domingo, dezembro 21, 2014

O Melhor de 2014 - TV



Uma das melhores séries para televisão feitas na Europa apareceu, inesperadamente, este ano em forma de social-realismo, “social-reality-show”.

Depois do livro e de um filme com o mesmo nome, pouco mais se esperava de “Gomorra” (Sky Atlantic). A história contada a partir do centro de um “furacão”, chamado máfia napolitana, com vista para o gueto, onde são reveladas todas as interacções com os meios envolventes: social (para além das relações de compadrio entre a comunidade e as grandes famílias da máfia onde elas se integram, é fundamental o papel da religião nestas relações e esta série mostra-o como nunca outra o fez), político (sobretudo a nível de poder local) e económico (a “alma” do negócio de toda a rede).

Nada daquilo que vemos nesta primeira temporada parece ficção, porque sabemos que as consequências de tudo o que assistimos em “Gomorra” já nos chegou pelas notícias dos media, directamente do mundo real, em Nápoles, uma das cidades mais perigosas do mundo.

Salvaguardada de todos os clichés das séries americanas, esta série não se desenvolve unicamente em torno de uma ou duas personagens principais, ou, um herói ou um vilão, pelo contrário, explora ao máximo todas as personagens e com todas as suas características. Também não perde tempo com falsos puritanismos e tudo o que tiver que acontecer é mostrado sem censura – veja-se a sequência de imagens de um dos rituais de confiança em que Ciro foi submetido e que envolve urina “fresca” e um copo de champanhe.

“Gomorra” não se limita a conquistar os fãs de todas boas séries de crime organizado ("The Wire" e "Sopranos", são os óbvios exemplos), ela conquistará todos os telespectadores que gostam de ser verdadeiramente surpreendidos.



Torna-se incontornável falar de boas surpresas deste ano sem fazer qualquer referência a “Fargo” (FX). Tal como “Gomorra”, projecto já repetido no grande ecrã, mas com excelentes resultados na sua conversão para o formato (extensivo) televisivo.

Nada se perdeu, tudo se transformou. E “Fargo” transformou-se num caso sério de criatividade, onde uma rocambolesca história que envolve misteriosas mortes e um “inocente” e domesticado agente de seguros, abala uma pacata cidade do estado do Minnesota (EUA).

Ainda melhor que toda a história e as interpretações (que são soberbas, convém dizê-lo), são aqueles magníficos diálogos. Alternando entre o humor e o sarcasmo, eles também realçam por ali a marca dos irmãos Coen neste novo projecto - desta vez como produtores executivos.

As expectivas continuam muito altas para segunda temporada, uma prequela, com novos crimes, um novo casting e já com a confirmação das participações de Kirsten Dunst e Jesse Plemons (Todd, de “Breaking Bad”).



Uma investigação de várias mortes relacionadas com rituais satânicos, ligadas a uma complexa teia de relacionamentos familiares e sociais que se prolongam por várias gerações, pode ser um motivo mais que suficiente para uma série policial se tornar cativante. No entanto, “True Detective” (HBO) oferece-nos muito mais.

Com duas das mais fascinantes personagens da ficção americana dos últimos tempos e uma atmosfera misteriosa e pré-apocalíptica, esta série conseguiu conquistar unanimemente o público e a crítica.



Em TD parece sempre haver algo mais do que nos está a ser revelado. Algo mais que uma investigação e aqueles crimes. Algo mais que um serial killer. Algo mais para além da realidade.

Há que estar atento aos pormenores - a cor de uma casa, uma personagem aparentemente insignificante, ... - e às mensagens que nos vão mandando para o presente.

Acerca dos “ninhos do diabo”, uma pequena estrutura triangular de galhos atados uns aos outros e que vai sendo encontrado em alguns locais estratégicos ao longo da série, um reverendo diz que são histórias para entreter crianças. Nesse momento é feito um “zoom” sobre uma cruz pregada na parede. Essa cruz é feita de duas pequenas tábuas, unidas por um cordel...

