rock que nos fez ir àquele local. Os meus amigos já conheciam-nos, no entanto, para mim, no passado sábado sucedeu uma dupla estreia, uma nova banda e um novo local: o “Armazém do Sal”, na Azambuja, em pleno Ribatejo (Sul). Bar dançante, espaçoso e com um ambiente agradável. Quando lá chegamos, já os Declinios iam a meio da sua versão de “Ruby” dos Kaiser Chiefs. Não os via, mas ouvi-os até bastante bem. A casa estava cheia e só faltavam-lhes uma certa elevação física, tipo: um palco, para que pudessem ser distinguidos do público que queria estar mais junto deles. Não precisei de escutar mais de duas ou três músicas para confirmar o boato: eram, de facto, muito bons. Limitarmo-nos a chamar-lhes uma banda de imitações parece-me muito injusto, já que o mais interessante que os Declinios tem para nos oferecer é uma certa originalidade que incutem nas suas versões de algumas “malhas” do nosso pop/rock/metal contemporâneo. Muse quase perfeitos, Razorlight e Arctic Monkeys para surpreender, Queens of the Stone Age bem esgalhados e uma insistência, mais que justificada pela garra e vozeirão do vocalista, nos Sistem of a Down. Houve tempo (mas pouco espaço) para “curtir” os clássicos dos Rage Against the Machine, Metallica e Nirvana. Pelo o que os pedidos do público davam a transparecer, o “Thunder(struck)” – ou “Sandra!” como o extrovertido vocalista escarneceu - dos AC/DC era o “prato da casa” e foi servido com o vocalista a transformar a sua voz de forma a ter ficado com dúvidas – já que, como referi anteriormente, mal os conseguia ver - se o Sr. Brian Johnson não terá sido subitamente teletransportado das terras dos cangurus directamente para as lezírias, só para levar aquele local ao rubro. Foi um momento brilhante.
O primeiro encore encerrou com o hino da geração rebelde dos anos 90, que é como quem diz “Smell like teen spirit”. Cheirava a alguma rebeldia, sim, mas cheirava mais a fumo. Não sei se aquele espaço se enquadra numa das exclusões da nova lei anti-tabagista e se tem mais ou menos de 100 m2 - porque se há coisa que não costumo trazer para locais de animação nocturna, é uma fita métrica para confirmar se os espaços públicos que frequento estão a cumprir a nova lei – mas uma coisa posso garantir: o sistema de evacuação de fumo daquele espaço funciona debilmente. Foi este o único pormenor “nebuloso” que não permitiu que aquela noite e aquele espaço não pudessem ser mais agradáveis. Por mais divertidíssimos que fossem os medleys dos Declinios, sentia-se o ar pesado e nem era com o risco de provocar uma taquicardia a qualquer militante da extrema-direita que se encontrasse por lá, quando a banda decidiu misturar os Buraka Som Sistema com o Hino Nacional. Concentrava-se sobre as nossas cabeças, um fumo que não encontrava um meio de fuga, tornando-se ainda mais denso sempre que, o vício se tornava insuportável e, se acendia mais um cigarro naquela sala, dificultando a respiração e a visão. Felizmente que o fumo não afecta directamente os ouvidos...

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Nina

Tenho uma grande amiga que por vezes partilha comigo as suas amarguras do coração. Ninguém diz que por trás daquela rapariga extrovertida e bem-humorada, pode estar alguém tão frágil e emocionalmente carente. Só mesmo quem conheça as suas tristes histórias. Namorados, namoradas, casos e descasos.
Recentemente atraiu-se por uma colega de trabalho, que por sua vez já era comprometida. Tal atracção podia não ter passado disso, se não tivesse sido correspondida. Restava-lhe a consciência de que podia estar a mais e conseguir sair a tempo, ilesa, o quanto antes deste “jogo”. Mas será fácil contornar as suas regras quando o coração assume o papel de árbitro? Sinceramente, não sei, mas não consigo vislumbrar-lhe um prognóstico favorável: os trios amorosos nunca deram bons resultados para quem entra no “jogo” quando ele já vai a meio e é jogado, pelos restantes jogadores, com regras viciadas.
Não gosto de a ver triste, não gosto de a ver sofrer por ainda não ter encontrado alguém que soubesse valorizar e respeitar os seus sentimentos. Gostava, antes, que ela encontrasse um justo merecedor dos seus carinhos e que continuasse a acreditar nessa enorme capacidade de amar que, e apesar de um passado menos favorável, ainda lhe vai apoderando da alma.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A evolução dos costumes

A evolução dos costumes continua presa à ciência de saber quem de facto tem o direito de entender o sorriso das crianças. “Percebeu? Eu tenho uma filha. Eu posso entender!” Isto na boca de um político de extrema-esquerda. Mas os artistas não ficam atrás, só não metem a procriação ao barulho porque investem na metáfora: “A minha vida privada é um reduto inexpugnável.” A frase vinha estampada numa revista de mexericos como declaração peremptória de um actor famoso, um homem bonito, culto, na casa dos 40, vítima de uma onda de rumores malévolos que o associavam à vida privada de um político de nomeada. Se a reserva de intimidade de um artista cabe toda numa frase kitsch, que juízo fazer da evolução dos costumes?

Cidade Proibida, Eduardo Pitta

Hot, hot

(Beyoncé & Tina Turner, na cerimónia dos Grammys da noite passada)

42 anos separam as idades dos dois pares de pernas mais "hot" da história da música R&B. Mas elas são muito mais que isso.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Sem palavras

Quando ela chegou à zona dos campos e das paredes onde se costuma praticar ténis, já eu suava há mais de meia-hora. Ficamos em locais opostos, mas com a troca de bolas tive o privivlégio de a ver mais de perto e delinear melhor o seu perfil. Tive a oportunidade, inclusive, de lhe ouvir um doce “obrigado”, após uma das suas bolas ter invadido o meu espaço. Não usava daquelas maravilhosas e sedutoras saias que as suas “colegas” tenistas usam nos jogos profissionais, mas as calças (justas) também não lhe tiravam qualquer mérito. A combinação do cabelo alourado (com “rabo-de-cavalo”), a sua pele branca e um top preto colado ao peito fazia por despertar a atenção de alguns transeuntes – outros atletas ou famílias de passeantes - que passavam por perto. No entanto ela limitava-se a atirar as bolas contra a parede e a recebe-las de uma forma perfeitamente sincronizada e nada ou ninguém a desconcentrava.
Na estrada perpendicular à parede onde ela se encontrava, um rapaz, dentro do seu carro, parou uns metros antes e ficou por ali uns segundos a observá-la. Até que acabou mesmo por desligar o motor do seu Volkswagen Golf (versão antiga) preto. A rede, que separava os pouco metros dos campos de treino da via pública onde ele se encontrava, dava-lhe uma certa margem de segurança para cometer tal “ousadia”. Os carros, excepto os dos seguranças, estão interditos naquela zona do Estádio Nacional, no entanto o nosso “voyeur” deve pertencer ao contingente de trabalhadores que estão nas obras que vão dar origem ao gigantesco pavilhão de campos de ténis cobertos. Ela continuou o seu treino, mesmo depois de perceber que estava a ser descaradamente observada. Ele, não se fazendo de rogado, abre ainda o vidro do “pendura” para poder ouvir com maior clareza os ligeiros “gemidos” (de esforço) da desportista. Por ali ficou vários minutos. Só tinha olhos para ela e nem reparava que também estava a ser observado por todos os que por ali passavam e estranhavam a sua presença. Ela recuou, dirigiu-se ao saco e retira do seu interior uma garrafa de água. Colocou-se de perfil e ele, seguramente, acompanhou muito melhor que eu todos aqueles pequenos gestos corporais que a aliviaram-na da sede. Voltou a pegar na raquete e perseguiu o treino. Ele esperou mais uns minutos e acabou por partir, vagarosamente.
Chamem-me parolo e ultrapassado, mas gosto destes momentos de cortejamento ou galanteio.

“A todos nós falta a linguagem para expressar o que sentimos, e a única maneira de tornar alguma coisa visível é através da linguagem corporal. Já era assim com os “cowboys”...” Ang Lee, numa entrevista publicada no Público da semana passada. Por causa do seu novo filme: Lust/Caution ("Sedução/Conspiração").

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Mesmo assim há ainda quem pense que amar é fácil

O mais interessante dos nossos relacionamentos, para além de vivê-los, é perceber como funcionam e porque funcionam. Sendo nós, por vezes, tão distintos uns dos outros, é notável a nossa capacidade de adaptação (e, por vezes, de sacrifício). Os opostos atraem-se ou os opostos subjugam-se, mas eles mantêm-se. Sempre.
Até as pessoas mais frias e (aparentemente) insensíveis vão-se relacionando. Noto que para isso será necessário que o(a) parceiro(a) não o seja, pois para que se inicie uma relação é exigido um certo equilíbrio a nível de conjugação de personalidades. Depois, a durabilidade desse relacionamento já estará dependente da capacidade de ambos, ou só de uma das partes (como também acontece), fazer(em) por manter a sustentabilidade desse equilíbrio. É aqui que se avalia o grau de flexibilidade e tolerância de cada um. Pelas melhores e piores razões, ninguém esquece o(a) amado(a) mais inflexível e intolerante.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Os erros do Luís

