quarta-feira, janeiro 14, 2015

Ainda têm alguma esperança de que o realizador M. Night Shyamalan* faça mais alguma coisa boa nesta vida?

Parece que 2015 poderá ser um daqueles anos em que ele pretende provar qualquer coisa... Ou não tivesse já programado duas estreias, em duas frentes: para além de um filme, "The Visit", já adquirido pela Universal e com estreia marcada para Setembro; a surpresa pode estar na sua estreia, em Maio, numa produção para TV - "Wayward Pines", uma série de 10 episódios para a FOX com Matt Dillon, Terrence Howard, Juliette Lewis, ... que só pela amostra do trailer parece ser um "mash-up" de outras séries, como "Twin Peaks", "Identity", "Lost", com o filme "The Truman Show"... Ninguém sabe se será de facto bom ou - como nos tem habituado nos últimos tempos - péssimo, mas toda a gente já sabe que vai ter, pelo menos, um grande "twist" lá para o final.
Já que falo nisso, talvez este realizador esteja mesmo amaldiçoado por tanto "twist" e, assim sendo, não vale a pena perdermos tempo com o que anda a fazer, pois só o seu derradeiro filme será (de novo) brilhante.

(*Sexto Sentido, Sinais, A Vila, etc)








terça-feira, janeiro 06, 2015

Portugal, um país de estruturas falhadas, tão imperfeito quanto inspirador


Não é novidade para ninguém. Portugal é um país especial para muita gente. Curiosamente (ou nem por isso), não tanto para os portugueses que sempre por cá viveram e que acabam por ser um reflexo do "estado de alma" da sua economia, como para os estrangeiros, nomeadamente, os artistas que andam à procura de um certo “empurrão” no seu método criativo. Mais do que o Sol, a Caparica, as sardinhas ou os Jerónimos, talvez seja esse nosso lado mais imperfeito, deprimente ou decadente que serve agora de inspiração a estes artistas contemporâneos.



Ainda no ano passado tivemos o caso de Grouper, aka Liz Harris, que se refugiou em Aljezur para gravar, com o mínimo de condições, o seu mais recente (e belíssimo) disco. Sublinho o que disse ela sobre esse processo de gravação:








A obra, entitulada justamente por “Ruins”, acabou por ser, como ela almejava, um reflexo dos locais por onde passeou e, sobretudo, da solidão de uma casa perdida algures num monte do Alentejo.





O mais recente artigo da Pitchfork começa mais ou menos assim: “Por uma década, Noah Lennox tem vivido dentro do brilho e sombra de Lisboa”. Pois é, “o” Panda Bear, ex-membro dos Animal Collective, já é um artista residente e, certamente, tudo o que foi vendo e adquirindo nos últimos anos está reflectido nas suas obras.

Destaca-se deste artigo uma paixão por uma cidade renascida de um sismo e por um país com muitas cicatrizes do passado:





São as nossas irregularidades que captam a atenção de Mr. Noah. Das Torres das Amoreiras... aos surfistas desajeitados:




Quem diria que são portanto todos essas falhas e limitações que nos tornam tão populares e inspiradores! Portugal (e os seus portugueses) não é assim tão diferente de qualquer outro país, mas às tantas são alguns desses pequenos e amáveis defeitos, tão condenáveis e tão humanos, que torna este país acolhedor e onde um estrangeiro mais facilmente se reconhece. Tendo em conta os resultados finais (este último disco de Panda Bear também é estupendo), talvez deva até sentir algum orgulho deste país que me viu nascer.

domingo, dezembro 21, 2014

O Melhor de 2014 - TV



Uma das melhores séries para televisão feitas na Europa apareceu, inesperadamente, este ano em forma de social-realismo, “social-reality-show”.

