quinta-feira, outubro 07, 2010

Ao herói anónimo


Era véspera de feriado e esta podia ser a melhor justificação para que naquela manhã de segunda-feira, o tráfego rodoviário na Ponte 25 de Abril para Lisboa, estivesse menos compacto que o habitual. Alguns desses automobilistas, após pagamento da portagem, entram apressadamente no tabuleiro da ponte, sem no entanto deixar de estranhar a presença de um homem que se desloca pela berma, a pé, no mesmo sentido do trânsito. Esta estranheza dura poucos segundos, pelo menos até que os compromissos pessoais voltem a assolar os seus pensamentos, para além do desejo de aproveitar o bom escoamento do trânsito daquele atípico dia útil.

João, caminha cabisbaixo, abstraído dos carros que circulam velozmente à sua esquerda. Sentia o corpo dormente e a alma entorpecida pelos mais recentes acontecimentos. Os mesmos acontecimentos que não o deixavam dormir há quase 48 horas. Estava a passar por um processo devastador de divórcio, que o deixaram arrasado e desmotivado. Enquanto foi casado o seu grupo de amigos nunca parou de crescer, no entanto, após o anúncio da separação, aquelas amizades, possivelmente, para evitar os conflitos propícios de tomar uma das partes, foram-se gradualmente afastando. Mais isolado que nunca, sem a possibilidade de poder estar com os filhos como desejaria, a vida nunca lhe tinha deixado de fazer tanto sentido como aquela fase que atravessava e só encontrava lógica num objectivo... Foi por isso que tinha saído de sua casa naquela manhã de segunda-feira e é a razão pela qual continua a caminhar, convicto - e agora olhando em frente e para cima - ao longo daquela enorme ponte de aço. Passados alguns minutos, pára, sem nunca deixar de olhar para o horizonte. Algumas nuvens cobriam o céu azul que, de certa forma, o tranquiliza. Também contempla o Rio Tejo - o mesmo que está acerca de 190 metros abaixo do local onde se encontra. Tinha chegado o momento. Ao consciencializar-se que já não haveria ponto de retorno, emociona-se e chora pela última vez, ao mesmo tempo que se vai segurando firmemente a um dos fios de aço paralelos (que fazem a ligação a um dos cabos principais de suspensão da ponte), para facilitar a levitação da perna esquerda...

O autocarro nº 162 da Transportes Sul do Tejo recebeu os seus últimos passageiros nas imediações do local das portagens. Estava a ser um percurso normal, com a anormalidade do cumprimento de horários de chegada aos apeadeiros. Assim que deu entrada na ponte, o seu motorista é surpreendido por um repentino abrandamento da marcha dos carros que seguiam à sua frente. Alguns metros mais à frente pôde constatar o motivo: estava um homem de meia-idade a preparar-se para saltar da plataforma da ponte. Não hesita. Pára o autocarro, abre a porta e sai em direcção do suicida, deixando os seus passageiros boquiabertos e uma fila de condutores impacientes atrás de si.
Encontra um homem no seu mais elevado nível de desespero. Chora descontroladamente e está a poucos segundos de se precipitar para o salto. O motorista nem pensa nas consequências que a sua aproximação possa ter naquele homem. Não há tempo para indecisões, bruscamente agarra-o, puxa-o para si e dá-lhe um forte abraço. Foi forte, mas também foi sobretudo longo e sentido. Prolonga-se até sentir que estavam ambos, à sua maneira e nas devidas proporções, mais calmos.
Até chegar uma ambulância (que alguém terá chamado via 112), aqueles dois homens ainda tiveram tempo para trocar algumas palavras. O motorista tentando sempre convencer o homem de que a esperança nunca morre e, se não houvesse qualquer outra causa, seria por ela, que deveria continuar a viver.



Esta pequena história podia ser ficção, mas não é. Aconteceu segunda-feira passada. E dedico este post à bravura do herói desconhecido, em geral, e àquele condutor do autocarro nº162 da TST, em especial. Ser herói hoje, pode passar por essa simplicidade de deixar o conforto do assento do nosso carro, parando o trânsito, para ir dar um abraço a alguém. Imagine-se que isso até pode dar-lhe outro sentido à vida. Não valerá a pena?