A singularidade dele começa quando marca almoços comigo em locais estratégicos, onde se sabe que à partida que, naquela peculiar hora, esses sítios vão estar repletos de pessoas. Nomeadamente: centros comerciais. Aparece-me à frente, sempre, envergando a sua farda de piloto de uma companhia aérea. Ao contrário de muitos, o Luís faz questão de não ser discreto. Ninguém passa por ele e deixa de o contemplar e se há coisa que ele adora, é exactamente isso: que não se fique indiferente à sua presença. Ele é bem-apessoado mas é a tal farda que marca a diferença. Gosto de ver os olhares dos outros, sobretudo das mais recatadas mulheres que se esforçam para não serem captadas a observar. Dá-se a troca de olhares: ele conversa comigo e simula olhar para mim, elas olham (discretamente) para ele e eu olho (discretamente) para elas. Aquela farda rende e ele sabe disso. Já lhe rendeu, pelo menos, algumas tardes de prazer e ele também já percebeu que a sua aliança no dedo anelar deixou de ser um entrave quando há uma superlativa atracção pela sua vestimenta.
Ao contrário do que se possa imaginar, o Luís não é tão indiscreto com a sua intimidade. Fala muito pouco dela, apesar de me dar a conhecer todos os seus “casos”. Mas, ao contrário de outros amigos, não entra em pormenores. Dá-me a conhecer o essencial e deixa em suspenso o que ele é em privado. Alguém que chegou a desabafar comigo todos os seus mais recatados medos e receios – porque mesmo alguém que tripula um Boeing com quase 200 vidas a bordo também os terá -, estranhei inicialmente que não alargasse o âmbito das suas confissões para outras áreas. Até que um dia coloquei como hipótese o seu interesse na minha pessoa ir um pouco mais além da boa companhia e da boa conversa. Até ao dia que percebi que alguns daqueles olhares mais profundos poderiam querer significar mais que uma prova de confiança. Até ao dia em que, num desses almoços pré-combinados, a sua perna se deixou ficar colada à minha demasiado tempo para eu considerar ser mera distracção... Entre outras insinuações mais ou menos directas. Ele é uma pessoa bastante prática e sempre me quis dar a entender que todas as vertentes da sexualidade lhe causavam, no mínimo, curiosidade. Eu sei que ele sabe que eu sei o que ele sabe que eu sei...
Tudo o que mais pudéssemos partilhar a um nível mais carnal, poderia lhe ser tão indiferente quanto como qualquer um dos seus casos extra-matrimoniais. Com uma componente extra de facilidade: por eu também ser homem e poder pensar da mesma forma, digamos, uma forma descomplicada. É esse um dos erros do Luís, achar que penso à sua maneira. O outro será não entender que a bissexualidade e a promiscuidade estão a milhas de distância de serem sinónimos. E o maior erro poderá ser: pensar que a minha amizade para com ele não possa sair abalada por “mais uma queca” no seu currículo.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Save for work Porn

... ou uma boa forma de ridicularizar a pornografia. Mais aqui.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

A filha da putice não tem limites

Descansa em paz e muito, muito longe destes filhos da puta, Mr. Heath Ledger.

E tudo o vendaval trouxe

Salvo algumas (pouquíssimas) excepções, tivemos, por cá, um final de ano medíocre a nível de boas estreias cinematográficas. Portanto ninguém se surpreende com o facto de que, dos cinco filmes nomeados para o Óscar na categoria principal, só um ainda tenha estreado nas nossas salas: “Atonement” (“Expiação”) - estreou a semana passada e, ou muito me engano ou, deve ser o mais fraquinho dos cinco, mesmo que traga no currículo alguns Globos de Ouro e uma boas críticas. Ou seja: vem aí um vendaval de expectantes estreias. Os novos filmes de Sidney Pollack (como produtor), dos irmãos Coen e de um dos meus realizadores favoritos da nova geração: Paul Thomas Andersen. O outro nomeado que encerra esta lista é a surpresa indie, ou melhor, o “Little Miss Sunshine” (versão 'tuga: “Uma família à beira de um ataque de nervos”) dos Óscares de 2008, chama-se “Juno” e estou com esperanças de que ele me faça rir, tanto ou mais que o seu congénere de 2007. Não deve ganhar o tal Óscar, mas uma nomeaçãozita nesta categoria dá-lhe sempre uma certa visibilidade que precisa (e certamente merece). Estreia prevista em Portugal a 7 de Fevereiro.

Dois factos curiosos: Julie Christie foi nomeada para o respectivo prémio de melhor actriz e Julian Schnabel foi nomeado para o de melhor realizador. Sobre o primeiro, convém acrescentar que o filme, onde esta grande senhora entra, chama-se “Away from her” ("Longe Dela"), também nomeado para o Óscar de melhor argumento adaptado, nem teve direito a exibição nas nossas salas, passou directamente para o mercado do DVD. Quanto ao segundo facto, sobre o realizador e o seu filme: “O Escafandro e a Borboleta” - estreou quase despercebidamente por cá o ano passado e a nossa crítica parece ter dado aquele empurrãozito extra... para o precipício - anexado a uma expressiva classificação de “bola negra”, "alguém" terá escrito:
"Há filmes assim que não deixam quaisquer dúvidas: insuportáveis da primeira à última imagem. Sobretudo para quem gostar de melodrama, como nós, este sentimentalismo pateta, "realizado", pretensiosamente, na "primeira pessoa", não pode deixar de indignar. O modo como se trata a doença, o coma, o sofrimento, por interposta ficção, baseada (assume-se) em factos reais, é quase obsceno. Julian Schnabel não resiste a rodriguinhos e a chantagens emocionais, mas o resultado final é catastrófico."
Ou não?

sábado, janeiro 19, 2008

Admiráveis seres

Admiro a coragem do transexualismo, transformismo e fenómenos similares. Alguém que não teme as consequências de uma sociedade preconceituosa e estereotipada e segue pelo difícil caminho de assumir para si e para os outros que nasceu com o sexo errado. Há quem faça disso um “hobby”, mas também há quem tome uma decisão definitiva e faça dela uma mutação integral e (quase) definitiva, com as consequentes transformações no seu próprio corpo. O passo heróico reside aqui: um homem consegue facilmente adquirir comportamentos e características femininas (e vice-versa), mas não alcançará as formas físicas do (tão desejado) sexo oposto com a mesma facilidade.
A maioria destas pessoas faz do milagre da transformação dum corpo o melhor remédio para o apaziguamento da sua alma. Uma alma que até então não se coadunava com o que via à frente do seu espelho. Serei eu o único a achar maravilhosa essa forma de arte de endeusamento do mundo do sexo oposto, transformando-se nele? Não serei certamente, mas também sei que, para muitos, eles/elas nunca deixarão de ser “aberrações da natureza” - mesmo que isso não seja impedimento para que estes “perturbantes seres” façam parte das suas mais recônditas fantasias sexuais, aliás, é melhor nem imaginar a percentagem de homens, seguríssimos da sua heterossexualidade, que não se importavam de serem “desenrascados” por um travesti. (O sexo é orientado pela “psico” do próprio e, simultaneamente, pelos comportamentos dos outros.)
Estranho, no entanto, quem limite a sua mudança ao/pelo sexo. Um sexo pode legitimamente incorporar ou transformar-se noutro por pura satisfação de fantasias e da realização dos seus mais íntimos desejos, mas tal pode ser também, tão-somente, a mais perversa e perigosa forma das obsessões: a de dar prazer a alguém do mesmo sexo, transformando-se no (sexo) oposto – só porque a sociedade assim o regrou como “normal”. É aqui que coloco as minhas reticências sobre o “fenómeno” destes admiráveis seres. Quando estes homens/mulheres não querem ser mulheres/homens por eles, mas pelos outros. Valerá mesmo a pena?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Ele é tão... português!

“Nos últimos anos de missão de apoio à paz nos Balcãs, dezenas de militares casaram com raparigas da Bósnia. É o caso do sargento Fabrício...” (...)
“Ela chamou-me à atenção por ser uma pessoa muito forte e muito profissional... Era a nossa tradutora. Ela também é muito bonita, se calhar se não fosse bonita... (ri-se)”. “Em Reportagem”, “Da Bósnia com Amor”. Mais logo na RTP1.
Ela podia ripostar no mesmo sentido: “Ele chamou-me à atenção por ser uma pessoa muito sincera e humilde... Ele também é (muito) português, se calhar se não fosse (tão) português...”

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Chatisse contra-ataca

Alguém já kurtiu com o pai? Vamos tclr e quem sabe podemos trocar de pai.

Quando a perversão começa na nossa própria casa torna-se sempre mais complicado entender os seus limites. Isto agrava-se quando está envolvido alguém que nem consciência tem do que faz ou do que lhe pedem para fazer.
Esta pequena mensagem foi enviada para um dos chats do teletexto da SIC. Um chat que foi encerrado há mais de um ano atrás, não tanto por motivos relacionados com esses tais limites mas mais pela linguagem utilizada nestas mensagens. Para a autoridade que o regula, mais grave que haver claríssimos casos de pedofilia - que eu em tempos denunciei por aqui - ou incesto (como pode ser o caso), era estar a ser usado, para tal, “palavrões”. Depois reabriram-no, estipulando certas regras e impondo uma contenção na linguagem nas mensagens a publicar. Mas depressa se aperceberam que, por vezes, é difícil ao ser humano exprimir os seus mais íntimos desejos e vontades sexuais através de uma linguagem cuidada e sem uma ou outra ordinarice pelo meio. Não é tanto uma questão educativa, poderá ser mais uma questão racional, penso eu. Provavelmente, também, o negócio deixou de render o que rendia e acabou mesmo por se levantar o embargo à sms obscena. Ou seja, actualmente, voltamos aos primórdios e já tudo é permitido. Menos o bom senso.
Para quem acha que a sexualidade – nomeadamente, a virtual - dos portugueses é demasiado homogénea e, sobretudo, pouco criativa e original, aconselho, desde já, uma visita a este “mundo”. É verdade que são fantasias que cada vez menos me surpreendem, ou eu não soubesse que as tradições e bons costumes, por norma, andam sempre de mãos dadas com a perversão em última escala e a mais dissimulada. No entanto não me deixo de espantar com a naturalidade com que são expostas publicamente, sobretudo porque não são feitas de forma anónima e parece que, até há algumas que, são legalmente condenáveis. Ninguém diria...