Depois do livro e de um filme com o mesmo nome, pouco mais se esperava de “Gomorra” (Sky Atlantic). A história contada a partir do centro de um “furacão”, chamado máfia napolitana, com vista para o gueto, onde são reveladas todas as interacções com os meios envolventes: social (para além das relações de compadrio entre a comunidade e as grandes famílias da máfia onde elas se integram, é fundamental o papel da religião nestas relações e esta série mostra-o como nunca outra o fez), político (sobretudo a nível de poder local) e económico (a “alma” do negócio de toda a rede).

Nada daquilo que vemos nesta primeira temporada parece ficção, porque sabemos que as consequências de tudo o que assistimos em “Gomorra” já nos chegou pelas notícias dos media, directamente do mundo real, em Nápoles, uma das cidades mais perigosas do mundo.

Salvaguardada de todos os clichés das séries americanas, esta série não se desenvolve unicamente em torno de uma ou duas personagens principais, ou, um herói ou um vilão, pelo contrário, explora ao máximo todas as personagens e com todas as suas características. Também não perde tempo com falsos puritanismos e tudo o que tiver que acontecer é mostrado sem censura – veja-se a sequência de imagens de um dos rituais de confiança em que Ciro foi submetido e que envolve urina “fresca” e um copo de champanhe.

“Gomorra” não se limita a conquistar os fãs de todas boas séries de crime organizado ("The Wire" e "Sopranos", são os óbvios exemplos), ela conquistará todos os telespectadores que gostam de ser verdadeiramente surpreendidos.



Torna-se incontornável falar de boas surpresas deste ano sem fazer qualquer referência a “Fargo” (FX). Tal como “Gomorra”, projecto já repetido no grande ecrã, mas com excelentes resultados na sua conversão para o formato (extensivo) televisivo.

Nada se perdeu, tudo se transformou. E “Fargo” transformou-se num caso sério de criatividade, onde uma rocambolesca história que envolve misteriosas mortes e um “inocente” e domesticado agente de seguros, abala uma pacata cidade do estado do Minnesota (EUA).

Ainda melhor que toda a história e as interpretações (que são soberbas, convém dizê-lo), são aqueles magníficos diálogos. Alternando entre o humor e o sarcasmo, eles também realçam por ali a marca dos irmãos Coen neste novo projecto - desta vez como produtores executivos.

As expectivas continuam muito altas para segunda temporada, uma prequela, com novos crimes, um novo casting e já com a confirmação das participações de Kirsten Dunst e Jesse Plemons (Todd, de “Breaking Bad”).



Uma investigação de várias mortes relacionadas com rituais satânicos, ligadas a uma complexa teia de relacionamentos familiares e sociais que se prolongam por várias gerações, pode ser um motivo mais que suficiente para uma série policial se tornar cativante. No entanto, “True Detective” (HBO) oferece-nos muito mais.

Com duas das mais fascinantes personagens da ficção americana dos últimos tempos e uma atmosfera misteriosa e pré-apocalíptica, esta série conseguiu conquistar unanimemente o público e a crítica.



Em TD parece sempre haver algo mais do que nos está a ser revelado. Algo mais que uma investigação e aqueles crimes. Algo mais que um serial killer. Algo mais para além da realidade.

Há que estar atento aos pormenores - a cor de uma casa, uma personagem aparentemente insignificante, ... - e às mensagens que nos vão mandando para o presente.

Acerca dos “ninhos do diabo”, uma pequena estrutura triangular de galhos atados uns aos outros e que vai sendo encontrado em alguns locais estratégicos ao longo da série, um reverendo diz que são histórias para entreter crianças. Nesse momento é feito um “zoom” sobre uma cruz pregada na parede. Essa cruz é feita de duas pequenas tábuas, unidas por um cordel...

Nada acontece mesmo por acaso e os detectives Cohle e Hart (“coal” e “heart”, carvão e coração – nem os seus nomes me parecem ter sido escolhidos ao acaso) são os nossos guias até à trágica constatação de que o “homem é o mais cruel de todos os animais”.