sexta-feira, dezembro 23, 2022

A última dança

 

Seria capaz de ser interessante perceber a percentagem de casos de perturbações mentais provocado, em qualquer cidadão comum, pelo confronto entre as suas expectativas e a realidade. 
Esse pode ser o leitmotiv do filme Aftersun, o "debut" de Charlotte Wells. 
Nele somos testemunhas dos dias de férias partilhadas entre um pai e uma filha na Turquia. Ao longo do filme, percebemos que a descontração da sua relação contrasta fortemente com o transtorno emocional que o pai vive interiormente.

Não vemos muitos sinais de uma depressão, mas destaca-se uma cena fortíssima em que vemos essa personagem a chorar compulsivamente, de costas para a câmera, sentado numa cama, sozinho, no quarto do Hotel.

Tudo se passa de uma forma ainda mais despercebida aos olhos da sua filha. Ela passa pelo fase do início da adolescência, tem as suas próprias "dores" de crescimento e algumas delas passam justamente por entender as contradições da vida adulta: dois pais que dizem um ao outro que se amam, mas que se separaram? 

Cerca de 20 anos depois, estas férias continuam no pensamento desta mulher, pois provavelmente terão sido as últimas que passou com o seu pai.
O trauma parece acompanhá-la ao longo de todos esses anos. Ela tenta obter alguns sinais nas imagens de vídeo que o pai gravou durante essas férias.
Para além deste auxiliar da memória, há um sonho constante em que se vê o pai, em transe, a dançar numa rave.
O mais real que ela testemunhou desta natureza, foi na última noite dessas férias quando o pai tentou convencê-la a ir dançar para junto dele numa pequena festa ao ar livre no Hotel, onde estão hospedados. 
O pai move-se energicamente ao som de "Under Pressure" e ela mantém-se inerte a assistir, enquanto se ouve o Freddie Mercury cantar: 
(...) And love dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is our last dance
This is ourselves


quarta-feira, outubro 26, 2022

Grande Naco (da) Rinchoa 28

 

Subitamente ficou tudo com o "pito" (literalmente) aos saltos com gajos fardados no Tinder.
Foram acusados de falta de conduta e de postura imprudente, pela GNR, e de concorrência desleal, no Reddit. Entretanto, pelo sentido de humor, já são coroados reis no Twitter.
Ainda não vi ninguém apontar o óbvio: mais surpreendente do que se concluir que alguns homens fardados ainda precisam de uma app para "faturar", é constatar como o engate chegou a este nível infinitesimal de esforço e de sedução.

quinta-feira, outubro 13, 2022

Desconcerto

 @ "Cá Por Casa" desta noite:

Herman José: "Oh Trigacheiro... Já enviaste alguma dick pic?"

Touché - a pergunta desconcertante para os marialvas da geração z - adoro-te Herman!

domingo, fevereiro 06, 2022

As escolhas de 2021 - Filmes

10. De uskyldige
9. Pig
8. Come True
7. Nitram
6. The Lost Daughter


5. The Father
4. Bo Burnham: Inside
3. The Power of the Dog
2. Violation
1. Nomadland

domingo, janeiro 23, 2022

As escolhas de 2021 - músicas

50. Claudia Valentina - C'est La Vie
49. Mustafa - Come Back
48. Sunstinger - Shadows
47. Au Ra - Screw Feelings
46. TRESOR feat. DJ Maphorisa, Kabza De Small - Makosa
45. Gorgon City - Dreams (ft. Jem Cooke) (Totally Enormous Extinct Dinosaurs Remix)
44. CHVRCHES - How Not to Drown (feat. Robert Smith)
43. Turnstile - FLY AGAIN
42. Obongjayar - Gone Girl
41. Magdalena Bay - Secrets (Your Fire)
40. Frederik Valentin (ft. Jeuru) - Blue
39. Doja Cat, The Weeknd - You Right
38. The Zephyr Bones - Celeste V
37. Julia Michaels - Little Did I Know
36. Tom Staar & Ferry Corsten feat. Darla Jade - Glow (Extended Mix)
35. King Gizzard & The Lizard Wizard - Dreams
34. Marcus Whale - Portal
33. Lizzie Loveless - Again
32. The Bug - 'How bout dat (feat. FFSYTHO)
31. Lost Girls - Love, Lovers

 

 

30. The War On Drugs - I Don’t Live Here Anymore
29. The Jaffa Kid - Sbds
28. Morning Show - Onward!
27. Ethel Cain - God's Country (feat. Wicca Phase Springs Eternal)
26. Mogwai - Midnight Flit
25. Yola - Dancing Away In Tears
24. Geese - Disco
23. Lil Nas X - MONTERO (Call Me By Your Name)
22. SYML - The War (Recorded at St. Mark's Cathedral)
21. Deafheaven - Great Mass of Color
20. Pedro Mafama – Cidade Branca
19. Kokong - The Mediterroranean
18. Tion Wayne - Wow
17. Future Utopia - Mountain Girl ft Ruelle (Future Utopia Remix)
16. Lana Del Rey - Chemtrails Over The Country Club
15. Halsey - I am not a woman, I'm a god
14. Lisa Gerrard & Jules Maxwell - Deshta (Forever)
13. Agnes - Fingers Crossed
12. Gabriel Rios - Ausencia
11. Tinashe - Bouncin

 

 

10. Dry Cleaning - Scratchcard Lanyard
9. Tems - Crazy Tings
8. The Joy Formidable - Left Too Soon
7. Nation of Language - This Fractured Mind
6. BENEE - Doesn´t Matter
5. Ovlov - Eat More
4. Liniker - Lili
3. Spellling - Boys at School
2. My Life As Ali Thomas - Ocean
1. Sam Fender - Seventeen Going Under