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Push & Bear

Através de uma amiga fiquei a saber que a loja da Pull & Bear, num conhecido centro comercial em Lisboa, está a recrutar colaboradores (M/F) com base nas seguintes condições:
Horário: 19h – 24h, sete dias por semana, com 15 minutos de período para uma refeição (falou-me em dois dias de folga “mensais”, mas deduzo que tenha percebido mal, ou seja: devem ser semanais – i hope!)
Remuneração Ilíquida: 250 euros
Podia-me associar à sua consternação começando logo pelo horário, digamos, indefinido. Indefinido nem me parece que seja a palavra mais correcta a aplicar a esta situação. Talvez, falso. Senão vejamos, segundo palavras da minha amiga: a loja fecha de facto à meia-noite, mas é exigido que todos os colaboradores devam permanecer na loja até que esta esteja preparada para a sua reabertura na manhã seguinte. Sendo assim, não me parece que o horário proposto seja o mais transparente.
Depois vem a questão da remuneração ilíquida, ou seja: sem descontos. Neste caso, aplica-se só os 11% da Segurança Social, já que, como se sabe, um “ordenado” deste montante está isento de IRS. E prémios haverá? Subsídios de turno: por tratar-se de um período laboral fixo penso que não seja aplicável. Comissões? Sei que é por aqui onde se pode ir buscar grande parte do rendimento deste tipo de empregos. Pode, inclusive, conseguir chegar-se a duplicar o valor da remuneração base, mas para isso é necessário que haja uma política de prémios bem implementada e com regras claras (e legais). As comissões de vendas são de facto um bom incentivo mas aplicam-se a este caso específico? Sinceramente, não me parece. Já visitei várias lojas desta marca e nunca fui interpelado por qualquer empregado. O público-alvo é jovem, e jovem que é jovem não é muito influenciável por opiniões dos mais velhos. Chega-se, vê-se, experimenta-se e compra-se (ou não). Só mesmo em último caso interrompe-se o trabalho do lojista para solicitar qualquer esclarecimento.
Face a isto, sinceramente nem sei o que me parece mais grave: se um full-time job camuflado de part-time (35 horas semanais?!), se um novo tipo de escravatura camuflada por um trabalho remunerado (a pouco mais que um euro e meio à hora?!).

quinta-feira, janeiro 10, 2008

A decisão: Alcochete (2007)


Os taxistas foram os primeiros a chegar!

"Ou o amor ou os deslizes. E deslizes no amor dá qualquer coisa como dois infelizes."

(...)
Vários amigos meus estão agora a separar-se. Lamento por eles, porque há também um bocadinho de mim que morre com o amor que nunca foi meu mas que vi nascer. É definhar. Assistir ao fim do amor mata-me.(...)
O amor comporta muitos sacrifícios, mas depois há um dia em que acordamos e aquela força parva que nunca esteve do nosso lado acorda connosco e deperta para nunca mais adormecer.(...)
Os meus amigos eram quase perfeitos no amor, ou na ideia que temos dele. Não fossem os deslizes. E os deslizes são graves. Ela desculpou o primeiro, não quis ver o segundo, chorou o terceiro, arrependeu-se de ter permitido o quarto, e se calhar foi ao quinto que disse: “Chega!”. Por “deslize” não tem que se entender um acto consumado, mas a intenção de cometê-lo. Para mim, e para ela, são igualmente importantes. Enquanto que a pessoa com quem partilhamos a cama está a pensar como vai cometer esse deslize, nós já deixamos de existir na cabeça dela. Ou só existimos porque constituímos um entrave ao acontecimento.
O meu amigo está a sofrer, é verdade. E há uma parte de mim que também é solidária com a sua dor. É que, para ele, os deslizes não tinham importância nenhuma porque ele gosta mesmo é dela. Deslizes e felizes são palavras que rimam na cabeça dele. E curiosamente rimam mesmo. Mas na minha fazem faísca.
A acabar o ano permitam-me estas linhas de filosofia barata, como se eu soubesse escrever outra coisa... O amor bem nutrido compensa mesmo e a fidelidade (por mais que a braguilha torça) é um mal necessário. Ou então já sabem que tudo o que fizeram vão também receber. Eu sei isso tão bem do meu passado recente. Isto não quer dizer que não prevarique... Tenho é consciência que não vou ser poupada pela má sorte.
Ou o amor ou os deslizes. E deslizes no amor dá qualquer coisa como dois infelizes.
Não é tão fácil de perceber o amor?



Parte da crónica de “O Sexo e a Cidália”, de 29 de Dezembro de 2007 NS (DN)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Curtíssima


Duas amigas bebem demais... Brincam... e o desejo subitamente perde as amarras. Acabam na cama. Acordam, no outro dia, nuas, coladas uma à outra. Depois, deambulam separadas silenciosamente pela casa. Estranhas e incomodadas com a presença uma da outra. Repudiam-se, esbofeteiam-se, abraçam-se e beijam-se. Sentimentos díspares. Os actos são instintivos e as palavras não são ponderadas. Não acaba bem a curta-metragem de Myriam Donasis (“Le lit froissé”), que passou no “Onda Curta” na madrugada de ontem na RTP2. Também estava a gostar de ver a curta portuguesa “O estratagema do amor” (inspirado num conto de Marquês de Sade) até ao momento em que esta estação pública decidiu, sem nenhuma razão aparente, interromper o filme a meio. Ainda coloquei como hipótese uma eventual falha técnica e que, após a “publicidade institucional”, voltassem a dar voz à encantadora marialva que seduzia todas as mulheres bonitas (a Margarida Vila-Nova fazia parte deste lote) que passavam pelo seu palacete e ao infortunado rapaz que se deixou cair nos seus encantos - chegando ao limite de se transvestir de mulher para poder também participar numa das suas festas e, assim, estar mais próximo da sua amada. A emissão do “Euronews” apareceu e eu perdi totalmente as esperanças de voltar a ver o único filme de época que, apesar da hora tardia que passou, não me deu vontade de dormir.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Em Portugal, um homem que não tenha um bom paleio não arranja mulher

Ao contrário do que poderia previamente pensar, as histórias extraconjugais do “Mário” têm para mim algum interesse. Os encontros e desencontros com as mulheres que passam-lhe pelas mãos e que se deixam encantar pelo seu lado sedutor démodé são sempre peculiares.
“A net é uma treta... E perde-se demasiado tempo!”, diz ele, algo desiludido com as potencialidades das novas tecnologias. “Prefiro os métodos tradicionais. O cortejamento dá sempre os seus frutos... Nem que seja uma tampa.” Fala naturalmente com orgulho das suas conquistas, das sua “amigas”. Perdi a conta delas e penso que ele também. No entanto, há sempre algumas fixas, para resolver situações de “emergência”. Distraído como é, surpreende-me a sua desenvoltura e capacidade de organização de contactos e encontros. Mas ele safa-se... Tem-se safado, pelo menos. Casadas, solteiras, divorciadas, magras, gordas, altas, pequenas, ricas, pobres, aparentemente não há critério de selecção. O único requisito necessário parece-me ser unicamente o de serem sexualmente activas. E suficientemente liberais, ao ponto de haver sexo anal nos seus encontros. “É o meu prato preferido e não posso prescindir dele numa boa sessão de sexo”. Questiono-lhe se todas as mulheres com quem esteve já tinham sido iniciadas nessa prática sexual. “Não. Nem por sombras. Muitas aprendem tudo comigo e eu, modéstia à parte, até sou um bom professor.” (Rindo-se continuamente)
Vai da portuguesa “mais difícil de dar a volta”, até à brasileira “safadona” que “pede por mais e que arrebenta comigo”. Aproveito logo a deixa e tento ver se é desta que entendo esta apetência – pelo menos da fama não se livram - das mulheres brasileiras para o sexo anal. Ele dá-me, convictamente, a sua opinião sobre o assunto. “É uma questão cultural... No Brasil, uma mulher que não dá o rabo não arranja homem. Portanto está de tal modo enraizado socialmente que não faz sentido sequer ser questionado... Porque é que achas que elas fazem tanto sucesso entre nós?”. Parece-me óbvio que, de facto, o Brasil ganhou, nos últimos tempos, alguma relevância no mercado do turismo sexual mas contraponho com o facto de que nem toda a gente poderá tirar o mesmo prazer dessa prática e que há toda uma vida fantástica para além da submissão inquestionável. “Respeito quem não queira, mas ainda não encontrei uma brasileira que não gostasse. Aliás, regra geral, são elas que me pedem...”. Equaciono depois, para tornar a conversa mais animada, a hipótese de as mulheres brasileiras inverterem esta situação: “um homem brasileiro antes de exigir seja lá o que for da sua mulher, precisa de a respeitar e respeitar as suas decisões, sob qualquer pretexto”. Obtenho uma resposta imediata: “Seria impossível, pois deixaria de estar em jogo um factor cultural mas um histórico ou social. Importantíssimo...”.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Sobre as minhas costas


Carrego o peso dos meus desejos concretizados e por concretizar. A dúvida surge nestes períodos por não saber o que mais pesa: desejar o que nunca tive, ou ter aquilo que nunca desejei.
Os balanços podem ser frustrantes, os prognósticos podem ser pouco animadores. E as minhas costas vão suportando tudo isso. Até quando?

quinta-feira, dezembro 27, 2007

800 Euros

É o valor que um grupo de amigos vai despender pela estadia, num medíocre T2, no próximo fim-de-semana prolongado, na Nazaré. Parece que foi o melhor preço para ambas as partes.
A preocupação deste grupo estaria, não tanto com as condições que a casa pudesse oferecer - muito menos com o lhes vai sair do bolso – mas com a aceitação, por parte da arrendadora, do respectivo número de hóspedes. Uma dúzia, “mas podem ser mais”. Perceberam, no segundo a seguir, que tinha sido uma sorte terem avançado com um número par, pois para a nazarena, mais importante que o número de estranhos que lhe vai invadir a sua casa, seria o tipo de inter-relacionamentos entre si: “Quantos casais são?”. Ora bem e não é que a teoria da senhora das sete saias faz sentido: enquanto acasalam, não destroem a casa! Ficamos, assim, todos a saber que, ao contrário da especulação imobiliária, a poligamia não é uma prática vista com bons olhos pela classe das varinas da Nazaré.

terça-feira, dezembro 25, 2007

Bom dia!

