quarta-feira, dezembro 30, 2015

Jack, o Sonhador






Quanto menos se souber sobre este filme antes de o ver, melhor. O sucesso da excelente experiência que pode ser a sua visualização passa sobretudo por abordá-lo na perspectiva mais pura e inocente. Como de uma criança (Jack) que celebra o seu quinto aniversário com um radiante despertar para mais um dia, como todos os anteriores: fechado num quarto com a sua mãe, desalumiado, modesto e limitado, mas ainda com espaço para uma cama, uma banheira, duas cadeiras, um roupeiro e uma pequena televisão, onde ele passa algumas horas do dia a ver desenhos animados, como “Dora, a Exploradora” (ironia das ironias).
“Room”, a segunda aventura do irlandês Lenny Abrahamson (o mesmo criador de “Frank”) por terras norte-americanas, teve estreia por cá na mais recente edição do Lisbon & Estoril Film Festival e, se não acontecer um(a) surpresa/milagre via Globos de Ouro/Óscares, só poderá ser visto pelo restante público português só lá para a primavera do próximo ano. Triste sina para uma tão jubilosa, bela e inteligente (qb) obra

terça-feira, dezembro 22, 2015

Há pingos de sangue e de neve na lente da câmara de Iñárritu


Com excepção de “Amores Perros”, os filmes que vi de Alejandro González Iñárritu acabaram sempre por ser negativamente marcados pelo sentimentalismo fácil e a previsibilidade.
Uma das possíveis boas notícias é que o novo “The Revenant” (com o subtítulo português “O Renascido”) apela muito mais a uma certa espiritualidade que esse tipo de sentimentalismos... E o único facto mais previsível que encontrei foi de achar que a participação de Leonardo DiCaprio dar-lhe-á a hipótese de ir pela enésima vez com uma nomeação aos óscares (mas com a “previsibilidade” de não trazer o “boneco” para casa).
Para além de DiCaprio, convém destacar também a não menos excelente interpretação de Tom Hardy.
Realismo sobre realismo (como a estraordinária e brutal cena de ataque de uma ursa), uma esplêndida fotografia  e imagens em movimento que acompanham a acção (dentro da acção – há pingos de sangue e de neve na lente da câmara de Iñárritu) que nunca dão descanso a quem embarca nesta história de sobrevivência em condições inóspitas.

domingo, dezembro 13, 2015

O melhor de 2015 - EPs + LPs



EPs

10 - Okzharp - Dumela 113
9 - Melé - Ambience
8 - Danny L Harle - Broken Flowers
7 - KiNK - Cloud Generator
6 - Etch - The Serpent And The Rainbow
5 - Mark Ernestus' Ndagga Rhythm Force - Yermande
4 - Girl Band - The Early Years
3 - Nomine - Blind Man
2 - Annie - Endless Vacation
1 - Louisahhh!!! - Shadow Work



Álbuns

25 - Years & Years - Communion
24 - Jaakko Eino Kalevi - Jaakko Eino Kalevi
23 - Kauan - Sorni Nai
22 - Lonelady - Hinterland
21 - Purity Ring - Another Eternity

20 - City Calm Down - In a Restless House
19 - K-X-P - III Pt.1
18 - Protomartyr - The Agent Intellect
17 - Nocturnal Sunshine - Nocturnal Sunshine
16 - CHVRCHES - Every Open Eye

15 - DJ Sotofett - Drippin' For A Tripp
14 - Chelsea Wolfe - Abyss
13 - Jenny Hval - Apocalypse, Girl
12 - The Weeknd - Beauty Behind the Madness
11 - Everything Everything - Get To Heaven

10 - Courtney Barnett - Sometimes I Sit and Think, And Sometimes I Just Sit
9 - Sonic Jesus - Niether Virtue Nor Anger
8 - Tame Impala - Currents
7 - Viet Cong - Viet Cong
6 - Floating Points – Elaenia

5 - Jazmine Sullivan - Reality Show
Voz e presença portentosas, fez com que “Reality Show” arrebatasse a concorrência no campeonato Rn’B. Trata-se de uma obra surpreendentemente glamorosa e heterogénea, tanto brilha nesse género mais dançável, como na sua vertente mais clássica/soul.

