sexta-feira, novembro 25, 2005

Coerência

Não posso deixar de louvar o belo trabalho do(s) dono(s) do blogue Kapa, que, aos poucos, tem vindo a recuperar os artigos que saíram na revista com o mesmo nome, no início dos anos 90.
Para quem, como eu, nessa altura não era mais do que um (distraído) adolescente que ocupava muito pouco dos seus tempos livres a ler, e o pouco que lia era por imposição escolar(!), é óptimo poder, hoje em dia, “saborear” os excelentes textos da autoria de A. J. Rafael, Miguel Esteves Cardoso (ver aqui também), Carlos Quevedo, Vasco Pulido Valente, Pedro Rolo Duarte ou... imagine-se, Paulo Portas!
Deste cronista, pode-se ler, logo na edição nº1 desta revista, um artigo (“Quando eu tinha 12 anos”) em que explica porque não gostava de revolucionários – logo no início do texto percebe-se que a aparência e postura descuidadas de Vasco Gonçalves terão sido a principal causa de tal trauma - e consequentemente, se tornou (logo aos 12 anos!?), um fã da “direita moderna”.

“Lembro-me perfeitamente. Como se fosse hoje. Vasco Gonçalves apareceu na televisão mais despenteado do que nunca. Parecia sentado numa cadeira, mas na verdade deitava-se nela. Fazia gestos brutos e metralhava palavras de irritação geral com o mundo. Havia baba e raiva. Ele coçava-se e a câmara tremia. Punha e tirava os óculos ao compasso dos amores e dos ódios.
(...)
A aparição do companheiro Vasco teve o efeito de me decidir. A imagem dele faz parte da minha memória do mal. Porque há sempre um momento, sei que Vasco Gonçalves teve a maior importância na minha iniciação militante. Se a primeira vez é importante, ele foi a minha primeira vez em política. Podia tê-lo seguido e ficaria do lado de lá da barricada: talvez fosse hoje um desses homens de esquerda que todos os dias matam a sombra, apagam o lastro e gozam o sistema. Mas não. Devo a Vasco Gonçalves o facto de ser uma criatura irremediavelmente de direita.
Olhei para ele e fiquei contra-revolucionário. Daí para a frente, passei a desconfiar dos militares e a detestar o comunismo. Quanto aos militares, façam lá o que fizerem as fardas oficiais, quero-os longe.”

Mas...?

Fico-me por aqui!

PS1 – O resto do texto/conto está muito bom e tem um final feliz mas dramático: ele escolhe Sá Carneiro em detrimento de Mário Soares e Freitas do Amaral.

PS2 – Confesso que até nem poderei ter tido uma adolescência perfeita (podia ter jogado menos à bola com os amigos e ter lido mais, por exemplo) mas pelo menos não me arrependo da pouca televisão que vi, pois parece que isso sempre pode ter demasiadas repercussões no nosso futuro (profissional, também) e ser perigosamente castrador.

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