Desperta com a pouco claridade que vai sorrateiramente entrando pela janela semifechada do quarto. Vai ganhando consciência, primeiro de onde está e logo de seguida, de que não está só. Vira-se para quem está ao seu lado e fica ali ainda alguns minutos a contemplar aquela magnífica porção limitada de matéria quase estranha que os lençóis não conseguem cobrir. O pescoço, a boca, o nariz, o cabelo. Os olhos tremem e ouve-se a respiração, aquele seria o melhor momento para poder cometer o perverso acto de observar os detalhes sem estar na condição perturbante (e intimidante) de poder estar sujeito ao mesmo processo. Entretanto, aquela experiência necessita de passar a outro nível e decide aventurar a sua mão até ao corpo meio desconhecido. Começa pelo cabelo e, depois, desce até ao rosto, passando os dedos ao de leve pelas pálpebras e os seus grossos lábios. Quando toca-lhe nas orelhas, o outro ser ressente-se e mexe-se ligeiramente. Pára. Ganha novamente confiança e avança para um ombro destapado. Enquanto vai descendo pelo braço abaixo, o choque da diferença de temperatura vai sendo gradual e tornando, assim, eminente o outro despertar.
Abre timidamente os olhos, sorri e puxa bruscamente aquele corpo que o acordou para junto de si. Estranha-se um primeiro beijo, entranham-se os restantes. Ficam ali. aqueles dois corpos entrelaçados, durante infinitos minutos, no centro daquela grande cama até os cheiros e sabores de cada um voltarem a misturar-se e o desejo pedir que aquele contacto se torne ainda mais íntimo.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O capitalismo

Retirado deste livro notável:


“A rede de distribuição capitalista, uma complexa cadeia de fábrica, transporte, depósito e pontos-de-vendas, é um dos maiores feitos masculinos na história da cultura. É um circuito apolíneo, com a rapidez do raio, de aliança masculina. Uma das irritantes reações automáticas do feminismo é seu desdém de bom-tom pela “sociedade patriarcal”, a que jamais se atribui alguma coisa de bom. Mas foi a sociedade patriarcal que me libertou a mim como mulher. Foi o capitalismo que me proporcionou o lazer para me sentar a esta mesa e escrever este livro. Vamos parar de ser tacanhas em relação aos homens e reconhecer livremente os tesouros que a obsessividade deles despejou na cultura.
Podíamos fazer um catálogo das conquistas masculinas, das estradas pavimentadas, do encanamento das casas e das máquinas de lavar aos óculos, antibióticos e fraldas descartáveis. Desfrutamos de leite e carne fresco , sadios. Quanto atravesso a ponte George Washington ou qualquer das grandes pontes dos Estados Unidos, penso: foram os homens que fizeram isso. A construção é uma sublime poesia masculina. Quando vejo um gigantesco guindaste passando numa carreta, paro com respeito e reverência, como faria com uma procissão. Que poder de concepção, que grandiosidade: esses guindastes nos ligam ao antigo Egito, onde a arquitetura monumental foi imaginada e realizada pela primeira vez. Se se tivesse deixado a civilização nas mãos da mulher, ainda estaríamos morando em cabanas de palha. A mulher contemporânea que usa capacete de operário simplesmente entra num sistema conceitual inventado pelos homens . O capitalismo é uma forma de arte, uma invenção para rivalizar com a natureza. É hipocrisia das feministas e dos intelectuais desfrutarem os prazeres e conveniências do capitalismo, fazendo ao mesmo tempo pouco dele. Todos os que nasceram no capitalismo incorreram em dívida com ele. Daí a César o que é de César. ”

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Abriu oficialmente a época de caça à sms natalícia

Quando nasci deram-me a escolher entre um pénis grande ou uma memória grande, e eu agora já não me lembro se te mandei a mensagem a desejar um bom natal...
Vindo de uma amiga, não sei lhe recorde umas lições de anatomia ou lhe deva dar, simplesmente, os parabéns!

Quando te sentires a pessoa mais infeliz do mundo, lembra-te que um dia foste o espermatozóide mais rápido do grupo! Feliz Natal.
Boa, quando me sentir a pessoa mais infeliz do mundo já sei com quem não contar. Sim, porque pior que sentir-se um inútil, é ser um ser microscópico.

Se um homem gordo, velho, vestido de vermelho te tentar embrulhar não resistas... fui eu que já escolhi a prenda deste natal.
Com miúdas tão prendadas no Carrefour, tenho mesmo que ser embrulhado pelo Comandante dos Bombeiros Voluntários de Rebuguengas de Baixo?
Continua... ou não.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Estranha tendência


Estacionar carros nos passeios para além de ser uma prática ilegal, é um acto prevaricador da ordem pública. Um total desrespeito por todos os cidadãos que só possuem este espaço para circular na via pública. Mas, na minha opinião, este deve ser um problema para ser resolvido rigorosamente fazendo cumprir a lei ou em último caso, indirectamente, pela sua subjectividade problemática (cada caso será um caso) e não com soluções “chapa cinco” sem, por exemplo, questionar os seus utilizadores - sobretudo os residentes - se acham tal resposta viável.
Expõe-se uma reclamação à autarquia local e enviam-se uns especialistas para se arquitectar uma solução. Conclusão: pinos e mais pinos! Obra feita e o resultado está à vista de todos: perdeu-se um óptimo e amplo passeio junto das garagens e ganhou-se uma curiosa pista de gincana de bicicletas.

Alguém devia estudar esta estranha e sistemática tendência, dos senhores engenheiros e/ou arquitectos das Câmaras Municipais, para apresentar estas protecções fálicas espetadas no solo, como solução única e inquestionável para resolver o problema do estacionamento abusivo.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Maior que a vida


Há momentos aparentemente insignificantes no nosso dia-a-dia que, por transmitirem uma certa carga sentimental inexplicável, podem-se tornar eternos.
Uma viagem de comboio que faça a ligação entre as duas principais cidades do país, teoricamente, pode ser um suplício, sobretudo para quem não esteja habituado e se limitar a pensar nas suas três horas de duração (na hipótese menos económica mas mais rápida). Um jornal ou uma revista pode ajudar a passar o tempo, mas observar as paisagens (enquanto se “pensa na vida”) também pode dar um contributo não menos valioso.
O comboio parte da estação de Santa Apolónia (Lisboa) meia-hora depois das sete da manhã e ainda as luzes públicas iluminam umas estradas praticamente desertas. Por outro lado, algumas luzes acesas nos prédios são um indício de que a cidade começa a despertar para mais um dia. Entretanto deixo de ver edifícios e estradas e passo a ver o campo. Lá mais ao fundo uma parte do rio começa a tomar uma tonalidade alaranjada. Este momento coincide com o meu acto de meter os auscultadores do leitor de mp3 nos ouvidos. Enquanto o sol, timidamente, começava-me a iluminar o horizonte, os Band of Horses aqueciam-me o corpo e a alma. Alternando de funções, ambos, assim me acompanharam no resto da viagem, naquela manhã fria, até ao Porto.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Ninguém goza com um homem "cheiroso"?

Ou são os treinadores, ou são os dirigentes, nem o seleccionador nacional escapa, muito menos os comentadores ou os adeptos. Todas as personalidades públicas ligadas directa ou indirectamente ao mundo futebolístico, de certa forma, são alvos fáceis da chacota pública. Todos, ou quase todos, nos rimos com os gatos fedorento a imitarem o Paulo Bento ou o Scolari, ou mesmo, o já por si muito cómico comentador, Rui Santos. Então alguém que me explique porque é que deixam passar ao lado os comportamentos (a)típicos dos jogadores de futebol? De onde vem tal impunidade social?
Estou quase a acreditar que o facto de eles todos falarem daquela maneira muito arrastada, de forma arranjar as palavras bonitas – daquelas que eles nunca usariam entre quatro linhas - para não estragarem o tal discurso politicamente correcto chapa cinco, é só para que os jornalistas acompanhem, palavra a palavra e por escrito, o que, no fundo, toda a gente já sabe de cor e salteado (de tantas vezes ouvir sair das bocas de outros jogadores). Esta ligeireza de raciocínio não seria, por si só, uma boa razão para dar largas à nossa tendência trocista?