 

terça-feira, dezembro 28, 2021

As escolhas de 2021 - ep's

 


10. L Devine - Near Life Experience Part One 

9. Coach Party - After Party

8. Zoe Wees - Golden Wings

7. Narciss - Dear Diary

6. Sunstinger - Beyond The Frame


5. Obongjayar & Sarz - Sweetness

4. heka - (a)

3. Courting - Grand National

2. Another Sky - Music For Winter Vol. I

1. Ethel Cain - Inbred

terça-feira, dezembro 14, 2021

As escolhas de 2021 - álbuns

 

 

20. The War On Drugs - I Don’t Live Here Anymore

19. Lord Huron - Long Lost

18. Tinashe – 333

17. Sons of Raphael - Full-Throated Messianic Homage

16. Faye Webster - I Know I'm Funny Haha

 

15. Lost Girls - Menneskekollektiv

14. Lana Del Rey - Chemtrails Over The Country Club

13. ViVii – Mondays

12. Audrey Nuna - A Liquid Breakfast

11. CHVRCHES - Screen Violence

 

10. King Gizzard and The Lizard Wizard - Butterfly 3000

9. Griff - One Foot In Front Of The Other

8. Billie Eilish - Happier Than Ever

7. Spellling - The Turning Wheel

6. Yola - Stand For Myself 

 

5. Deafheaven - Infinite Granite

4. Pedro Mafama - Por Este Rio Abaixo

3. Turnstile - GLOW ON

2. Black Country, New Road - For the first time

1. Liniker - Indigo Borboleta Anil

segunda-feira, outubro 11, 2021

Intervenção divina

Liniker tem o melhor da MPB. Tem bossa nova, samba, jazz, neo-soul, jovialidade, pujança, rebeldia. sedução e carisma. Mais que uma revelação, Liniker é um autêntico milagre nas nossas vidas.

 


 


quinta-feira, abril 15, 2021

Da violação na ordem natural das coisas


A sequência reverência > violação > vingança é muito recorrente na narrativa cinematográfica. Por regra, toda a violência que se aplica na última fase desta sequência, é justificada pela brutalidade das cenas da fase que a antecede. No fundo tenta-se implicar uma moral de que o(s) estuprador(es) "recebem o que merecem". Por isso, passa a existir uma atenção e dedicação exclusivamente na vingança, ao ponto de tornar este tipo de filmes “fun to watch”, diria até, independentemente do grau de violência das imagens. Também não é menos comum que a dose de violência seja equilibradamente repartida entre o ato de violação e o da consequentemente represália.

Clichés atrás de clichés vai-se tentando justificar um certo e sádico prazer de retaliação. Tanto que uma boa dose destas histórias trágicas passam pela morte da vítima e a vingança até acaba por ser perpetuada pelo familiar mais próximo. Portanto a vingança aparece então assim como um acto transmissível post-mortem, como se as perspetivas de uma violação, da filha violada ao pai justiceiro, pudessem ser sequer comparáveis. Portanto, grande parte das obras perdem-se no estabelecimento da moralidade com o ato da vingança, em vez de, por exemplo, debruçarem-se sobre as causas da própria agressão sexual.

Uma das mais recentes obras que segue a referida sequência, chama-se  “Violation” e é uma estreia em longa-metragem da dupla Dusty Mancinelli e Madeleine Sims-Fewer - sendo que esta também é a principal protagonista do drama. No entanto “Violation”, quebra todas as regras do típico filme Rape-Revenge: as imagens do estupro resumem-se a pequenos close-ups do momento, camuflados pela natureza onde o acto decorre, sendo que toda a dose de violência e “pornografia” (fica desde já o aviso) é transferida para a fase da vingança. O único corpo que se mostra e que acaba por ser realmente “violado” é o do próprio violador. Trata-se de uma ambiguidade que deixa toda a gente confusa, incluindo a crítica. Pelo que já li, trata-se de uma estratégia pouco apreciada, por desencadear um certo distanciamento com a audiência.

Pois é justamente a partir de todas estas opções inesperadas que tornam este filme mais incómodo, mas, simultaneamente, mais interessante.

Pode não ser tão subversivo como “Irreversível”, mas a disposição não linear de cenas e o misto de um sentimento de decepção e insegurança que fica no final, por se achar que a punição possa não ter sido a mais justa ou acertada, são, de certa forma, comparáveis com a referida obra de Gaspar Noé. Depois, tudo o resto é incomparável. A começar no intrigante paralelismo com o lado mais selvagem da natureza. Como referi, a violação aqui não é sexual e fetichista como os outros filmes do género, em “Violation” só se viola a ordem natural das coisas: a presa que caça e “come” o predador.

Destaca-se igualmente a complexidade das personagens, sobretudo da principal, que revela uma certa frustração de não conseguir ser feliz e de invejar a felicidade alheia. Basta pensar nos poucos, mas importantíssimos momentos em que vemos lágrimas a escorrerem-lhe pela face.

Este filme parece querer revelar que uma violação nunca se resume ao estupro de um corpo alheio e do consequente trauma, mas tudo o que lhe antecede, tudo o que torna as pessoas mais carentes e vulneráveis, ao ponto de se deixarem iludir por cortesias mal intencionadas ou por desígnios incompreendidos.

Depois de “Nomadland”? Definitivamente: este ano cinematográfico não poderia ter começado melhor.