sábado, março 31, 2012

Um fosso na monogamia



The Monogamy Gap - Men, Love, and the Reality of Cheating, de Eric Anderson
(Oxford University Press)





Por vezes ponho-me a pensar se alguns daqueles objectivos e metas pessoais que assolam todo o jovem quando atinge uma tal suposta maturidade, não passam de desnecessárias expectativas sociais. O casamento é uma delas. Por arrasto, a monogamia é outra.


Monogamy Gap: ser social vs. ser sexual

Um dos grandes conflitos internos de grande parte dos homens e mulheres dos dias de hoje passa pelo que muitos autores, incluindo Eric Anderson, chamam de “monogamy gap”, que eu interpreto pela disparidade e conflito entre a nossa vontade pública de portarmo-nos como seres monogâmicos e os nossos desejos mais privados irem por outros caminhos, seguindo uma vida sexual mais livre e plural. É verdade que há quem consiga combinar ambas as vias, mas dificilmente conseguirá fazê-lo sem deixar de magoar alguém com quem se “monogamicamente” comprometeu. Mesmo assim há quem prefira arriscar e continuar a viver na ilusão de que nunca será descoberto. Tal como, do outro lado da barricada, haverá quem, ainda que conhecendo a tendência promiscua do(a) parceiro(a), ache que conseguirá um dia mudar-lhe essa faceta da sua personalidade. Como disse, ilusões.


Animais racionais e muito sexuais 
 
A monogamia é um assunto muito sensível tanto do ponto de vista biológico como sociológico.
Fazemos parte da natureza e a esta é tudo menos monogâmica e se é verdade que a nossa “biologia” predispõe ambos os sexos para a variedade sexual, também não é menos verdade que algumas das melhores coisas em que nos envolvemos vão contra os nossos instintos. É esta grande capacidade racional que nos distingue dos outros animais e faz qualquer comparação com eles parecer descabida.
Aliás, usar exemplos do reino animal para justificar ou defender certos comportamentos humanos é montar e cair na nossa própria armadilha. “Se os macacos são promiscuos, como é que podem esperar que eu seja fiel?”. Há animais que matam outros só para defender o seu território, podemos passar a defender o homicídio?

Há inúmeras provas de que nós somos mais inteligentes que qualquer outro animal e temos essa capacidade de nos envolvermos de uma forma extraordinária e a longo prazo com um único ser. Mas a grande dúvida é se os nossos instintos básicos acompanham essa opção, nunca esquecendo dois pressupostos: ignorar a compulsão não a faz desaparecer e a ocasião faz a oportunidade.

A estatística não engana. De acordo com a US Pornography Industry Revenue Statistics, só no ano de 2006, a população humana deste planeta gastou qualquer coisa como 97 biliões de dólares em material pornográfico, um valor que execedeu a soma das vendas desse ano de várias super-empresas, tais como a Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo!, Apple e Netflix. Quando isto é combinado com a estimativa de centenas ou milhares de relações sexuais que cada pessoa tem por nascimento (número que poderá fazer corar qualquer chimpazé pigmeu) torna-se um pouco difícil negar o nosso lado de besta sexual.


Do affair ao recreational sex

Portanto somos um outro tipo de animal, mais evoluído, mais inteligente, ao ponto de estar habilitado de fazer certas escolhas. Só que para muita gente a monogamia nem sequer é um escolha, é uma imposição (social), o que depois torna mais óbvia a escolha consequente: a infidelidade – que é, diga-se de passagem, das escolhas mais egoístas que temos à nossa disposição. Depois diz-se: escolheste, agora assume as consequências dessa escolha. 

Em todo o tipo de relacionamentos pode haver pelo menos um elemento que revela o seu egoísmo. Acontece em muitos casos em que um elemento do casal pede mais tolerância face a um ocasional “deslize”, mas se este é confrontado com a hipótese de acontecer à outra parte, ele actuará dessa forma tão tolerante? Pode-se concluir que numa perspectiva pessoal, uma infidelidade é “só sexo”, “só físico”, quando aplicado ao outro, passa a ser algo mais complexo, sobretudo, emocional. (Pelo que me tem sido dado a conhecer, os homens têm muito mais facilidade em fazer esta separação que as mulheres.)

Isto leva-nos a uma das outras dúvidas muito comuns: o sexo recreativo é mais desculpabilizável que um “on-going affair” porque o amor continua? Se consentido pela outra parte, nada a acrescentar, siga para bingo: há inúmeras formas de sermos felizes com os outros. Se desconhecido: é possível (simultaneamente) amar e desrespeitar a mesma pessoa? É um desrespeito que chega a ser perigoso, porque numa relação extraconjugal, além da confiança, também se coloca em jogo algo tão importante como a saúde do parceiro traído.


Uma espécie monogâmica tão hipersexual

O homo sapiens sempre se revelou poligâmico mas, ao longo dos séculos, a evolução humana foi marcada por processos sociais de adaptação ao meio envolvente. Com a sedentarização, criou-se o núcleo familiar, no sentido mais restritivo de como o conhecemos hoje. Assim nasce a monogamia, que a religião se incumbiu de vigiar, tomando conta da consciência dos seus fiéis e de lhes “vender” o pecado “mortal” por excelência: o adultério.
A realidade é que somos seres humanos todos diferentes e, ao contrário do que se pensa comummente desde aqueles tempos, a monogamia é o modelo que menos funciona para grande parte dos cidadãos deste mundo. Não há prova mais realista disso do que o facto de mais de metade dos divórcios dos dias de hoje se deverem a infidelidades.

A outra realidade é que há casos de sucesso em relações poliamorosas e isso explica-se pelo facto destas regerem-se por princípios mais saudáveis e menos castradores. São relações que estão devidamente assentes nos pilares da honestidade e da responsabilidade: a sinceridade total entre os parceiros e a obrigatoriedade da prática de sexo seguro nas relações extra-conjugais. A questão é que muito pouca gente está predisposta a aceitar estas regras e há quem só as aceite devido a factores de ordem social ou, diria, do politicamente correcto: “acabar com um casamento historicamente rico e com muito amor, com os filhos pelo meio, por causa de umas quecas por fora?”. É esta a principal limitação de algum tipo de relações abertas: a hipocrisia. Ou seja, a maior parte das vezes vive-se em função do sexo, mas raramente se admite a sua importância para a estabilidade conjugal. Parece que o fundamental passa por manter sempre uma boa imagem social, o que depois na prática, torna este modelo não assim tão diferente de muitos outros onde vigoram relações menos liberais – enfim, um erro colossal.


Parece que não há modelos perfeitos. Mas há e, para grande surpresa destes novos pseudo-cientistas, até podem ser monogâmicos, lá está, basta pensar bem naquilo que verdadeiramente desejamos, fazer conscientemente a nossa própria escolha e viver em função dela.
A chave de qualquer relacionamento, mais que o auto-controlo e honrar as cláusulas explícitas e implícitas de um compromisso, é só uma: comunicação bilateral com total sinceridade.

Acredito que o futuro dos relacionamentos devia passar pela coragem de expressarmos os nossos sentimentos e seguir sempre os nossos desejos. Só assim conseguiremos ultrapassar a barreira do politicamente correcto que a sociedade parece querer nos impor, e que nem sempre nos traz aquela felicidade e a estabilidade apregoadas.

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