O Ricardo Quaresma, juntou-se a um grande adepto do F.C.P., vocalista dos Blind Zero nas horas vagas, e fizeram, os dois, ontem, uma pequena reportagem para o “Jornal da Noite” da SIC onde mostravam o balneário do seu clube. Resultado: por mais que o adepto tentasse desvirtuar o discurso do jogador, a conversa entrava sempre nos “carris” e lá iam eles pela conversa do costume. “Muito orgulho por vestir esta camisola... o peso do símbolo e do nome... é aqui que ouvimos as indicações do treinador... e festejamos as vitórias... yada yada...”. A coisa de repente parece ter tomado outros contornos quando a conversa começou a traçar umas tangentes perigosas à higiene íntima do jogador. Enquanto se via umas embalagens de desodorizante da Sanex, gel de barbear Fusion, um pó de talco da Johnson, entre outras, o jogador confessava: “Sou muito cheiroso, gosto de me perfumar... porque os ciganos têm a fama de cheirar mal... mas, olha, mesmo assim ninguém me pega!”.
Os homens de sucesso de hoje são mesmo assim: pouco originais e honestos no seu discurso mas muito, muito competentes e... cheirosos.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A propósito de cimeiras cheias de boas intenções, o Sócrates* teria dito:

Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto pelo menos por desonestidade.

*Não o português, o grego!

sábado, dezembro 08, 2007

Duo maravilha

Mas há algo que o António Barreto e a Joana Pontes peguem que o resultado não seja genial?
Depois de “Portugal, um retrato social”, chegou a vez de “Nós e a Televisão” e “A televisão e o Poder”, dois documentários que passaram a seguir ao Telejornal nas passadas quinta e sexta-feira. Estão todos de parabéns: os autores, pelos excelentes documentários realizados à volta da temática televisiva no nosso país: a evolução da TV ao longo das últimas décadas e as influências* que teve, tem e terá nosso quotidiano, sob a perspectiva de quem a vê e de quem a faz; e o canal estatal, por continuar a apostar em programas de qualidade para preencher o seu horário nobre. Não podia deixar de realçar também que o duo, desta vez, transformou-se em trio, com a entrada para a parte da locução de uma das vozes mais bonitas de Portugal: Inês Menezes.

*Lembram-se da morte do Dino, dos “Morangos”?
“Milhares de adolescentes vieram de todos os pontos país para assistir aquele que foi um dos mais mediatizados funerais dos últimos tempos: o de Francisco Adam. A larga maioria só o conhecia de uma telenovela. Ninguém soube explicar a eles que quem tinha morrido dias antes, era bem mais que uma personagem de ficção.”

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Coerência


(uma das fotos, publicadas na imprensa, da manifestação do PNR no passado sábado)

terça-feira, dezembro 04, 2007

A minha Maria tem tanto jeitinho para automóveis como eu para a doçaria conventual

Há misoginia em fóruns do mundo automóvel? Comecei por estranhar a escassa participação de mulheres nestes espaços, mas inicialmente pensei que tal se devia ao pouco interesse que tais assuntos lhes pudessem provocar. Mais tarde deparei-me com uma certa hostilidade por parte de alguns participantes masculinos, sobre quaisquer abordagens feitas por alguém do sexo feminino em tópicos da especialidade. E não só. Tal repúdio por vezes estendia-se a “threaths” da categoria “off-topic”. Mas de onde vem tanta intolerância perante as opiniões dos membros do sexo oposto em fóruns onde a Soraia Chaves é Deus?
Bom, parece-me óbvio que, se não houvesse a obrigatoriedade de preencher o sexo nos perfis dos “foruenses” não haveria tanta discórdia e eu ficaria sem assunto para me entreter. Por isso: obrigado , web administrators!
Como qualquer “macho” que se preze, aqueles homens não gostam de ser confrontados com a realidade de que uma mulher também possa ter uma opinião sobre um tema que julgam dominar (sobretudo se for uma opinião contrária à deles). Aliás, acredito que, para alguns, só o facto de elas poderem ter uma opinião já é motivo suficiente para lhes causarem algumas náuseas. Não me estou a referir propriamente a uma geração de homens que só vêm as (suas) mulheres de volta dos tachos e panelas e outros afazeres domésticos. Trata-se da geração posterior a essa: os filhos destes, provavelmente. Deu-se a evolução: a rapariga/mulher saiu da cozinha directamente para uma recepção ou uma caixa de supermercado, mas continua, pelo menos para eles, sem direito a ter opinião própria sobre certos, ou mesmo todos, assuntos.
“A minha Maria”, como a maioria “carinhosamente” – as aspas, não sendo tendenciosas, servem somente para que cada um aplique o sentido que mais lhe convir - gostam-lhe de chamar, é chamada ao assunto dos tópicos destes fóruns, quando se referem à companhia - tipo apêndice – que os acompanha até um determinado local. Um deles diz, “o meu GPS é a minha Maria, peço-lhe o mapa e depois oriento-me” e o resto da “comunidade foruense” acha isto muito hilariante. Portanto, tem nome – Maria, vá lá - mas não sabe ver mapas, não se orienta, enfim: não tem uma vida própria.
A mulher com quem um destes homens escolheu partilhar a vida é mesmo a tal, a especial, a que nunca saberá trocar um pneu, nem nunca terá capacidades suficientes para decifrar as siglas TDI, CTDI, GTI, TSI, etc., que necessitará de um espaço especial e alargado para estacionar quando se aventurar a ir aos centros comerciais sem ele e vai continuar a colocar o óleo no carro pelo orifício da vareta. Tudo isto em nome do bem-estar geral público e sobretudo para que nada afecte uma normalidade social estereotipada, a tal (também), que só existe na cabeça dele (e dos que pensam como ele). Isto parece quase resultar de um mandamento do subconsciente. “Não deixarás que a mulher que durma na mesma cama que tu, domine as matérias que compete a ti dominar”. Amén.
Ela dorme com ele e ele sonha com a Soraia Chaves. Isto até ao dia em que um sonho erótico se transformar num pesadelo: quando a Soraia lhe aparecer à frente com uma lingerie muito sexy e começar-lhe a debitar uns parágrafos de um qualquer manual de mecânica de automóveis.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Um país excessivamente orgulhoso é como um realizador de filmes porno: não fornica, nem sai de cima

Eu conheço um país que conseguiu isso tudo à conta de uma mão-de-obra pouco qualificada, praticamente iletrada e mal paga. Curiosamente, ou não, são esses trabalhadores que ainda suportam uma das maiores cargas fiscais da Europa, que, por sua vez, também serve para pagar todas essas “coisas boas”.
Esqueceu-se de mencionar o facto de sermos o país com a maior árvore natal, de ter realizado a maior feijoada, o maior magusto e por aí a fora...

O facto de ter ficado a saber que o nosso país é “líder mundial na produção de feltros para chapéus” e “de rolhas de cortiça” - se bem que importamos a maior parte dessa matéria-prima (cortiça) de Marrocos e da Tunisia, uma vez que as manchas de sobreiro nacional estão envelhecidas, pois não há quem as renove; vale a pena explicar as razões? - quase fez o meu dia, mas por exemplo, essa história da invenção da “bilha de gás mais leve do mundo” não deixa um pouco a desejar, quando o ideal seria questionarmo-nos porque ainda não temos todas as nossas casas equipadas com gás canalizado?
Uma coisa parece-me certa: com o ordenado do Nicolau ou de qualquer um dos directores das empresas mencionadas, também eu seria o maior apologista do optimismo.


terça-feira, novembro 27, 2007

O medo

Numa última season sem um único episódio abaixo do nível brilhante – uma coerência que nem todas as outras grandes séries podem-se gabar, “Sete Palmos de Terra” incluída – também não será com este penúltimo episódio, que passou ontem na RTP2, que o currículo d’Os Sopranos ficará manchado. Antes pelo contrário.
Alguma tensão entre as duas principais famílias de mafiosos, revelados nos episódios anteriores, fazia adivinhar que a “guerra” estaria eminente. Provavelmente o que não se estaria à espera, era que ela fosse tão repentina e sangrenta para o lado dos Sopranos. Tony subestimou a força e a inteligência do inimigo e sabe que agora ele pode ser o próximo. A cena que encerra o episódio é sublime: refugiado e desesperado, o “nosso boss” encontra-se (muito bem) armado, deitado numa cama de um pequeno quarto, de uma casa incógnita, e tudo o que ele mais teme está para além daquela porta que ele vigia atentamente – esse magnífico plano final demonstra-o mais que quaisquer palavras. O medo no seu estado puro. Em tal situação, ao identificarmo-nos com tais características que revelam o seu lado mais humano, é impossível não ficarmos ali ao seu lado, agarrados aquela AR-10. Porque os heróis também cometem erros e perdem batalhas. E, sobretudo, temem pela sua própria vida.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Anúncio

Procuro companheiro macho. A origem étnica não é importante. Sou muito boa fêmea e adoro brincadeiras. Gosto muito de passeios nas matas, gosto de andar de jeep, de viagens para caçar e acampar. As noites de inverno aconchegadas junto à lareira deixam-me mansinha e fazem que vá comer-lhe à mão. Quando voltar a casa do trabalho esperá-lo-ei à porta, vestindo apenas o que a natureza me deu. Telefone para XXXXXXXXX e pergunte pela Micas. Aguardo notícias suas...


