quinta-feira, janeiro 26, 2012

Escândalo: faz-se serviço público com cartas de Tarot


As “Cartas da Maya” é o meu guilty pleasure de quase todas as manhãs. Foi a companhia que escolhi para o meu pequeno-almoço. Claro que podia ser muito melhor, mas também podia ser pior, como os noticiários pré-formatados dos canais concorrentes.

Do que já vi até hoje, ainda não presenciei nenhum caso em que ela tivesse dado indicações contrárias aquelas que um médico, um advogado ou um psicólogo pudesse dar, baseado exclusivamente nas escassas palavras do outro interlocutor. Pelo contrário, já a vi mais que uma vez a incentivar para que as pessoas recorram à medicina portuguesa, ao mesmo tempo que a elogia desmesuradamente. Também já assisti a um caso em que ela deu todas as indicações certas para que uma pessoa pudesse avançar com umas partilhas. Nos casos sentimentais, o que oiço dali é basicamente o concelho que se espera do melhor amigo ou amiga. Se alguém se vê envolvido com alguém casado, que se acabe com as ilusões e que se ganhe consciência imediatamente das reais possibilidades de tal relação; se o filho arranjou uma mulher que lhe inspira pouca confiança, que deixe o filho sair definitivamente debaixo das suas saias e que aprenda a viver sozinho os seus amores e desamores; ...

Sinceramente, acho que mais grave do que ela fornecer informações que não são da sua competência, como já foi acusada, é haver tanta gente a precisar de recorrer aos serviços de uma taróloga para se orientarem nesta sociedade. Isto pode ser um indicador de desequilíbrio destas pessoas que ligam insistentemente para aquele número de valor acrescentado para que alguém lhes diga que se tem qualquer sintoma devem ir imediatamente ao médico, ou se estão desempregados é porque devem mudar de estratégia na procura de emprego, ou procurar formação subsidiada, etc, mas também pode revelar o total descrédito, de algumas daquelas pessoas, no actual funcionalismo público.
O que será afinal verdadeiramente mais perigoso: uma previsão (previsível) em forma de concelho básico da Maya ou um primeiro-ministro que diz “se estás desempregado muda de país”?

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