terça-feira, outubro 05, 2010

Estudos

(clicar para ampliar)
As principais conclusões do grande estudo, realizado pela Universidade do Indiana, sobre os comportamentos sexuais dos americanos, o National Survey of Sexual Health and Behavior (NSSHB), parecem-me pouco surpreendentes e, algumas delas até, acabam por descredibilizar os seus resultados e dar razão às minhas piores suspeitas acerca da verosimilitude de alguns destes inquéritos – como já tinha acontecido aliás com este realizado recentemente no Reino Unido.
Senão, leia-se:
- 1 of 4 acts of vaginal intercourse are condom protected (1 in 3 among singles).
- About 85% of men report that their partner had an orgasm at the most recent sexual event; this compares to the 64% of women who report having had an orgasm at their most recent sexual event. (A difference that is too large to be accounted for by some of the men having had male partners at their most recent event.)
- Men are more likely to orgasm when sex includes vaginal intercourse; women are more likely to orgasm when they engage in a variety of sex acts and when oral sex or vaginal intercourse is included.
- While about 7% of adult women and 8% of men identify as gay, lesbian or bisexual, the proportion of individuals in the U.S. who have had same-gender sexual interactions at some point in their lives is higher.
(…)



Numa sociedade de aparências até faz todo o sentido dizer que só 8% dos americanos têm ou tiveram experiências homossexuais, pois, obviamente, esta percentagem não inclui quem faz de uma orientação sexual, um hobbie secreto e alternativo. Esta ausência de realismo deve-se sobretudo a alguns dos métodos de recolha utilizados na obtenção das respostas. Por exemplo, um questionário cara-a-cara, ou até mesmo via telefone, não dá a privacidade que este tipo de assuntos exige. Para além de que, nem estes estudos, nem qualquer outros até hoje realizados, jamais podem garantir a total sinceridade da resposta do entrevistado. Assim sendo, continuaremos a debruçar-nos sobre resultados ligeiramente tendenciosos e, pior: socialmente correctos.

Falando agora de outras investigações mais interessantes, o Ricardo Fuertes, do GAT Portugal, enviou-me há dias algumas novidades sobre o estudo que falei, por aqui, no passado mês de Junho.

De acordo com os coordenadores do EMIS “este é o maior estudo internacional
jamais realizado sobre homossexualidade masculina”.
Portugal esteve bem representado com mais de 5 400 respostas. Se tivermos
em conta o número de habitantes de cada país, Portugal foi o 4º país com maior
participação (atrás da Alemanha, Suíça e Luxemburgo), com 5,1 respostas por cada
10 000 habitantes.
Os 18 distritos de Portugal e as duas regiões autónomas estiveram representadas,
assim como os HSH estrangeiros residentes em Portugal (foram recebidas
respostas de residentes em Portugal nascidos em 50 países). Também existiu uma
elevada participação de HSH que vivem com VIH (7%).
Os resultados do EMIS fornecerão dados relevantes para a planificação e
implementação de intervenções de prevenção e de serviços de saúde sexual para
HSH.
O GAT e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto estão muito satisfeitos
por fazer parte deste estudo pan-europeu, e agradecem às entidades envolvidas
na sua divulgação e às pessoas que aceitaram responder ao questionário.
Para mais informações sobre o Projecto EMIS consulte o site www.emis-
project.eu e ou entre em contacto com os parceiros portugueses através do e-mail
ricardofuertes@gatportugal.org.
Alguns resultados e relatórios preliminares serão publicados a partir de Dezembro
deste ano.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Um big churrasco na "Casa dos Degredos"


O novo "Big Brother" é afinal um "Bunny Ranch" à portuguesa. Senão veja-se: o que faz uma playmate, uma acompanhante de luxo, alguém que já teve mais de 250 relacionamentos, alguém que teve um caso com um jogador de futebol da selecção portuguesa, um ex-dono de um bar de alterne, um ex-assaltante de bancos, um pastor de "Baiãoe" (que só veio uma vez ao sul, nomeadamente ao Montijo, para comprar porcos), dois irmãos gémeos directamente saídos da escola de seguranças de casas de animação nocturna do norte, dois casais, um falso, outro verdadeiro mas armado em falso, alguém com um transtorno obsessivo-compulsivo, (…) no mesmo espaço? Serão estas pessoas, certamente, tantas outras coisas, mas foi por "isto" que foram contratados e são estes os seus segredos prontos a serem revelados.
Antes, na outra "Casa", a química ia acontecendo ao sabor do acaso e da saturação de estar limitado ao espaço de alguns metros quadrados, nesta "Casa dos Segredos" dispensa-se os preliminares (a organização do programa tratou disso), para que o resultado não seja outro que um "grande churrasco". É só isso que nós, uns mais "abutres" que outros, queremos comer, enquanto, para já, salivamos cá do alto com os belos nacos que vão sendo colocados em cima da grelha.
Venham para a mesa que a paparoca vai ser servida no canal do costume... E ninguém pode dizer que não sabe qual é a ementa.