Resultado: uns bons milhares de homens deram por si a telefonar para a Secção de Caninos da Sociedade Protectora dos Animais.

sexta-feira, novembro 23, 2007

OrgulhoChinchila.Com

A minha sobrinha quer uma Chinchila. Sinceramente acho que nunca vi tal bicho ao vivo e agora, que pesquisei fotos dele pela net, congratulo-me por tal feito. Há pequeno roedor mais feiozinho? Nada contra o bicho em si mas, depois de me aparecer à frente, cheguei ao ponto de ponderar na hipótese de mudar de família, se algum destes seres desta espécie passarem a fazer parte do agregado de um familiar meu. Mas quem consegue resistir a um pedido de uma miúda de 10 anos quando ela puxa pelo seu lado mais ternurento e suplica-nos com os seus lindos olhos azulóesverdeadosouqueraiodecoréaquela? Eu. “Não sou mais inteligente que uma miúda de 10 anos”, mas também não sou assim tão burro ao ponto de deixar-me influenciar por ela. No entanto, como as notas dos seus testes neste primeiro período até tem sido boas, está na altura de ceder qualquer coisa e dei por mim a procurar o citado animal.
Pelos preços praticados nas lojas de animais, fiquei com vontade de pegar em qualquer rato de esgoto e aplicar-lhe uma cirurgia estética de esticamento-até-não-poder-mais de orelhas e da cauda e a miúda nem dava por nada. Entretanto lembrei-me dos anúncios da net. Bingo: preços bem mais em conta, alguns já vêm com gaiola e até o entregam no domicílio. Foi numa dessas pesquisas que fiquei perplexo com vários anúncios deste tipo: “Tenho para venda chinchila macho bege hetero...”. Hetero? O cúmulo do azar: as Chinchilas para além do infortúnio de terem aquele aspecto, também são obrigadas a ter uma orientação sexual definida. Continuo ininterruptamente a questionar-me. E quem a define? A própria Chinchila? Ou os donos? Como? Pela maior ou menor destreza na agitação da cauda? Ou pelo volume dos seus guinchinhos?
Parei a minha dedicação sobre o assunto por ali porque entretanto tinha descoberto que havia outros animais a “brincarem” com o mesmo tema. Só que desta vez consta que há uma componente extra de “orgulho”: uma cerveja de qualidade - na perspectiva de um mediano apreciador – manhosa optou por uma campanha polémica (e sem sentido) para se autopromover. Assim em segundos, o meu estereótipo do nosso maior macho latino passou, automaticamente, de um "xéxé" camarinha para uma Chinchila a beber uma tagus fresquinha e a mandar um piropo, do género: “devorava-te todinha até ficares com a cauda encaracolada” (que é como quem diz: guinchar ruidosamente), à Chinchila (fêmea e hetero, obviamente) que tivesse a “sorte” de passar por perto.

terça-feira, novembro 20, 2007

É oficial: ninguém anda ali a enganar ninguém


É por estas e por outras que hoje em dia não acredito em santas de altar nem em machões que se auto-intitulam de barba rija

Um amigo ao contar-me a sua última aventura fez-me dissertar uma vez mais sobre o tema da perversão. Ele sempre foi extremamente liberal a nível sexual e por isso tento previamente preparar a minha “psico” para o que me vai contar nos minutos seguintes. No entanto, em um ou outro pormenor, acaba sempre por me surpreender. Parece que desta vez não fui o único.
Envolveu-se num curioso jogo de submissão. Ele dominador, o outro o dominado. Todas as regras foram estipuladas previamente no messenger. Pediu, perdão, exigiu ao outro que aparecesse à porta de sua casa vendado e trazendo um (“excitante”) fio dental como roupa interior. Nem passou uma hora até o outro aparecer-lhe em casa naqueles propósitos. Ficou surpreendido, mesmo sabendo antecipadamente todas as características de quem estava naquele momento à sua frente: muito bem constituído fisicamente, que justificaria a sua função de um cargo razoavelmente prestigiado no exército nacional e a transpirar masculinidade por todos os poros - e parece que eram mesmo muitos, dado os seus mais de um metro e noventa de altura. Não houve troca de quaisquer palavras. O submisso deixou-se conduzir até ao quarto pelo seu mestre. Despem-se. O meu amigo toma imediatamente a decisão de colocar um preservativo ao reparar que o outro já estava “de quatro”, só com a tal lingerie vestida, em cima da sua cama, disposto veementemente a fazer honrar o seu compromisso. Os preliminares (ou quaisquer outro tipo de preparativos) não estavam nas regras, o “senhor militar” também assim preferiu. Consta que no início ainda se ouviu uns grunhidos agudos de dor, mas parece que o homem aguentou-se bem às primeiras investidas.Território conquistado e já suplicava por mais. O entusiasmo da vitória atingiu o nível hardcoresco de um “arrebenta-me as entranhas”! Sim... Utilizava uns nomes menos próprios. Não de serem exclamados em momentos de grande excitação como aquele, mas soavam no mínimo estranho ao serem proclamados por um senhor com uma voz muito grossa, um “senhor militar”, chefe de família, pai de filhos e por aí a fora. Foi então essa a segunda surpresa, a fantasia do “sargento submisso”, chegou ao ponto de trocar os nomes dos seus órgãos sexuais. Então, por sua legítima vontade: o seu ânus passou naquele momento a ser uma potentíssima vagina insaciável - peço desculpa, por qualquer coisinha, mas é a minha melhor tradução “soft” possível da designação relatada. Do que conheço do meu amigo, tal não é coisa para causar-lhe grandes amassos na consciência, por isso perseguiram como se não houvesse amanhã - sobretudo como se não houvesse um passado castrador por explicar -, até quase ao fim do mundo, mas não até ao fim do jogo. Porque este só terminou, quando o meu amigo exigiu que o outro se metesse, em dois segundos, fora de sua casa, mas tal não aconteceu sem antes de ele ter estado sentado no sofá durante mais de 5 minutos, a fumar um cigarro, enquanto que o seu servo se mantinha de coqueras, no centro da sala, a servir de apoio para as suas pernas. Perguntei-lhe com um ar trocista: “Foi ideia tua?”, o meu amigo franziu a testa. “Achas?!”. O que perfez a sua terceira surpresa daquele final de tarde.

Foi no preciso momento em que o seu “partner do jogo”, depois do acto (bem) consumado, se ter colocado de joelhos à sua frente (sem que ele tenha dado tal ordem) que o meu amigo percebeu que tinha acabado de participar em algo que transcendia a concretização de uma simples fantasia ou de uma mera brincadeira entre dois adultos.
Não tenho certezas absolutas sobre a minha própria sexualidade quanto mais de alguém que não conheço. Nem nunca conseguirei provar que desejos reprimidos e alguns estigmas e preconceitos por resolver podem resultar numa mistura explosiva na constituição da personalidade de qualquer indivíduo. Mas sei, por mim e por quem me já foi dado a conhecer, que a sexualidade humana vai muito para além das duas ou três designações estereotipadas que a ciência e a sociedade pediram para nos encaixarmos e que nada disto até nem traria grande mal ao mundo se tal obrigatoriedade, não provocasse, em certas pessoas, uma perversão sem limites. E sem retorno.

domingo, novembro 18, 2007

Notícia em primeira mão

ASAE fecha ASAE
Na sequência de uma visita relâmpago dos inspectores da ASAE às instalações da ASAE, foram detectadas quantidades consideráveis de material videográfico e fonográfico, bem como de alimentos em adiantado estado de putrefacção e cem litros de ginginha. Alguns dos elementos da ASAE chegaram mesmo a ser presos por elementos da ASAE, no momento em que transportavam os sacos negros onde o material havia sido recolhido para análise. As alegações do responsável de dia pelas instalações, de que aquele material era resultante de uma acção sobre uma feira, não foram tidas em conta pelos oficiais da ASAE que comandaram esta acção, já considerada a mais bem sucedida desde a criação da Autoridade.

Cartão amarelo

A coerência não é palavra para constar do dicionário de alguns árbitros “tugas”. Ficam indiferentes se a viagem é para o Brasil ou para as Bahamas, se a “fruta” é brasileira ou ucraniana, mas são intransigentes quando se coloca em causa os valores da família e o tal pênalti (muito duvidoso).

quarta-feira, novembro 14, 2007

E se eu fosse trabalhar por conta de uma “galinha serial killer”?

Recebi uma proposta de emprego para trabalhar na Tabaqueira. Sem anúncios, sem envio de currículos, sem entrevistas. O inesperado convite de um ex-colega surgiu assim (quase) do meio do nada. E foi feito à frente de dois actuais colegas de trabalho. Por tal, não passou um dia e já metade da restante empresa estava ao corrente da situação. Houve quem não se fizesse rogado em vir logo dar-me os parabéns: que não pensasse duas vezes em decidir aceitar a oportunidade. E “oportunidade” é a palavra certa, pois, diz-se, que não é fácil entrar para os quadros de qualquer empresa do grupo Philip Morris, aliás, também diz-se, que os processos de selecção da Tabaqueira são do mais penoso e exigente que há, só mesmo superados (a nível de grau de dificuldade) pelos da Microsoft. Mas, curiosamente ou não, a maioria das interpelações que recebi vieram no sentido inverso. “Xiii, para a tabaqueira? Uma empresa que produz autênticos atestados de óbito em série?”, “Eticamente nunca aceitaria um lugar desses, nem por 1000 contos por mês”, “... se alguém da tua família fosse atropelado por um comboio irias trabalhar para a CP?”(?), “Uns verdadeiros assassinos em potência!”. “E uma verdadeira galinha de ovos de ouro para o nosso estado”, repostou alguém. “Que seja uma galinha serial killer, mas que de facto é uma bela fonte de riqueza nacional, lá isso é” pensei e completei eu. Ouvi de tudo, uns mais exagerados, outros mais apocalípticos. Bom há que em primeiro lugar perceber bem que quem lá trabalha não tem propriamente a função de enfiar os cigarros boca-a-dentro dos consumidores. E sim, a nicotina cria dependência. O álcool também, mas garantidamente não criaria tanta celeuma entre os meus colegas se esta proposta de trabalho viesse da Unicer.
Fiquei em ponderar melhor sobre o assunto. Comecei por pensar sobretudo na empresa para a qual trabalho actualmente. Uma multinacional pouco conhecida em Portugal e um pouco mais em outros países da Europa, na Ásia e Austrália. Mas, uma das grandes nos “States” (ficou no top 20 das maiores empresas americanas da "business-qualquer-coisa"). Por cá tem tido um progresso modesto mas consistente. Impostos, débitos e salários em dia, lucros razoáveis. Nada a declarar, por aqui, portanto. Entretanto, alargo o meu ponto de vista e chego a áreas de negócio em que somos dominadores no mercado norte-americano mas temos quota de mercado nula ou inexpressiva em Portugal. Ocorreu-me logo a (inevitável) actividade “aeroespacial”. Se ficássemos só pela contribuição com sistemas e peças para colocar aviõezinhos e naves americanas a voar e a ir à lua, respectivamente, dava-me por satisfeito e o assunto morria aqui. Mas não. Provavelmente 90% dos empregados portugueses desta empresa não sabem, nem querem saber (os restantes que sabem também não querem saber), que os aviões, helicópteros, radares, sistemas antimísseis que a força aérea americana usou e usa nas suas guerras tem material “nosso”. Sendo assim, que legitimidade terei eu (ou qualquer outro empregado desta empresa) para apontar o dedo e acusar um trabalhador de uma tabaqueira por falta de ética?

segunda-feira, novembro 12, 2007

Tudo é recuperável?