Nada acontece mesmo por acaso e os detectives Cohle e Hart (“coal” e “heart”, carvão e coração – nem os seus nomes me parecem ter sido escolhidos ao acaso) são os nossos guias até à trágica constatação de que o “homem é o mais cruel de todos os animais”.

segunda-feira, novembro 03, 2014

Até já Röyksopp



Uma das mais importantes bandas de música electrónica deste século vão lançar o seu último LP para a semana. Os Röyksopp prometeram, no entanto, que este não seria o seu último fôlego musical e que se trata somente de uma despedida a nível de formato: "not going to stop making music, but the album format as such, this is the last thing from us".
O disco chama-se “The Inevitable End” e para além dos excelentes colaboradores habituais (Robyn e Susanne Sundfør), há que contar com a participação da voz do não menos formidável Jamie McDermott (dos The Irrepressibles) em quatro músicas. Um fim inevitável mas certamente inesquecível, porque a magnificência é eterna.
Não podiam acabar de outra forma menos sugestiva do que com uma (última) faixa chamada “Thank You”. “Obrigado eu”, meus senhores.



yes, all that we were,
all that we knew
is fading away,
like tears in the rain…

terça-feira, outubro 28, 2014

Mistéeeerio

É claro que o CM só está mesmo muito preocupado com o dinheiro que o novo euromilionário anda a perder e não está nada interessado em lhe espicaçar a vidinha toda.


É claro que o CM só está mesmo muito preocupado com o dinheiro que o novo euromilionário anda a perder e não está nada interessado em lhe espicaçar a vidinha toda.

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É claro que o CM só está mesmo muito preocupado com o dinheiro que o novo euromilionário anda a perder e não está nada interessado em lhe espicaçar a vidinha toda.

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segunda-feira, outubro 27, 2014

Da beleza da costa alentejana fora de época e das estradas de alcatrão




A pedalar e a caminhar, por entre caminhos pedestres, bravios e dunares assim se fez a minha última incursão à costa vicentina.
Com algum tempo disponível (nem lhe chamaria férias), já longe das grandes concentrações de veraneantes, em época baixa (a carteira agradece, sobretudo desde que a zona foi descoberta pelos especuladores imobiliários e não só), mas com a temperatura em alta, lá fui eu rumo a sul.

Há uma estrada de terra que acompanha paralelamente quase toda a velhinha estrada secundária entre Sines e Porto Covo, onde é logo possível encontrar pequenos e secretos paraísos balneares. Basta, para isso, estar atento e descer pelas várias “escadas naturais” que a força daquele mar foi construindo ao longo dos anos, sobretudo, sempre que foi arremessando grandes pedras contra a ravina. Alguns quilómetros mais adiante, antes de chegar a Porto Covo, esses meios de descida tornam-se mais seguros e recomendáveis a todos os visitantes, ou pelo menos aqueles que estejam dispostos a descer e (sobretudo) a subir umas boas dezenas de degraus. Por aí, as praias já ganham nome e até uma placa de azulejo. Ainda assim, até elas estavam praticamente desertas ao meio de uma manhã, atipicamente quente, de meados de Outubro.

Desci até ao bairro piscatório de Porto Covo para aceder à outra margem. Atravessei, para tal, um pequeno riacho que desagua no mar. Depois de uma íngreme subida, já lá no alto a vista é antagónica, de um lado é difícil não reparar nos contrastes do azul do mar com as marcas de civilização industrial de Sines, do outro, a bela Ilha do Pessegueiro, perdida algures no passado.
A estrada de terra batida que acompanha a costa - e que nos leva até a mais uma praia deserta (não assim tão distante da zona mais frequentada, só separadas por um vasto aglomerado de rochas) – acaba junto de uma estrada alcatroada. É esta que passa pelo parque de campismo da Ilha do Pessegueiro e acaba junto ao velho forte com o mesmo nome. Depois, novamente uma estrada de terra e (esta) em óptimas condições continua o caminho para sul, sempre com o mar no horizonte.

Aquele caminho leva a outros - uns que me levam, por engano, a habitações particulares, outros que levam a miradouros improvisados. Assim é até se começar a avistar um sistema de dunas de grandes dimensões que me levou até à zona dos Aivados. Até lá o percurso fez-se penosamente por entre estradas de areia ou pelos desníveis típicos de um sistema dunar. Pelo caminho descobri mais algumas praias secretas, ornamentadas em toda a sua extensão por um longo caminho de pedras arredondadas e de todos os tamanhos. Uma frequentada por alguns surfistas, outra por pescadores locais e as restantes por quem as quisesse descobrir.

Para regalo dos meus olhos, dos Aivados ao Malhão, a paisagem não muda muito. Tirando o facto de nunca ter encontrado uma zona de dunas que se assemelhasse tanto a um deserto, com toda a sua infinitude e magnificência, como aquela que abraça o Malhão.
Não fui a um deserto africano, mas com o calor “moderado” alentejano e algum espírito de sacrifício e de insignificância perante o que me rodeava, já deu para transformar umas “férias” fora de época numa espécie de viagem espiritual.