sábado, outubro 02, 2010

quinta-feira, setembro 30, 2010

A latosa

Das medidas de austeridade apresentadas, destaco favoravelmente a redução progressiva dos salários dos funcionários públicos acima dos 1500 euros, mas por outro lado, continuo a achar, nestas condições, um erro o aumento de impostos indirectos (IVA e logo 2 pontos percentuais?!).
Poderia até congratular o Sr. Teixeira do Santos por finalmente ter incluído um tal "imposto sobre o sector financeiro" no pacote, não tivesse ele sido anunciado de tal forma, sem qualquer detalhe e objectividade. Assim, faz transparecer que esta é mais uma daquelas medidas só para acalmar consciências (sobretudo as de esquerda, que já a pedem há tanto tempo). Seria esta a primeira medida a não passar do papel dos compromissos?

A dívida da Estradas de Portugal (EP) disparou mais de 30 vezes num curto espaço de cinco anos. Segundo o seu relatório e contas referente a 2009, o endividamento da empresa responsável pelo sector rodoviário em Portugal passou de 50,5 milhões de euros em 2005, primeiro ano em que contraiu empréstimos, para 1.507,3 milhões de euros no final do ano passado.
Já em 2010, na Comissão Parlamentar de Obras Públicas, Almerindo Marques, presidente da EP, admitiu desde logo que a sua empresa iria ultrapassar o limite de crescimento imposto pelo PEC relativamente ao endividamento das empresas públicas: 7%. Pelo que soube hoje no noticiário matinal da RTP, segundo as mais recentes estimativas, essa percentagem já ultrapassou os 40%! A ANA, a Refer e a Transtejo estão num caminho idêntico (mas não com um desfasamento tão dilatado desses 7% exigidos).

Ora, se as suas próprias empresas e entidades, algumas aparentemente com estatutos e regras muito próprias e independentes - sempre que falo disto, vem-me à memória o caso do Sr. Viegas Vasconcelos, ex-presidente da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) que demitiu-se e foi para casa ganhar 12.000 euros mensais durante 2 anos, porque assim estava consagrado nos estatutos dessa entidade pública, ao contrário do que diz o estatuto do gestor público - não cumprem os compromissos estabelecidos nos pactos propostos para reduzir o défice, com que direito (ou latosa) pode vir agora o Sr. Ministro das Finanças pedir mais sacrifícios do lado da receita?

Resumindo: as receitas públicas, bem ou mal, justa ou injustamente, com os aumentos dos impostos, continuam asseguradas, a grande questão é que, pelos vistos, não podemos dizer o mesmo do lado de todas as despesas.

quarta-feira, setembro 29, 2010

Não eramos nós que tinhamos um "big issue" com o bullying?

"Now, I am also the commander in chief of an armed forces that is in the midst of one war and wrapping up another one. So I don't think it's too much to ask, to say 'Let's do this in an orderly way' — to ensure, by the way, that gays and lesbians who are serving honorably in our armed forces aren't subject to harassment and bullying and a whole bunch of other stuff once we implement the policy. I use that as an example because on each of these areas, even those where we did not get some grand legislative victory, we have made progress. We have moved in the right direction." (Barack Obama, falando sobre a regra DADT, na Rolling Stone)

Porreiro, pá. Agora é preciso voltar a sua atenção para as escolas. Isto se quer que os seus putos mantenham-se vivos até chegar à idade de ir para a "tropa". Infelizmente, já não vai ser o caso deste, deste e deste...
Acreditem: o nosso bullying é uma espécie de palmadinha nas costas, quando comparado com o de uma certa realidade norte-americana. A incompetência das direcções destas escolas face a estes recentes casos, revela que, nos estados mais conservadores, o lobby das associações pró-família-tradicional-cristã está bastante bem integrado na sociedade.

terça-feira, setembro 28, 2010

E assim se cozem as linhas do desejo

when you were young
and your excitement showed
but as time goes by
does it outgrow

is that the way things go
forever reaching for the goal
forever fading black
comes a glow

segunda-feira, setembro 27, 2010

Como diz um colega: "na América é tudo em grande e assustador, a começar nas mamas das gaijas..."

... e acabar nos fenómenos meteorológicos, completo eu.

Mais fotos deste fenómeno: aqui.