Somos todos pela liberdade e pluralidade de ideias. Há no entanto uma característica chamada bom senso que permite-nos racionalizar essas ideias para o que faz (o mínimo) sentido e o que não faz. Há jornais e revistas que não nasceram para fazer este tipo de avaliação, mas há outras que (felizmente) sim, mas de vez em quando descuidam-se. Quando um jornal decide publicar uma ideia racista de um cientista ou uma revista, como a Visão, decide publicar a opinião de uma terapeuta (e psicóloga) dizendo que a homossexualidade é uma doença (mas “tem recuperação”), não o fazem inocentemente, não “é só mais uma opinião”. Sabem que são declarações, no mínimo, polémicas e que isso permitir-lhes-á uma maior mediatização. E uma mediatização conseguida à custa de uma palermice, hoje em dia, é “sucesso” garantido num país desejoso por ouvir e discutir palermices. Sobretudo quando elas são ditas por gente, supostamente, culta e inteligente.
Acredito até que a Visão, outras revistas e jornais deste país possam necessitar de um pouco de polémica para “sobreviver” - num mercado cada vez mais competitivo, principalmente desde a entrada dos jornais gratuitos - como uma senhora doutora terapeuta precisará de uma certa publicidade para amealhar mais uns trocos de uns tontos, que recorram às suas consultas de recuperação de uma sexualidade “normal”.
O novo desafio dos directores que ainda ponderam com bom senso nas decisões acerca do conteúdo das suas publicações, é saber se será compensador publicar uma alarvidade, mesmo que tal lhes aumente as tiragens e se fale no assunto durante uma semana (no máximo), em detrimento da perda de algo que muito dificilmente será recuperável: a sua credibilidade e fidelidade dos leitores (ofendidos ou que simplesmente não façam da “palhaçada” um modo de leitura informativa). A não ser que também haja por aí algum(a) terapeuta ou psicólogo/a especialista neste tipo de recuperações e eu desconheça.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Thin Red Line

(Voz do narrador: actor principal, Wagner Moura)
O Rio de Janeiro tem mais de 700 favelas. Quase todas dominadas por traficantes armados até aos dentes... No resto do mundo essas armas são usadas para fazer guerra. No Rio são as armas do crime... É burrice pensar que os policiais numa cidade assim vão subir a favela só para fazer valer a lei. Policial também tem família, policial também tem medo de morrer. É por isso que nessa cidade todo o policial tem que escolher: ou se corrompe ou se omite ou vai para a guerra!
A maioria das pessoas não gosta de guerra e o Major Oliveira não é excepção. Toda sexta feira ele sobe o morro para ir buscar o “arrego” – a gana que os policiais corruptos cobram para aliviar o tráfico de drogas. Os traficantes também vivem em guerra, mas também querem sobreviver. Para quê trocar tiro com a polícia se dá para negociar?... A verdade é que a paz no Rio dependente de um equilíbrio delicado entre a munição dos bandidos e a corrupção dos policiais. Honestidade não faz parte do jogo. Se o Rio dependesse exclusivamente da polícia convencional os traficantes já tinham tomado a cidade faz tempo. É por isso que existe o BOPE: tropa de elite da polícia militar. Na teoria, o BOPE faz parte da polícia militar, na prática é uma polícia completamente diferente... O símbolo do BOPE deixa claro o que acontece quando a gente entra na favela. E a nossa farda não é azul, é PRETA!

“Tropa de Elite” (José Padilha, 2007) é um dos filmes mais extraordinariamente realistas e crus que já vi até hoje. As comparações passam a ser óbvias: ao lado deste, o (magnífico) “Cidade de Deus” é o “Prison Break” e o “nosso” recém-estreado “Corrupção” é o pequeno “Ruca”!
Não sei se está agendada a sua estreia por cá. De qualquer forma, para os interessados, ele pode ser “sacado” neste blogue. Valeu!

terça-feira, novembro 06, 2007

Encontros imediatos

Opto por ficar ali sozinho, quase isolado, distante dos amigos e do aglomerado de pessoas que “mexem-se” numa pista de dança bem concorrida. Estou num sítio privilegiado porque também me permite observar a fauna que circula em meu redor.
Não demora muito tempo até me deixar embalar pela melodia que sai das colunas que também se encontram à minha frente. Movo-me timidamente. A sistemática “batida” acaba por contagiar-me e mexo-me com mais energia. Estou a gostar do que oiço e fecho momentaneamente os olhos – como se isso me permitisse um contacto mais directo com a música que ouvia. Uns segundos depois, “desperto”, porque alguém passou, embateu contra mim e estava agora mesmo ali ao meu lado. Pedimos simultaneamente desculpa e tocamo-nos no ombro, como forma automática e suplementar de reforçar esse pedido. Estou ainda meio atordoado da colisão e da consequente súbita interrupção da minha sessão de “hipnose”. Mesmo assim mantenho-me a olhar, em direcção à minha retaguarda, para quem chocou comigo. Foi uma reacção mútua. Sorrimos.
Nos filmes, estas cenas também acontecem em fracções de segundos mas, reveladas em “slow motion”, o acontecimento parece ganhar outro tipo de impacto. De qualquer forma, não deixou de ser um curioso momento. Ficção à parte e voltando à minha realidade, gostava de acreditar que as pessoas não se chocam umas contra as outras por mero acaso. Poderia ser, nem que seja, só como uma prova (inconsciente ou não) de que estamos vivos. Ou então – a minha parte favorita desta teoria – porque somos todos campos magnéticos sem poder de controlo sobre os pólos de atracção.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Untrue


Não se perde nada em alargarmos o nosso cardápio de escolhas musicais no que toca à música de dança (que não se dança). Antes pelo contrário: pode-se ganhar um dos melhores discos que será editado este ano.
Se não o encontrarem por aí, peçam um link por aqui.

True


sexta-feira, novembro 02, 2007

2º momento cinematográfico do dia: a capa tem sempre razão

Um colega de trabalho prometeu-me fazer uma cópia, da cópia,..., da cópia do DVD do filme “A Dália Negra” (de Brian de Palma) que ele entretanto tinha arranjado do amigo, do amigo,..., do amigo.
Hoje, quando cheguei, já tinha em cima da minha secretária o “abençoado” DVD. Com “capinha” e tudo. Belíssima, apesar de ser a versão em Inglês. Abro-o e deparo-me com o que estava escrito à mão no DVD-R: The Black Dahlia from the Director of Scarface.
Agradeço-lhe de imediato, mas chamo a atenção para o facto do título do filme se restringir somente às três primeiras palavras que escreveu. Ele rejeita veemente a minha observação: “Nada disso, rapaz. É assim que está na capa.”

1º momento cinematográfico do dia: procura-se realizador só para assinar a papelada*

Um filme, sobre o modo como uma inocente conselheira matrimonial se deixa seduzir pelo lado mais obscuro do futebol (colocar reticências em tudo o que foi dito até aqui, por favor), com mamas (de silicone) ao léu e sexo (simulado mas muito) desenfreado precisa de um realizador exactamente para quê? Já agora queriam produtores profissionais e um argumento original, não?

Não deixa de ser curioso que o único filme nacional onde se revela a corrupção do mundo à volta do futebol não seja assinado. Pode ser curioso mas já não surpreende ninguém: neste país muito se denuncia mas pouco se assume ou se dá a cara por essas denúncias.
*pôr uma corda ao pescoço

terça-feira, outubro 30, 2007

Diz que é uma espécie de “apartheid”, mas em “bom”


