Quanto menos se souber sobre este filme antes de o ver, melhor. O sucesso
da excelente experiência que pode ser a sua visualização passa sobretudo por
abordá-lo na perspectiva mais pura e inocente. Como de uma criança (Jack) que celebra
o seu quinto aniversário com um radiante despertar para mais um dia, como todos os anteriores:
fechado num quarto com a sua mãe, desalumiado,
modesto e limitado, mas ainda com espaço para uma cama, uma banheira, duas
cadeiras, um roupeiro e uma pequena televisão, onde ele passa algumas horas
do dia a ver desenhos animados, como “Dora, a Exploradora” (ironia das
ironias).
“Room”, a segunda aventura do irlandês Lenny Abrahamson (o mesmo criador de
“Frank”) por terras norte-americanas, teve estreia por cá na mais recente edição
do Lisbon & Estoril Film Festival e, se não acontecer um(a)
surpresa/milagre via Globos de Ouro/Óscares, só poderá ser visto pelo restante
público português só lá para a primavera do próximo ano. Triste sina para uma
tão jubilosa, bela e inteligente (qb) obra
Com excepção de “Amores
Perros”, os filmes que vi de Alejandro González Iñárritu acabaram sempre por
ser negativamente marcados pelo sentimentalismo fácil e a previsibilidade.
Uma das possíveis
boas notícias é que o novo “The Revenant” (com o subtítulo português “O Renascido”) apela muito mais a
uma certa espiritualidade que esse tipo de sentimentalismos... E o único facto mais
previsível que encontrei foi de achar que a participação de Leonardo DiCaprio dar-lhe-á
a hipótese de ir pela enésima vez com uma nomeação aos óscares (mas com a “previsibilidade”
de não trazer o “boneco” para casa).
Para além de
DiCaprio, convém destacar também a não menos excelente interpretação de Tom
Hardy.
Realismo
sobre realismo (como a estraordinária e brutal cena de ataque de uma ursa), uma
esplêndida fotografia e imagens em
movimento que acompanham a acção (dentro da acção – há pingos de sangue e de
neve na lente da câmara de Iñárritu) que nunca dão descanso a quem embarca
nesta história de sobrevivência em condições inóspitas.
10 - Courtney Barnett - Sometimes I Sit and Think,
And Sometimes I Just Sit
9 - Sonic Jesus - Niether Virtue Nor Anger
8 - Tame Impala - Currents
7 - Viet Cong - Viet Cong
6 - Floating Points – Elaenia
5 - Jazmine
Sullivan - Reality Show
Voz e presença
portentosas, fez com que “Reality Show” arrebatasse a concorrência no
campeonato Rn’B. Trata-se de uma obra surpreendentemente glamorosa e heterogénea,
tanto brilha nesse género mais dançável, como na sua vertente mais clássica/soul.
4 - Wolf
Alice - My Love Is Cool
Um dos
vários problemas dos festivais de verão em Portugal está no recorrente atraso
de um ano (pelo menos) na contratação de artistas. Exemplos? Os The War On Drugs e os Future Islands
deviam ter vindo aos festivais no ano do lançamento dos seus respectivos últimos
discos, em 2014, e os Wolf Alice, que já nesse ano andavam a espalhar o seu charme
e pujança ao vivo, deviam ter feito um festival ‘tuga este ano, como se este “My
Love Is Cool” não reunisse razões de sobra para tal... Aposto que em 2016 estão cá batidos!
3 - Mew -
+-
Os dinamarqueses
Mew até têm sido uma banda consistente, até que apareceu este disco e muitos dos seus ouvintes e respectiva crítica, salientam um certo retrocesso.
Ora eu penso justamente o oposto: há uma evolução. Ora vão lá escutar outra vez
algumas das melhores faixas “indie pop-rock” do ano, como a “Rows”, por
exemplo.
2 - Desperate
Journalist - Desperate Journalist
Outra
das grandes surpresas do ano também aterrou logo no início de 2015 em forma de
disco de estreia. Quem os escuta pela primeira vez diz que eles não passam de
uma banda de tributo aos The Smiths – como se isso fosse até algo assim muito
desprestigiante – só que estas 11 faixas necessitam muito mais dedicação do que
catalogações espontâneas. A gratificação desse trabalho será mesmo excepcional.
1 - Beach House - Thank Your Lucky Stars
Na
modesta opinião de um fã: os Beach House cometeram dois erros este ano. O primeiro
foi terem lançado dois discos de originais no mesmo ano; o segundo e mais
prejudicial, foi terem deixado o melhor dos dois para o fim. Quem gosta
verdadeiramente da banda ficou ligeiramente dividido (eu sou uma das excepções)
entre duas obras que nem têm assim tantos pontos de contacto e a crítica nem
teve tempo para degustar o primeiro, quanto mais o segundo e os resultados
estão à vista de todos nas várias listas de final de ano por essa “net-a-fora”.
Das mais lamentaveis injustiças, é o que eu digo.
“One Girl. One
City. One Night. One Take.”, o subtítulo de “Victoria”, o mais recente filme do
alemão Sebastian Schipper, serve de mote para lhe fazer uma abordagem
superficial.
Uma rapariga, Victoria, madrilena, jovial,
entre a ingenuidade e a audácia, capaz de dizer coisas tão tontas como intensas:
“You touched my ass!... Say sorry with the heart!”. Uma cidade: Berlim, multicultural,
noctívaga, capital mundial do techno. Uma noite, como qualquer outra, entre os
últimos vestígios da obscuridade e os primeiros momentos da alvorada. Um
(único) plano-sequência, onde os telespectadores, como quaisquer outros
portagonistas deste filme, ficam, desde o seu primeiro segundo, refém do desenlace
da narrativa, não deixando opções de fuga ou formas de ruptura com a realidade –
um dos inúmeros atributos deste filme. Mas falta acrescentar: uma acção.
Uma acção,
irreflectida e inofensiva, que desencadeiam muitas outras. Mais que uma pequena
acção/decisão originar grandes consequências, “Victoria” também pretende
demonstrar que uma paixão ou a solidão pode-nos levar a cometer actos
inconsequentes.
A camara segue
Victoria ao longo de mais de duas horas que dura esta assombrosa obra, até ao
momento em que a paixão é substituída pelo desalento e a solidão volta a
invadir a sua alma, enquanto caminha, nas primeiras horas da manhã, por uma qualquer
rua de Berlim.
A “cereja” no
topo deste magnífico e surpreendente “bolo” é a banda sonora minimalista e intimista - contrastando com a batida techno e a violência
das imagens - que ficou a cargo de Nils Frahm.