terça-feira, maio 31, 2011

Eu ostracizo, tu ostracizas

Depois do aviso da polícia moscovita, o arraial gay de Moscovo do fim-de-semana passado já estava predestinado a dar "molho". Mas a novidade dos acontecimentos não esteve tanto na dispersão e nas detenções de manifestantes - como os media 'tugas limitaram-se a despachar em quatro ou cinco linhas - mas na parte em que afinal a polícia contou com a ajuda dos grupos de neonazis. E estes até já tinham andado a treinar recentemente... Contra os organizadores de um "flash mob"!

We witnessed a high level of fraternisation and collusion between neo-Nazis and the Moscow police. I saw neo-Nazis leave and re-enter police buses parked on Tverskaya Street by City Hall

Our suspicion is that many of the neo-Nazis were actually plainclothes police officers, who did to us what their uniformed colleagues dared not do in front of the world’s media. Either that, or the police were actively facilitating the right-wing extremists with transport to the protest.


Setenta anos depois da invasão da União Soviética por parte das tropas de Hitler, as mais altas instâncias russas dão claros sinais de que os seus antepassados, que heroicamente resistiram às investidas alemãs, estavam errados: pois parece que ser nazi é que é fixe! E esta não é a primeira vez que o Kremlin demonstra uma relação tão "confraternizadora" com a extrema-direita russa.


Entretanto, por cá, voltamos à campanha.

Durante a visita ao mercado, José Pinto Coelho queixou-se ainda que o seu partido é alvo de "ostracização" da comunicação social e acusou a RTP1 de "discriminação".

Afinal é algo bem mais perigoso que a "discriminação", é a indiferença. Seja para o JPC dizer pela enésima vez que o nosso mal está na perda da soberania nacional e que a solução está em mandar os pretos e os brasileiros para a terra deles, seja para revelar como os neonazis progridem no leste europeu. Como digo, o perigo é essa indiferença ou, melhor, reside no facto da comunicação social portuguesa não entender a distância cósmica que separa a relevância destas duas matérias jornalísticas.

Mas enfim, se a RTP1 e os media em geral são os nossos neonazis ...


sábado, maio 28, 2011

Sempre a mesma cantiga, mas canta.


E para quando a comoção, o pesar e o enternecimento?

Louçã garante que vai "falar à inteligência, à emoção e ao coração das pessoas".

E a aquisição de mais "brinquedos"

... Portas lembrou que "Portugal está à beira de uma declaração de bancarrota" e que a ausência de ajuda externa colocaria em causa pensões e salários.

sexta-feira, maio 27, 2011

Quem não gosta de varrer as contas para debaixo do tapete?



Excepto os mais de 6,7 milhões de euros para esta campanha eleitoral

quarta-feira, maio 25, 2011

Ver para além do choque


Qualquer filme de Gaspar Noé pode ser comparável a um percurso de montanha russa, tanto visual como sentimentalmente. Enter the Void, filme de 2009 que nunca chegou a ter estreia comercial por cá, deve ser o melhor exemplo disso.
A simples e comovente história de amor incondicional entre dois irmãos é subitamente transformada numa viagem transcendental post-mortem (do irmão que morre) pelo mundo underground de Tóquio. Noé filma tudo isto de uma forma brilhante através de travellings pelas ruas e algumas casas de "animação nocturna" daquela cidade com a sua irreverente câmara, fazendo com que este filme seja (sobretudo) uma grande experiência visual.

Mas não é perfeito. As luzes intensas e fixas são exageradas (o strobe até funciona muito bem), as repetições em algumas cenas também, excluimos isto e ficamos com, talvez, menos uma hora de filme (ele, na sua versão original, vai para além das 2 horas e meia) e com uma obra bem mais consistente, menos psicadélica, mais saudável - poupam-se uma ou duas dioptrias por cada olho.
Ok, contem também com algumas imagens chocantes - se bem que, segundo o meu "chocómetro", nenhuma delas ultrapassa a cena da violação do seu filme anterior, Irreversible, e este pôde ser visto em qualquer lado, inclusivé na TV - daí a "mega" censura a que foi alvo.



Facilitaria bastante se a qualidade técnica e artística dos filmes onde se revela imagens (ou ideias) muito chocantes fosse péssima: arrasava-se e, pronto, fim da opinião! Mas não é o caso da cinematografia de Gaspar Noé, como não é o caso, para dar um exemplo ainda mais extremista, de Srpski Film (tradução inglesa: "A Serbian Film"). Por aqui a irrepreensível técnica de edição, a qualidade da fotografia e da iluminação, a atipicidade de um inteligente argumento que resume metaforicamente num filme, com cenas hardcore de infinito escalão, o estado sócio-cultural de uma nação europeia, contrastam fortemente com a crueldade de algumas imagens que assaltam subitamente o ecrã e o nosso espírito.
Há imagens que é preferível deixá-las fechadas a sete chaves no nosso subconsciente, não há? - pois também há realizadores que não se intimidam em mostrá-las.
Portanto é normal que não se consiga ver algo mais para além do chocante. E isso é bom e é mau. Ou melhor: Srpski Film é um bom filme? É um óptimo filme. Recomendá-lo-ia a alguém? Jamais, fujam dele!

Há de ventar

Se tem vento lá fora,
deixa entrar.
Não se esconda,
debaixo da cama também há de ventar.


