Há verdades
incómodas que insistem em sobreviver a governos, programas eleitorais e
conferências de imprensa. Uma delas é a lei da oferta e da procura. Outra é que
ignorá-la não a faz desaparecer — apenas torna os resultados mais caros. Ainda
assim, a política de habitação em Portugal parece empenhada em testar até onde
vai a paciência da economia.
O atual Governo
decidiu enfrentar o problema dos preços da habitação com uma estratégia
engenhosa: facilitar a compra de casas esperando que isso as torne mais
baratas. Para tal, isentou jovens do IMT e do Imposto do Selo e acrescentou uma
garantia pública de até 15% do valor do crédito à habitação. A ideia implícita
parece ser a de que, se mais pessoas conseguirem comprar casa, então — por
algum mecanismo místico ainda não descrito em manuais de economia — os preços
acabarão por cair.
A economia,
ingrata como sempre, recusou colaborar.
Num mercado onde
a oferta de habitação é estruturalmente escassa e reage lentamente, reduzir
impostos sobre a compra não torna as casas mais acessíveis; torna os
compradores capazes de pagar mais por elas. O resultado não é uma descida de
preços, mas sim a sua adaptação ascendente. O subsídio não desaparece: é
incorporado no preço. O jovem agradece, o vendedor agradece ainda mais, e o
mercado segue imperturbável.
Esta conclusão
não é fruto de cinismo ideológico, mas de evidência empírica. Um estudo citado
pelo jornal Públicomostra que a poupança proporcionada pela isenção de IMT é
totalmente absorvida pela subida dos preços em poucos meses — três a quatro
meses nos imóveis mais baratos, cerca de quinze meses nos mais caros. Ou seja,
o Estado alivia o jovem hoje para que o mercado lhe cobre amanhã, com juros
implícitos.
O mais fascinante
nesta abordagem é a insistência em tratar um problema de escassez de oferta
como se fosse um problema de falta de procura. Em vez de construir mais,
libertar solo urbano, reformar seriamente o licenciamento ou investir de forma
consistente em habitação pública, opta-se por tornar o crédito mais fácil e os
impostos mais baixos. É como tentar baixar o preço dos bilhetes para um
concerto esgotado… oferecendo cartões de crédito a quem ainda está na fila.
Há ainda a ironia
suprema: estas medidas são apresentadas como combate à especulação. Na prática,
fazem exatamente o contrário. Aumentam a concorrência entre compradores,
reforçam expectativas de preços mais elevados e sinalizam ao mercado que o
Estado está disponível para apoiar a procura sempre que os preços sobem — uma
garantia implícita que qualquer especulador entende perfeitamente.
Nada disto
significa que apoiar jovens seja errado. Significa apenas que subsidiar a
procura não é política de controlo de preços. É política de redistribuição
disfarçada, frequentemente regressiva, e quase sempre ineficaz num mercado
rígido. Ajuda alguns a entrar hoje, empurra outros para fora amanhã, e não
resolve o problema central: há poucas casas para muitas pessoas.
No fim, a lei da
oferta e da procura mantém-se teimosamente intacta, apesar dos comunicados de
imprensa. E a habitação em Portugal continua extremamente cara não porque a
economia falhou, mas porque se insiste em legislar como se ela não existisse.
Estou a ouvir o novo albúm da Rosalía nuns medicocres headsets de escritorio e parece que, mais do que cometer um pecado sem perdão, estou a perpetrar o maior dos desrespeitos sobre uma obra e a sua artista.
Na (provavelmente) melhor edição de sempre do Festival Primavera Sound no
Porto, os Turnstile vieram mostrar como têm adaptado a sua actuação perante grandes massas e ao
vertiginoso crescimento da sua popularidade.
Uma coisa é certa, por maior distanciamento ou fosso que criem (literalmente) entre a
banda e o seu (novo) público, os seus sentimentos de generosidade e afectuosidade continuam
intactos.
Tendo em conta as restantes 14 performances da 1ª semifinal do ESC, não me chocou mesmo nada que Portugal tenha passado à final.
Na verdade, até acabou por ser uma boa surpresa que, por entre tanta desafinação e várias canções parolas, aquele palco tenha sido invadido, por cerca de 3 minutos, pelo espírito de uns novos The Beatles wannabes.
Enquanto isso, num comício, durante um dos seus discursos alucinados, o líder do Chega tinha uma espécie de um espasmo e foi levado desmaiado para o hospital. Em matéria de fatalidades a acontecer aos nossos extremismos, isto é o melhor que temos para oferecer ao mundo.
Portugal às vezes chega a ser tão alternativo que por momentos penso que estou só a assistir a umas cenas de um filme do Paul Thomas Anderson.