4 - Wolf Alice - My Love Is Cool
Um dos vários problemas dos festivais de verão em Portugal está no recorrente atraso de um ano (pelo menos) na contratação de artistas. Exemplos? Os The War On Drugs e os Future Islands deviam ter vindo aos festivais no ano do lançamento dos seus respectivos últimos discos, em 2014, e os Wolf Alice, que já nesse ano andavam a espalhar o seu charme e pujança ao vivo, deviam ter feito um festival ‘tuga este ano, como se este “My Love Is Cool” não reunisse razões de sobra para tal...  Aposto que em 2016 estão cá batidos!

3 - Mew - +-
Os dinamarqueses Mew até têm sido uma banda consistente, até que apareceu este disco e muitos dos seus ouvintes e respectiva crítica, salientam um certo retrocesso. Ora eu penso justamente o oposto: há uma evolução. Ora vão lá escutar outra vez algumas das melhores faixas “indie pop-rock” do ano, como a “Rows”, por exemplo.

2 - Desperate Journalist - Desperate Journalist
Outra das grandes surpresas do ano também aterrou logo no início de 2015 em forma de disco de estreia. Quem os escuta pela primeira vez diz que eles não passam de uma banda de tributo aos The Smiths – como se isso fosse até algo assim muito desprestigiante – só que estas 11 faixas necessitam muito mais dedicação do que catalogações espontâneas. A gratificação desse trabalho será mesmo excepcional.

1 - Beach House - Thank Your Lucky Stars
Na modesta opinião de um fã: os Beach House cometeram dois erros este ano. O primeiro foi terem lançado dois discos de originais no mesmo ano; o segundo e mais prejudicial, foi terem deixado o melhor dos dois para o fim. Quem gosta verdadeiramente da banda ficou ligeiramente dividido (eu sou uma das excepções) entre duas obras que nem têm assim tantos pontos de contacto e a crítica nem teve tempo para degustar o primeiro, quanto mais o segundo e os resultados estão à vista de todos nas várias listas de final de ano por essa “net-a-fora”. Das mais lamentaveis injustiças, é o que eu digo.

quinta-feira, dezembro 10, 2015

Uma aurora



“One Girl. One City. One Night. One Take.”, o subtítulo de “Victoria”, o mais recente filme do alemão Sebastian Schipper, serve de mote para lhe fazer uma abordagem superficial.
Uma rapariga, Victoria, madrilena, jovial, entre a ingenuidade e a audácia, capaz de dizer coisas tão tontas como intensas: “You touched my ass!... Say sorry with the heart!”. Uma cidade: Berlim, multicultural, noctívaga, capital mundial do techno. Uma noite, como qualquer outra, entre os últimos vestígios da obscuridade e os primeiros momentos da alvorada. Um (único) plano-sequência, onde os telespectadores, como quaisquer outros portagonistas deste filme, ficam, desde o seu primeiro segundo, refém do desenlace da narrativa, não deixando opções de fuga ou formas de ruptura com a realidade – um dos inúmeros atributos deste filme. Mas falta acrescentar: uma acção.
Uma acção, irreflectida e inofensiva, que desencadeiam muitas outras. Mais que uma pequena acção/decisão originar grandes consequências, “Victoria” também pretende demonstrar que uma paixão ou a solidão pode-nos levar a cometer actos inconsequentes.
A camara segue Victoria ao longo de mais de duas horas que dura esta assombrosa obra, até ao momento em que a paixão é substituída pelo desalento e a solidão volta a invadir a sua alma, enquanto caminha, nas primeiras horas da manhã, por uma qualquer rua de Berlim.
A “cereja” no topo deste magnífico e surpreendente “bolo” é a banda sonora minimalista e intimista - contrastando com a batida techno e a violência das imagens - que ficou a cargo de Nils Frahm.