Boucherices


"Olha, vais continuar nessa onda hippie-freaky-chique de esquerda ou emitas a madonna?... Queres salvar focas ou cantar música pop?" - Idolos 2010

domingo, setembro 26, 2010

quinta-feira, setembro 23, 2010

Natasha Bedingfield, 2010


Natasha Bedingfield - Strip Me from lovekeepscalling on Vimeo.



Everyday I fight for
All my future somethings
A thousand little awards
I have to choose between
I could spend a lifetime
Earning things I don’t need
That’s like chasing rainbows
And coming home empty
And if you strip me,
Strip it all away
If you strip me,
What would you find
If you strip me,
Strip it all away
Ill be alright
Take what you want
Steal my pride
Build me up
Or cut me down to size
Shut me out
But I’ll just scream
Im only one voice in a million
But you aint taking that from me


Natasha Bedingfield - Touch (HQ) from Henrietta-Aime-Fumer_Tv on Vimeo.



Every choice we make
And every road we take
Every interaction
Starts a chain reaction
We're both affected when we least expect it
And then when we touched
And it all connected

O Jeunet fez outro filme para sonhar



Lisboa 15 de Outubro 22:00 Cinema São Jorge (sala 1).Guimarães 21 de Outubro 21:30 Centro Cultural Vila Flor.Porto 22 de Outubro 19:30 Passos Manuel.Faro 24 de Outubro 21:30 Teatro Municipal de Faro.Coimbra 09 de Novembro 21:00 Teatro Académico de Gil Vicente.

quarta-feira, setembro 22, 2010

Um país a duas velocidades



Estes 1667 euros fazem-me lembrar a história dos dois pobres que tinham para partilhar dois frangos, em que um deles comeu tudo, restando nada para o outro. Depois veio um senhor das estatísticas, faz a média e declara que cada um comeu um frango. Por outro lado, a história desses 583 euros mais a norte, terá sido mesmo uma "criação" das multinacionais ou não dever-se-á mais a uma certa subjugação a uma relação quase feudal, liderada por essa entidade tão venerada e comummente conhecida por "grande empresário do norte"? Depois, parte-se sempre do (mau) princípio de que o valor do salário é o único indicador que estabelece uma relação directa e proporcional com a qualidade de vida.

Ia falar outra vez no trânsito, mas isso não é um problema para um Gestor de Projecto de Oeiras que, ganhando acima da média, trabalhará certamente também muito acima da média, só circula na A5 a partir das 8 horas da noite e aí, se não houver acidentes, os 10Km, que tem de percorrer até chegar a casa, conseguem ser realizados em menos de meia-hora. Ao chegar ao seu T2, com acabamentos de luxo e piscina no condomínio que nunca foi por si estreada, que lhe custou mais de 300 mil euros e que continuará hipotecado durante vários anos numa instituição bancária, tem o resto do serão para comer qualquer coisa preparado pela empregada, enquanto lê os emails e prepara as reuniões do dia seguinte. Dorme e o pesadelo recomeça na manhã seguinte (quando o horário de entrada é mais universal e menos flexível), na A5… Como é mesmo a vida em Freixo de Espada à Cinta?
No Freixo não há mercado para Consultores SAP, mas ninguém escolhe o Freixo para engolir SAPos. É mais uma trutazinha fresca no forno.

(Hora de ponta em Freixo de Espada à Cinta)

terça-feira, setembro 21, 2010

segunda-feira, setembro 20, 2010

sexta-feira, setembro 17, 2010

Ainda um pouco mais sobre a verdade

As mais recentes informações que tenho obtido sobre o caso do meu post anterior não podiam ser mais tristes.
O irmão de Júlio Manuel Olivares, Carlos Olivares, tem feito algumas actualizações via Facebook:

Júlio Olivares ACTUALIZAÇAO: O Julio Olivares foi encontrado, no seu quarto de Hotel na Mission St em S. Francisco - USA, no dia 04 Agosto 2010. A Polícia de S. Francisco estima que o Júlio tenha morrido no dia 01 de Agosto de 2010
10/9 às 9:35 ·
Júlio Olivares - MISSA DO 30º DIA
Sábado, 04 Setembro, na Igreja de S. Jorge de Arroios em Lisboa, pelas 16H00
3/9 às 23:51 ·



Soube igualmente que está a ser desenvolvida uma peça jornalística sobre este caso e, uma vez mais, o seu irmão, apela para o caso de alguém ter qualquer informação adicional sobre este processo ou sobre o próprio Júlio, que a remeta para este mail.
Espero que tenha encontrado finalmente a paz que há tanto ansiava e que este "mundo dos vivos há muito lhe negara". Deixo-vos com as palavras que ele deixou em tempos, de uma forma mais pessoal a um grupo de "amigos virtuais", no qual eu orgulhosamente pertencia. Apesar das nossas tentativas de obter mais esclarecimentos, estas acabaram por ser mesmo as suas últimas frases naquele espaço que partilhávamos há alguns anos e que ele sempre soube gerir de uma forma muito digna e responsável.