Há diferença entre
ser alvo de humor e de bullying, ou para ser mais claro, há diferença entre as
acções de ridicularizar um mau momento "artístico" (ou só mais um ego
inflado) e uma humilhação?
Diz que sim e é abismal, não só ao
nível da capacidade das "vítimas" recepcionar as mesmas, mas sobretudo
nas verdadeiras intenções de quem as executa.
Os compradores portugueses afundam-se no desespero da caça por uma casa que não esteja a um preço obscenamente inflacionado. Estão completamente impedidos de competir com estrangeiros com bolsos fundos e/ou acesso facilitado a benefícios estatais. Os bancos, impiedosos, aproveitam a descida temporária das taxas de juro para atrair incautos, mantendo, no entanto, spreads vergonhosamente elevados. Os agentes imobiliários, por sua vez, engordam as carteiras neste festim de procura desenfreada, ignorando sem pudor quem tem menos poder de compra e legitimando preços absurdos como se fossem o novo normal. E claro, os vendedores juntam-se a este circo especulativo, atirando para cima mais uma camada de delírio nos valores pedidos.
E o Estado? Não faz nada? Faz, sim senhor. Empurra para o mercado terrenos rústicos, disfarçados de solução milagrosa, que rapidamente se transformam em "imóveis para investimento" ou "com potencial de renovação" — ou seja, autênticas ruínas a preços de ouro. E como se não bastasse, estas casas a cair de podre já estão a ser vendidas a valores que fariam corar imóveis em bom estado. E o pior é que o absurdo continua, sem fim à vista.
A notícia desta noite é que o Festival da Canção de 2025 acabou de dar à luz um nado-morto. Ninguém estava à espera deste desfecho, nem os próprios vencedores.
Após tantas edições já não será surpresa para ninguém, mas este ano o acontecimento acabou por se tornar fatídico no resultado final. A ocorrência pode ser resumida a isto: a votação do júri regional do Festival da Canção é tendenciosa perante os artistas da sua região. Um exemplo claro disso foi o júri da Madeira ter dado a pontuação máxima aos artistas da sua região: os Napa... E isso acabou por ter algum peso na votação final, onde o favoritismo era distribuído por vários artistas, onde NUNCA se incluiu os Napa. Por uma razão aparentemente simples: não interpretam uma canção indie pop suficientemente relevante para um evento desta natureza. (Nesse campeonato ficaríamos até bem mais bem servidos com a canção da Capital da Bulgária, que injustamente nem esteve presente nesta final.)
Para além do grande desfasamento entre as preferências dos jurados e do público, diria que a organização deste certame deveria prestar alguma atenção a esta questão do voto tendencioso no "artista da terra", que está a fazer escola na classe dos jurados, onde supostamente deveria haver isenção. Já basta esse fenómeno acontecer de uma forma incontrolável no público.
A não ser que se pretenda não alinhar o festival com a Europa mas com a parolice. Se assim for, até já estão bem encaminhados.
50. Troye Sivan - Got Me Started 49. Daniela Pes - CARME 48. Full of Hell - Forever Well 47. George Alice - Healed 46. Jersey - Talk Tonight 45. Khaid - Anabella 44. Ratboys - Break 43. Youth Lagoon - Trapeze Artist 42. Elsiane - Tu Mirada 41. Loviet - January
40. The Weeknd - A Lesser Man 39. PinkPantheress feat. Ice Spice - Boy's a liar Pt 2 38. Stockholm - Noir loop 37. Model/Actriz - Slate 36. Eartheater - Crushing 35. Davido - KANTE ft. Fave 34. Olivia Rodrigo - vampire 33. Yng Lvcas & Peso Pluma - La Bebe (Remix) 32. nightly - wear your heart out 31. Isolde Lasoen feat. Bertrand Burgalat - Douce Mélancolie
30. The Empty Threats - New Jet Ski 29. METTE - VAN GOGH 28. SAFIA - A Lover's Guide To A Lucid Dream 27. Silence in the Snow - Ghost Eyes 26. Christine and the Queens - To be honest 25. Maeta - Cool Cat 24. Mon Laferte - Aunque Te Mueras Por Volver 23. Braake - Meine Freunde 22. Tate McRae - greedy 21. Treeboy & Arc - Human Catastrophe