Há um recém-inaugurado Centro Comercial em S. João da Madeira que possui um parque de estacionamento muito peculiar. Para além dos habituais lugares reservados a pessoas com mobilidade condicionada, vulgo deficientes (motores, apesar de alguns “mentais” por vezes ocuparem-lhes esses espaços), a grávidas, para pessoas com crianças de colo, idosos, este C.C. nortenho reservou lugares para senhoras e para viaturas que tragam mais de duas pessoas! Tudo isso pode ser comprovado por esse placard que mostro no topo deste post ou in loco, nos próprios parques subterrâneos do C. C. 8ª Avenida em S. João da Madeira, com todas as corezinhas específicas a demarcar o piso dos respectivos lugares com reserva. Diz, quem já viu, que o piso dos parques parecem um autêntico arco íris.
O responsável deste espaço, José Duarte Glória, justifica a existência destes lugares especiais com questões de gentileza (um lugar de parqueamento feminino corresponde a um lugar e meio dos ditos normais) e de segurança (os lugares reservados são os que se encontram mais perto dos acessos à área comercial, evitando assim “longas” e “arriscadas” deslocações no parque). Ponderando um pouco sobre o caso, fico com sérias dúvidas perante a razoabilidade deste tipo de discriminação. Positiva, mas não deixa de ser discriminação. Esclareça-se que, nem eu, nem ninguém, por mais ou menos competente que seja a fazer manobras de estacionamento, recusaria a opção de poder estacionar o carro num espaço de 3 por 5 metros (mesmo que esteja pintado de cor-de-rosa-choque!), o problema aqui reside no facto de tal estar condicionado à utilização por pessoas com as mesmas capacidades que eu e todos os outros restantes condutores - que não possuem vagina – em que única particularidade diferencial é efectivamente possuírem uma vagina! A não ser que o senhor José Glória seja detentor de uma teoria que explique o contrário.
Assim sendo, fica demonstrado como um gesto aparentemente “gentil e simpático” pode também ser um atestado de “nabice” passado a todas as mulheres em geral, ou às clientes desta superfície comercial em especial, e uma carga de trabalhos para uns tantos outros clientes que vão ter para conseguir convencer alguém entrar no seu carro só para poder estacionar num lugar cativo e verdinho destinado a viaturas com um número mínimo exigível de passageiros.
Quem teve estas “brilhantes” ideias, para compensar o público masculino, mandou colocar uns manequins em poses “sensuais” do outro lado do vidro dos urinóis no WC público. E, certamente, não deixou de ponderar nas várias formas de controlar as regras de parqueamento, por tal, não deve faltar por lá uma brigada de inspectores incumbidos da tarefa de supervisionar o sexo e o número de passageiros que cada veículo trás.
Questionei uma amiga sobre o que achava do assunto e ela aprontou-se em resumir, numa frase, tudo o que eu estive para aqui a tentar explicar em tantas: “Isto parece o apartheid mas numa versão parola, tipicamente portuguesa”.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O Tiago Dores nasceu para apresentar "Tesourinhos"


Para além deste e de outros bons momentos, os “gatos” fizeram a proeza de pôr o Vítor Espadinha a cantar pela segunda vez, na sua já longa carreira, uma música com uma letra gay. Desta vez, ele sabia ao que ia e até o seu nome misturado com o do César das Neves estavam lá humoristicamente, e muito bem diga-se, escarrapachados na letra. Da outra, tonto como aparenta ser, é bem provável que nem se tenha dado conta.

sexta-feira, outubro 26, 2007

A minha versão do "fazes-me falta"

Tenho amigos que passam a vida a mudar de país para país e mesmo assim nunca me parecem satisfeitos com a vida que têm. Estas legítimas migrações visam sobretudo alcançar melhores condições de vida, mas nem sempre as expectativas criadas em relação à sua nova morada corresponde ao que efectivamente esperavam. São desilusões atrás de desilusões, sem parar um pouco para pensar nas várias hipóteses e potencialidades que aquele local lhes poderá oferecer.

São opções e eu respeito-as. Mas sabem o que é mais me chateia no meio disto tudo? É que mesmo compreendendo as razões pela qual saíram de Portugal e desejando-lhes a maior das felicidades, não consigo deixar de pensar na falta que eles me fazem e que tal não me pareça recíproco. Ou sou eu que sou um pouco egoísta por achar que a nosso tipo relacionamento só é possível de se manter com uma presença física ou são eles que tem um conceito demasiado descartável de amizade.

Não, eu não sei se lhes faço falta! Acredito que sim, mas efectivamente não o sei. O que sei é o que me foi dito e ouvi. Ouvi-lhes as preocupações e lamentações no que diz respeito às condições que iriam encontrar por lá, ou se as "coisas" no supermercado seriam mais caras, ou se lhes podia tratar do IRS na sua ausência, ou se os filmes por lá eram dobrados ou tinham traduções e por aí a fora... Portanto pareceu-me que o valor da nossa amizade nunca chegou a ser um factor importante a ter em consideração quando um dia decidiram dar de “frosques”.

É verdade que as relações sólidas e autênticas podem continuar no tempo, mesmo quando a frequência com que vemos as pessoas não é assim tão grande. Não duvido dessa premissa, mas parece-me igualmente verdade que tendemos a apegar-nos mais às pessoas com quem passamos mais tempo, com quem partilhamos trivialidades, pequenos acontecimentos sem grande relevância, diluídos ao longo de um dia, mas que vão constituindo uma intimidade real.
A inevitabilidade de uma distância física se tornar em distância emocional também me parece um facto bem realista. Realisticamente duro de admitir.

quarta-feira, outubro 24, 2007

Os animais, de novo


Um artista da Costa Rica, Guillermo Habacuc Vargas, expôs um cão vadio faminto numa galeria de arte. O cão estava preso por uma corda curta como podem comprovar por algumas fotos publicadas aqui. Ninguém o alimentou ou deu água e ele acabou por morrer durante a exposição.

Depois disto, houve quem achasse uma grande ideia nomear este “artista” para representar o seu país na "Bienal Centro-americana Honduras 2008". Mas também houve quem não gostasse dessa ideia, não tenha ficado de braços cruzados (como grande parte da assistência daquela galeria) e tivesse a “audácia” de denunciar e criticar esta irreverente “expressão artística”, criando uma petição nesse sentido. Os primeiros chamaram hipócritas e burros aos segundos, porque não entenderam que o pobre do animal era vadio e representava a indiferença da sociedade geral face ao sofrimento e à humilhação dos outros. Os “revoltados”, provavelmente ainda contagiados por qualquer epidemia de bom senso, mantêm-se firmes nas suas posições e continuam a achar que nenhum ser humano tem o direito a submeter um animal a tais atrocidades. Incluindo os artistas, pois então.

Estou indeciso. Já assinei a petição mas se o senhor Guilhermo Abreocua-Vergas, ou lá como se chama, se comprometer a ir à tal Bienal e submeter-se ao mesmo tratamento que deu ao cachorro, não só cancelo a minha assinatura, como faço questão em visitar as Honduras no próximo ano. Irei á sua exposição, olhar para o “artista” em seu pleno momento de apoteose ou, diria antes, de desespero e exclamar bem alto, com o meu melhor ar de pseudo-arrogantó-intelectualóide: “Obra-Prima”!

terça-feira, outubro 23, 2007

O último tabu


Da tragédia do Darfour, ao diário emocionante de um seropositivo. Das vidas das meninas de rua de Cairo, às condições dos prisioneiros palestinianos nas prisões israelitas. Todos estes e mais alguns são temas interessantes que me poderiam levar a Lisboa a ver um documentário. No entanto, o único filme que ainda vi (e se a minha disponibilidade nos próximos dias não melhorar, diria antes, que irei ver) da edição deste ano do DocLisboa, chama-se “Zoo”. Por ser dos poucos documentários de exibição única, fiquei a pensar que tal deve-se ao facto de abordar um assunto pouco popular. Garantidamente será, pelo menos, muito incómodo.

Em Julho de 2005 é, anonimamente, deixado às portas do Hospital de Enumclaw, uma pequena cidade do estado de Washington nos Estados Unidos, um homem, com pouco mais de 40 anos, inanimado. Pouco tempo depois veio-se descobrir o seu nome (Kenneth Pinyan) e de que, para além de ser um chefe de família de Seattle (!), era um respeitado engenheiro da Boeing. Depois de uma intervenção cirúrgica, soube-se também que não conseguiu escapar com vida das intensas hemorragias internas provocadas pelo rompimento do cólon. A polícia foi chamada a intervir no caso e esta conseguiu descobrir com alguma facilidade não só a causa da morte, como também onde tudo aconteceu: uma quinta localizada nos arredores daquela cidade. Neste local foram apreendidas várias cassetes de vídeo que continham imagens de, entre outras pessoas, Pinyan a praticar sexo com cavalos. Foi não só o grande choque generalizado de uma pacata cidade mas de todo um país puritano e conservador, onde este tipo de episódios perversos já começa a fazer parte do quotidiano.
“Zoo” aborda esta história em várias perspectivas. Na perspectiva da investigação, dos “colegas” de Kenneth Pinyan que não se mostram mas que contribuem para a narração de algumas partes deste documentário e da própria instituição que recolheu os cavalos após a desmantelamento do grupo que Pinyan fazia parte. O “caso”, para além de todo o mediatismo que provocou, do choque e consequentes piadas que se fizeram – um dos instintos naturais do ser humano é encarar humoristicamente todos os assuntos que não compreende ou que lhe são desconfortáveis - nunca foi abordado de uma forma séria como o é neste filme/documentário. Aliás, não consigo dar outro exemplo de um filme onde a zoofilia seja focada tão seriamente. Séria e humanamente. Porque é isso que nos choca: um dos perpetuadores deste bizarro acto ser humano.
Em “Zoo” não há imagens chocantes (antes pelo o contrário, veja-se aquelas magníficas paisagens naturais de Enumclaw), há ideias chocantes! A Zoofilia é desmascarada como um dos últimos tabus do lado mais perverso da sexualidade humana. Ao fazer este documentário, o seu realizador não pede para a aceitar, mas de certa forma tenta pedir a nossa compeensão. Não é por acaso que “Zoo” tem o curioso subtítulo: “In the Forest There is a Every Kind of Bird” (“Na floresta há todo o tipo de aves”).

Não é mentira que a moralidade é um conceito muito subjectivo e que actos destes devem ser bem analisados, mas na minha opinião não se pode deixar de os condenar. Não nos devemos esquecer sobretudo que também há por aí “outro” animal no “jogo”. Mas a mais importante lição desta história deve ser retirada pela sua perversidade: há seres humanos (aparentemente) comuns que só conseguem retirar prazer das formas mais incomuns e bizarras possíveis (e até diria, impossíveis). E neste momento a internet é o meio essencial para que estas pessoas consigam se juntar - a identificação social é fundamental para qualquer fenómeno transgressor crescer - trocar ideias e formas de concretizar os seus actos. Aliás, como acontece, há muito mais tempo, com a pedofilia.