quinta-feira, outubro 15, 2026

Bruno Nogueira: o que acontece depois do riso?

A provocação é talvez o fio que atravessa toda a carreira de Bruno Nogueira, desde as primeiras aparições no Levanta-te e Ri até Ruído. Mas aquilo que mudou profundamente foi a função dessa provocação. Se inicialmente ela surgia sobretudo como irreverência, transgressão e vontade de testar os limites do humor, com o tempo tornou-se uma ferramenta para colocar o espectador desconfortável perante esses mesmos limites.

Se no início a provocação servia sobretudo para surpreender, transgredir e fazer rir, hoje parece ser um instrumento para perturbar certezas e obrigar o espectador a olhar de outra maneira para aquilo que julgava conhecer. É também aí que, a meu ver, se estabelece a abismal diferença entre o seu humor negro e o de autores como Rui Sinel de Cordes: não tanto na matéria abordada, mas na finalidade — num caso, o choque pode ser o próprio objectivo; no outro, o choque é apenas o ponto de partida para uma reflexão. 

Às vezes, vejo um sketch de Ruído e tenho a sensação de que aquilo não foi construído apenas para me fazer rir. Foi construído para me pôr à prova. A piada acontece, eu rio-me — e só depois percebo que fiquei com uma espécie de obrigação de reagir àquilo que acabou de acontecer. Como se o riso não tivesse encerrado o sketch, mas o tivesse aberto.

Talvez esta seja a grande transformação do percurso de Bruno Nogueira, desde as primeiras noites de Levanta-te e Ri até a Princípio, Meio e Fim, Tabu e agora em Ruído: a irreverência, o humor negro e a provocação transformaram-se na capacidade de nos fazer rir de uma coisa e, quase no mesmo movimento, fazer-nos perguntar porque é que nos rimos dela.

É nesse momento que o humor deixa de ser apenas entretenimento.

E é também nesse momento que nasce um autor.



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