20. Tinashe - Talk To Me Nice 19. Wednesday - Turkey Vultures 18. Metric - Days Of Oblivion 17. Jungle - Back On 74 16. Weval - Forever (Solomun Remix) 15. Cornelia Murr & Alice Boman - Heart of Scorpio 14. Ulrika Spacek - The Sheer Drop 13. Tropics & BINA - Infinite (For Real) 12. Jonathan Bree - Destiny 11. Lana Del Rey - The Grants
10. Jungstötter - Know 9. CARMINHO - O quarto (fado Pagem) 8. Protomartyr - We Know the Rats 7. M83 - Laura 6. Victoria Monét - On My Mama 5. Róisín Murphy - You Knew 4. Gregory Dillon - James Dean 3. bar italia - harpee 2. Helena Deland - Swimmer 1. En Attendant Ana - Wonder
20. Jonathan Bree - Pre-Code Hollywood 19. Troye Sivan - Something to Give Each Other 18. Model/Actriz - Dogsbody 17. Christine and the Queens - Paranoïa, Angels, True Love
16. Victoria Monét – Jaguar II
15. ANOHNI and the Johnsons - My Back Was a Bridge for You
to Cross 14. ELSIANE - S/T 13. Nicole Sabouné - Kismet 12. Romy - Mid Air 11. The Polyphonic Spree - Salvage Enterprise 10. Metric - Formentera II 9. Lana Del Rey - Did you know that there's a tunnel under
Ocean Blvd 8. PinkPantheress - Heaven Knows 7. Kali Uchis - Red Moon in Venus 6. Róisín Murphy - Hit Parade 5. Silence in the Snow - Ghost Eyes 4. Tinashe - BB/ANG3L 3. M83 - Fantasy 2. Wednesday - Rat Saw God
50. Denzel Curry - X-Wing 49. Gilla Band - Bin Liner Fashion 48. HARD FEELINGS - Love Scenes 47. Mike Taveira - Switch 46. BICEP - MELI (II) 45. Baby Tate feat. 2 Chainz - Ain't No Love 44. Sun's Signature - Apples 43. Jenevieve - 2NLuv feat Benziboy 42. Oliver Sim - Romance With A Memory 41. Momma - Speeding 72
40. Tove Lo - Suburbia 39. Ari Lennox - Hoodie 38. Fado Bicha - Requiem para Valentim 37. Katy J Pearson Willow's Song 36. Fred again.. & Romy - Strong 35. Natalia Lafourcade - María la Curandera 34. The Dangerous Summer - Coming Home 33. Kendra Morris - Who We Are 32. Yeah Yeah Yeahs, Perfume Genius - Spitting Off the Edge of the World 31. Metric - Doomscroller
30. Idris Muhammad - Could Heaven Ever Be Like This (Walker & Royce x Chris Lorenzo Remix) 29. Silk Cinema - I'm Found 28. Adalita - Abandoned Houses 27. Eliza - A Tear for the Dreadful 26. Bop-Subwave - Rave I Didn't Know Was The Last 25. The Smile - You Will Never Work In Television Again 24. FKA twigs - ride the dragon 23. The Beths - Silence Is Golden 22. SAULT - Stronger 21. Thyla - Rabbit Hole
20. Clara - To The Moon 19. Working Men's Club - Cut 18. Alvvays - After The Earthquake 17. Grace Ives - Angel Of Business 16. SRSQ - Used To Love 15. Purple Disco Machine Feat Sophie And The Giants - In The Dark 14. Deliluh - Credence (Ash in the Winds of Reason) 13. Shygirl - Poison 12. King Hannah - The Moods That I Get In 11. Rosalía - LA COMBI VERSACE (feat. Tokischa)
10. Andrew Bird - Underlands 9. Kelela - On the Run 8. Arctic Monkeys - There'd Better Be A Mirrorball 7. Ellie Goulding - Easy Lover (Four Tet Remix) 6. Röyksopp - Stay Awhile (feat. Susanne Sundfør) 5. Sea Power - Transmitter 4. Nick León - Xtasis (Feat. DJ Babatr) 3. SZA - Shirt 2. Preoccupations - Tearing up the grass 1. Ethel Cain - Thoroughfare
A
ironia começa logo pelo título do filme e que dá também nome ao bar em
que o protagonista entra após ter sido libertado da cadeia, onde terá
permanecido várias décadas. Mas a ironia depois continua através do seu
passeio pelas catacumbas desse bar, onde testemunha várias cenas hardcore e onde constata o "progresso" dos novos tempos, face às aventuras pelo seu passado de cruising dos wcs publicos, quando a homossexualidade ainda era legalmente proibida. Se aquilo é a "grande liberdade"...
10. A Hero (Ghahreman), de Asghar Farhadi 9. Decision to Leave (Heojil kyolshim), de Park Chan-wook 8. To Leslie, de Michael Morris 7. Speak No Evil, de Christian Tafdrup 6. Everything Everywhere All at Once, de Dan Kwan e Daniel Scheinert 5. The Banshees of Inisherin, de Martin McDonagh 4. Master, de Mariama Diallo 3. The Man with the Answers, de Stelios Kammitsis 2. Aftersun, de Charlotte Wells 1. Great Freedom (Große Freiheit), de Sebastian Meise