O lugar onde estamos na vida em cada momento é um produto das nossas qualidades, dos nossos erros, das nossas felicidades - que é como quem diz sorte - e das nossas infelicidades - azares.
Qualidades tive as que tive, erros cometi poucos, felicidades não foram muitas, e infelicidades mais do que as que julgo ter merecido. O lugar onde esse produto me traz hoje é, de acordo com os meus conceitos de dignidade e honra, um beco sem saída. Assim, com serenidade, decidi que é aqui que desço do comboio da vida, algo cuja possibilidade antecipava há mais de um ano.
Não, não padeço de qualquer doença, nem estou tão pouco vivo um momento de depressão aguda. A minha história fica por aí, contada em livro, e talvez um dia tenham a oportunidade de entender esta decisão.
A todos uma longa e feliz vida.

quinta-feira, setembro 16, 2010

Perder a tua vida por uma mentira, perder umas horas da minha por uma verdade

Carlos Cruz adicionou recentemente no seu site a referência (Ponto7) a um caso de um cidadão português que escreveu um livro - disponível para download aqui - onde é relatada a sua história de luta contra um suposto erro judicial, segundo o ex-apresentador de TV, "monstruoso". Tal como o seu, deduzimos. Daí o copy/paste directo do Facebook. Com um pouco mais de busca no Google (ou de leitura do livro), conseguia-se perceber, do que ali está, aquilo que foi efectivamente dito pelo seu autor ou o que não passa de boato.

Já o li e não noto grandes identificações com o processo Casa Pia, a não ser o facto do sujeito em causa ter sido acusado de abuso sexual de um menor - o seu sobrinho de 3 anos. No entanto o "efeito Casa Pia" até é explicado pelas suas palavras: "durante anos inúmeras crianças à guarda do Estado foram abusadas e violadas - na Casa Pia e sabe-se lá onde mais - o que só foi possível devido à inércia ou incompetência daquelas entidades, elas olham e actuam hoje em casos como este com um sentido, não de justiça, mas justiceiro - tomada de acções por sentimentos de injustiça". Assim, condenações desta natureza servem "tristemente, o interesse estatístico do Ministério Público" e a sua boa imagem, acrescento eu. O MP não pode ser assim tão vulnerável a tanta mediatização, pois não? Pois não, mas os casos do carro alegórico do Carnaval de Torres Vedras no ano passado que, em uma questão de horas, deixou de ser "pornográfico" (e proibido) e passou a ser uma "sátira" (e permitido) ou o da menina "Esmeralda" que transformou o Sargento Luís de "temido sequestrador" em "bom samaritano" - são dois meros exemplos - não abonam muito a seu favor.
De resto, trata-se de uma dramática história contada na 3ª pessoa - ao longo dos seus 29 capítulos é notório que se trata de um relato pessoalíssimo - que culmina com o suicídio do protagonista em S. Francisco, nos EUA.

Há em todo este processo momentos perturbantes e surreais. Desde uma Polícia Judiciária que se baseia num questionário intimidador da praxe, onde a questão da orientação sexual parece ganhar uma relevância tal ao ponto de se prescindir das buscas ao domicílio (qual investigação de computadores pessoais?) na procura de qualquer indício, para suportar a acusação. Depois de tantos casos, uns mais "maddietizáveis" que outros, e haverá ainda alguém que fique surpreendido com a incompetência e o preconceito em parte da investigação criminal portuguesa? E o que dizer daquele procurador do Ministério Público que considera muito consistentes e inquestionáveis as memórias dos 3 anos de um rapaz de 12? "Aquela criança não mente"! Nem sob a influência de outrém e de 25 mil euros de pena indemnizatória "chapa cinco"?!

Por vezes a realidade é tão ou mais cruel que a ficção, que se torna inacreditável. Essa pode ser uma reacção típica de quem acaba de ler estas cento e vinte e tal páginas, evitando tomar uma posição só com base nos factos expostos e de cair no erro comum de precipitação de qualquer julgamento popular. Por outro lado, outra das ilações a tirar da leitura de "Sem Culpa", a ser verdade tudo o que por lá está escrito e sendo aquela a posição de um suposto sistema judicial justo, credível e integro, de facto, antes a morte que tal sorte.