Etiquetas:

segunda-feira, maio 23, 2011

Uma raça apurada


Incrível: os islandeses GusGus existem desde 1995. Desde esses tempos áureos em que o old-school house e o synth pop começavam timidamente a dar as mãos, que pouco mais se ouviu falar sobre eles. Mas o certo é que eles têm editado algum material. Pouco e, na maioria, desinteressante, mas têm.
Entretanto mudaram para a editora mais (re)conhecida no mundo techno - Kompakt - e a evolução há muito procurada parece-me evidente. Enquanto a electrónica domina e é vencedora, o acordeão e o banjo aparecem, piscam o olho a outras tendências, e erguem a taça.
Vindo de quem vem, depois de todos estes anos, a surpresa não podia ser maior ou não fosse Arabian Horse - para além de uma das mais bonitas raças de cavalos - um dos mais interessantes trabalhos que a música de dança viu nascer este ano.

Over

Changes Come

Blenched

sexta-feira, maio 20, 2011

A quinta dos 1001 quartos

As minhas visitas a locais abandonados são também viagens ao passado. Uma das razões que me levam a querer conhecer melhor estas casas está na hipótese de imaginar como elas eram antes de serem abandonadas. Para tal, tento registar todos os momentos por onde passo, para mais tarde essas imagens facultarem-me nesse processo de dar vida (no meu pensamento) a estes locais. (Com as devidas distancias, e comparando cinematograficamente, será tudo aquilo que James Cameron fez nas melhores partes de "Titanic".)
Há uma outra razão que passa pela curiosidade em ver a natural degradação dos materiais face à natureza envolvente, sem qualquer intervenção humana. É por isso que prefiro locais mais isolados e afastados dos grandes aglomerados populacionais.

Nos arredores de Castanheira do Ribatejo há uma quinta desabitada há muitos anos que sempre despertou-me alguma curiosidade. Apesar de não reunir as tais condições ideais (fica colada à EN1!), recentemente tomei a decisão de a visitar.

Ao contrario do muro que delimita toda a área, a entrada ainda se encontra intacta. Só o seu portão enferrujado revela a passagem do tempo. Ao longo do caminho que me leva as casas, vou constatando da verdadeira extensão que ocupam. Esta quinta ao longe parecia-me composta por vários edifícios e, já no local, confirmo essa tese, mas ainda assim surpreende-me o facto de eles estarem ligados entre si, na tentativa de se isolarem do exterior. Em frente à entrada daquele espaço, há um pequeno túnel que dá acesso às traseiras. Aqui encontram-se alguns anexos. Nomeadamente - só por aquilo que a vegetação deixa ver - alguns canis e um grande armazém.

O lado norte do edifício principal, seria o zona habitável. O seu interior é composto por um labiríntico sistema de quartos (e salas) que desaguam sucessivamente em mais quartos (alguns deles fechados). É muito fácil perder-me por aqui... Mas o perigo nem reside tanto nessa desorientação, mas no facto de algumas destas assoalhadas já não terem tecto/piso - por isso toda a cautela é pouca. Esta parte do edifício é constituída quase sempre por dois pisos - no largo central o piso inferior passa a cave.
Do lado oposto, alguns portões abertos permitem-me ver algo que terá sido em tempos uma adega e vários estábulos. Constato por aqui que algumas telhas já vão cedendo o seu lugar ao infinito do céu. Deve ser mesmo esta a ordem natural das coisas.

Voltando ao exterior e à zona de entrada do edifício, encontro de um lado uma fonte e do outro, um orifício que parece-me ter sido usado como forno. Face a tantos pormenores que este lugar possui, parece-me normal que aqueles tenham-me escapado à chegada. E fui-me embora com a sensação que haveria muitos outros por descobrir.

































quinta-feira, maio 19, 2011

Parece que o responsável pelos títulos dos livros da colecção Anita mudou de área de negócio



A boa notícia cultural da semana é que, apesar de tarde, os (bons) documentários chegam às nossas salas de cinema. A má é que continuam a arranjar títulos que nem lembram ao menino Jesus.

quarta-feira, maio 11, 2011

Apocalipse indie

Não deixa de ser interessante que alguns dos mais aguardados filmes de 2011 venham com uma certa conotação apocalíptica (mesmo que seja no seu sentido mais figurado). Parece-me que estamos perante obras onde a catástrofe seja mais metafórica do que blockbusteriana e, assim sendo, poderá ser a maior das desilusões para os fãs de "2012" ou "Battle: Los Angeles" - fica desde já o aviso.



O já por aqui mencionado Melancholia, de Lars Von Trier, em estreia (e competição) no Festival de Cannes deste ano, aborda a forma como a ameaça da colisão de um planeta com a Terra afecta a relação entre duas irmãs, interpretadas - *respirar fundo* - por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg.


Por falar no nosso planeta, e se houvesse mesmo aqui ao lado outro igualzinho, mas em que este pormenor sci-fi servisse meramente de "pano de fundo" para contar uma bela história de redenção? Convencidos? O júri do Festival de Sundance, ao atribuir-lhe o prémio Alfred P. Sloan, pelo menos, ficou. Trata-se de Another Earth (de Mike Cahill).


De Sundance também veio muito bem elogiado Take Shelter de Jeff Nichols, onde uma tempestade apocalíptica, que se aproxima, serve meramente de pretexto para camuflar uma ameaça maior, menos visível e que já se encontra dentro da casa de uma família do Ohio.


A encabeçar a lista da categoria de "catástrofes não-naturais", há Perfect Sense de David Mackenzie, em que uma epidemia que rouba às pessoas todos os seus sentidos não é impedimento para um chefe de cozinha e uma cientista viverem o amor das suas vidas.